Após 13 anos, professor da Ufac cita autoritarismo ao anunciar desligamento da instituição

O professor desenvolveu o Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica no Acre

Após o professor Dr. Mark Clark Assen de Carvalho anunciar o seu desligamento do âmbito da Universidade Federal do Acre (UFAC), uma carta aberta assinada por ele foi postada nas redes sociais, nessa quarta-feira (26). 

Mark integrava o quadro de Docentes do Centro de Educação, Letras e Artes da Universidade Federal do Acre

Mark Clark foi quem implantou e dirigiu durante esse período o Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) no Acre. 

Confira a carta aberta na íntegra: 

CARTA ABERTA | O Prof. Dr. Mark Clark Assen de Carvalho, que implantou e dirigia o Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) no Acre, anuncia o seu desligamento no âmbito da Universidade Federal do Acre.

“AOS FORMADORES (AS), PROFESSORES(AS)/ALUNOS(AS) CURSISTAS, EGRESSOS (AS) DO PROGRAMA NACIONAL DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA/PARFOR NO ESTADO DO ACRE E A COMUNIDADE EM GERAL”

Nos últimos 13 (treze) anos eu, Prof. Dr. Mark Clark Assen de Carvalho, juntamente com uma equipe excepcional, demos forma e implantamos, no âmbito da Universidade Federal do Acre/UFAC, o Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor). Esta importante ação de formação de professores com o fomento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e de sua Diretoria da Educação Básica/DEB-Capes, insere-se, indiscutivelmente, no cenário nacional, regional e local como um trabalho potente de formação de professores e vem contribuindo de forma efetiva para que os(as) professores(as) da educação básica tenham reconhecido e assegurado o seu direito à formação superior em curso de licenciatura ofertado por universidades públicas.

Com uma maior inserção nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, onde ainda é mais persistente as assimetrias e desigualdades de acesso à educação pública, bem como a manutenção da inadequação da formação em relação às áreas de atuação dos docentes no currículo da escola básica, o Programa, criado nos termos do Decreto 6755/2009 como uma “ação emergencial”, se materializou como uma política de formação de professores nos termos preconizados pela LDB 9.394/96 e se volta para cumprimento no disposto na Lei 13.005/2014 (PNE) relativamente às metas 15, 16, 17 e 18, reforçadas pelas demandas progressivas de formação que as redes públicas de ensino continuam a apresentar especialmente em realidades onde não são realizados concursos públicos para ingresso e cresce o contingente de professores(as) sem formação específica e contratados(as) em regime precário.

No caso da realidade educacional acreana e considerando os indicadores quantitativos e qualitativos, o Programa chegou a 19 dos 22 municípios acreanos, ofertou 05 cursos de licenciatura, formou/licenciou 1.513 professores(as), tendo outros(as) 271 em processo em formação, incluindo-se uma Licenciatura Indígena com 30 professores indígenas a partir da vigência do Parfor/Equidade. Pode-se afirmar que o sucesso dessa ação é resultado de um trabalho comprometido, responsável e competente assumido por um coletivo cujos sujeitos centrais são os(as) professores (as) formadores(as), professores(as)/alunos(as)/cursistas sob a condução da Coordenação Institucional do Parfor na Ufac articulada às demais instituições públicas envolvidas com a ação de formação.

Considerando que se trata de um Programa mantido em regime de colaboração consoante à legislação que o referenda, é imprescindível, portanto, o diálogo, a escuta, a interação e o respeito ao tempo dos parceiros, para poder consubstanciar o trabalho sem atropelos e nem comprometimentos ao sabor de interesses outros que não seja a defesa intransigente “do direito dos(as) professores (as) da educação básica à formação superior”. Pode parecer lugar comum reafirmar a importância, relevância, inserção social, pedagógica e formativa do Parfor, voltado ao atendimento de demandas de formação de professores específicas das redes públicas de ensino. Por essa razão, o Programa é