Iphan busca reconhecimento dos geoglifos encontrados no Acre como patrimônio da humanidade

Reconhecimento deve ser da Unesco, órgão da ONU, no mesmo padrão das pirâmides do Egito, de Cuzco e Machu Picchu no Peru; pesquisador e descobridor fala com exclusividade ao Contilnet

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que se reúne na segunda e terça-feira (25 e 26 de março), em Brasília, na 107ª assembleia do seu Conselho Consultivo para decidir sobre o reconhecimento de novos bens como Patrimônio Cultural do Brasil, entre os quais os grafismos do povo Huni Kuĩ, uma população estimada em 14 mil indígenas distribuídos em cinco regiões e 12 Terras Indígenas (TI) no território estadual acreano, deverá voltar sua pauta de análise sobre os Geoglifos encontrados no Acre.

Os Geoglifos estão em fase de estudos para serem reconhecidos como patrimônio mundial pela Unesco e despontam como destino turístico – a Unesco é uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, a Ciência e a Cultura.

Geoglifo do sítio arqueológico de Tequinho, localizado no município de Rio Branco, registrado como patrimônio cultural do Acre/Foto: Uêslei Araújo/Sema

A arqueóloga do Iphan no Acre, Antônia Barbosa, explica que os geoglifos são desenhos que foram escavados no solo, com dimensão real vista apenas do alto. A estudiosa aponta que ainda são necessárias mais pesquisas sobre os sítios arqueológicos do estado, pois, dos 462 geoglifos registrados, pouco menos de 20 foram pesquisados. Apesar da pesquisa limitada, com as informações a que os pesquisadores já têm acesso, é possível fazer inferências.

Arqueóloga Antônia Barbosa/Foto: Marcos Rocha/Sete

O autor das descobertas dos geoglifos – na verdade, desenhos milenares escavados em formatos de quadrados, círculos, retângulos e octógonos – Alceu Ranzi, professor aposentado da Universidade Federal do Acre (Ufac), aos 75 anos, ficou satisfeito ao receber a notícia.

“Quando a gente vai ficando velho é bom que haja esses reconhecimentos. Reconhecimento depois de morto não nos serve para nada”, disse o pesquisador, de 75 anos, em entrevista ao Contilnet pelo aplicativo WhatsApp, na manhã deste domingo (23). “Fiquei muito feliz ao saber disso porque é algo importante e que vai além do conhecimento de nós, acreanos. Ter esse reconhecimento distribuído para o mundo coloca o Acre num roteiro internacional de visitas arqueológicas. Os turistas do mundo que têm interesse nesse tipo de patrimônio olham o que a Unesco diz que é importante e saem pelo mundo visitando esses pontos”, acrescentou.

Alceu Ranzi/Foto: Reprodução/O Eco

O pesquisador Alceu Ranzi citou como exemplo de sucesso dessas visitações os sítios arqueológicos de Machu Picchu e Cuzco, no Peru. Segundo ele, as duas cidades peruanas são centros arqueológicos visitados pelo mundo todo.

“Quem vai a Cuzco vai a Nasca, ao Egito e outros lugares do mundo para visitar as Pirâmides. Vai ao México para ver as pirâmides Maias e certamente o Acre entrará nesse roteiro com muito sucesso”, disse. “Isso aumenta a nossa responsabilidade em estudar, pesquisar e preservar todo esse patrimônio. Nós temos ainda muitas fotos para mostrar das estruturas em estado original e isso precisa ser conhecido”.

Para isso, segundo Ranzi, o Acre precisa se preparar para receber esses turistas interessados em conhecer o passado da Amazônia e do Acre, em particular.

“É preciso treinar guias que possam falar mais de uma língua além do português para receber os primeiros turistas. Os hotéis precisam estar preparados com material sobre o assunto já nas suas portarias. As secretarias de turismo do Estado e dos municípios precisam se preparar também porque temos geoglifos não só em Rio Branco, mas em Brasiléia, Xapuri, Capixaba, Plácido de Castro, Acrelândia, Sena Madureira, enfim, em todos os municípios deve estar preparados para fornecer essas informações e com alguém capaz de conduzir os turistas até os pontos dessas visitações”, disse.

Geoglifo do Sítio Arqueológico Jacó Sá, tombado como patrimônio cultural do Brasil pelo Iphan, uma das principais descobertas arqueológicas do Acre, representando a rica história da região/Foto: Uêslei Araújo/Sema

No entanto, Alceu Ranzi manifestou preocupação com a preservação dos geoglifos. Segundo ele, a rodovia 3167, que liga Rio Branco a Boca do Acre, no Amazonas, corta ao meio vários geoglifos.

“Quem vem do Peru pelo Alto Acre, ali perto de Capixaba, já começa a cruzar com vários geoglifos no meio da estrada, que está asfaltada. O ideal é que se coloque placas indicativas desses monumentos nesses locais, para que o visitante saiba que ele está atravessando os geoglifos, como se faz em qualquer lugar do mundo”, aconselhou.

“Outra atividade interessante seria construir uma torre de visitação, onde o turista pudesse estacionar seu carro, subir na torre e, lá do alto, pudesse observar esses monumentos. Embora eu fique muito feliz em ser reconhecido como o descobridor dos geoglifos, digo que muitos participaram disso e que se trata até de uma ação coletiva. Insisto em dizer que isso deve ser cada vez mais documentado, ainda estudado e reconhecido como patrimônio da humanidade porque de fato é isso o que os geoglifos são”, acrescentou.

Na verdade, os geoglifos fazem parte dos mistérios da Amazônia em terras acreanas, principalmente. Seriam esculturas feitas no solo de dois mil anos. As estruturas, escavadas na terra e formadas por valetas, representam figuras perfeitas, de diferentes formas, sendo observadas na Amazônia Ocidental e, principalmente, no Acre.

Próximo a Rio Branco, capital do Estado, algumas dessas construções, com grande potencial turístico, podem ser encontradas e visitadas. Em todo o Estado, já foram identificados mais de mil geoglifos, mas apenas 462 foram registrados, de acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que tombou como patrimônio cultural do Brasil o geoglifo do Sítio Arqueológico Jacó Sá, em 2018.

Edmar Queiroz, filho de Jacó, mora na propriedade onde está localizado o sítio e conta como foi a descoberta.

“Eu cheguei aqui aos 9 anos e hoje estou com 75. São muitas teorias do que são esses geoglifos. Quando nós chegamos, broquei tudo isso para fazer roçado, plantar milho, macaxeira e arroz. Foi quando eu vi essas valas, mas não fazia nenhum sentido para mim, nem para meu pai. Achamos que era obra da natureza”, relembra.

Edmar Queiroz/Foto: Marcos Rocha/Sete

Alceu Ranzi fez as primeiras descobertas, há mais de 25 anos, ao sobrevoar a área e ver a estrutura.

“No outro dia ele veio de carro pequeno e foi quando entrou aqui e começou a investigar o geoglifo. Depois disso, apareceram várias estruturas”, explica Queiroz, o que foi confirmado pelo pesquisador.

Edmar Queiroz relatou ainda que ele e o pai não perceberam que o solo havia sido retirado e colocado apenas do lado externo das valas, formando a mureta que delimita o sítio.

“O barro do geoglifo foi tirado e jogado todo para fora da estrutura, nada para dentro. Ninguém sabe por quem foi feito, mas devia existir um maquinário, porque é como se fosse o seguinte: pegava o barro por dentro e subia para fazer o despejo, porque é mais alto”, detalha.

Raimundo da Silva, conhecido como “Tequinho”, também é proprietário de uma terra no município de Rio Branco, onde foi encontrado um sítio arqueológico, batizado com o seu apelido.

“Depois que broquei (tirou o mato), descobrimos que era um geoglifo. Desceu aqui um helicóptero e explicaram o que era. Desde então, muitos alunos vêm visitar e fazer pesquisas, também vêm turistas, e, sempre que posso, indico o local para os visitantes”, conta.

O local se tornou referência em pesquisa e visitas, pela proximidade com a capital e por se localizar em um ramal da Vila Pia, próximo à BR-317. “As portas estão abertas aos visitantes que queiram conhecer”, convida.

Aos 103 anos, Severino Calazans é proprietário da área com sítio arqueológico homônimo, também próximo à capital acreana. Morador da localidade há mais de 30 anos, narra que, assim como Edmar, quem explicou que a estrutura em sua propriedade era um geoglifo foi o professor Alceu Ranzi. “Seu” sítio arqueológico é cortado ao meio pela BR-317, o que também o torna de fácil acesso.

Severino Calazans/Foto: Marcos Rocha/Sete

Severino conta que diversos turistas visitam o lugar.

“Eu atendo direitinho. Toda vida tive respeito. O homem que não respeita não pode ser respeitado. Eles vêm, ficam um pouco e depois vou lá e fecho a porteira. Tenho uma documentação que diz que eu posso chamar qualquer polícia para me ajudar [em caso de desrespeito com a estrutura], mas eu não faço isso, eu falo para terem respeito pelo geoglifo”, relata.

O homem centenário, como todas as outras pessoas que se deparam com o mistério, conta que ainda se questiona como foram feitos e para que serviam os geoglifos.

Sítio Arqueológico Severino Calazans/Foto: Uêslei Araújo/Sema

“Será que esse povo habitava aqui? Será que era cemitério? Tem essa dúvida que fica na nossa cabeça, porque a água fica longe daqui. Fica aquela dúvida sobre moradia. Ninguém sabe de nada até hoje”, diz.

O superintendente do Iphan no Acre, Stênio Melo Cordeiro, explica que o Sítio Arqueológico Jacó Sá foi tombado de forma representativa, com o objetivo de preservá-lo.

“A finalidade de preservar é identificar, estudar e ver a ocupação da Amazônia. Ficamos felizes, porque o Iphan também contribui com o potencial enorme para o turismo que o estado tem. O tombamento ajuda com a divulgação do geoglifo, e uma vez divulgado, há mais condições de preservá-lo, porque a sociedade vai nos ajudar a preservar um patrimônio histórico sobre a Amazônia. Outro ponto é que vamos ajudar na geração de trabalho e renda para o público do Acre, que é um estado riquíssimo em termos ambientais”, avalia.

Stênio Melo Cordeiro/Foto: Marcos Rocha/Sete

Stênio ressalta ainda que, dos 462 geoglifos registrados, 56 se encontram em Rio Branco. “Temos outros geoglifos que estão sendo descobertos, mas o Iphan ainda não conseguiu catalogar, devido à dificuldade de acesso, porque é dentro da floresta, o que dificulta a chegada da equipe”, informa.

O gestor explica que o Iphan tem trabalhado para que os geoglifos sejam transformados em patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). “Quando o turista quer conhecer uma coisa de importância nacional, que é a Amazônia, ele busca os catálogos da Unesco. Estando lá como patrimônio da humanidade, isso favorece a visita aos geoglifos e quem ganha é o estado, com a visita dos turistas”, destacou Stênio.

Confira uma galeria de Mauricio de Paiva, datadas em 2020, de geoglifos no Acre:

PUBLICIDADE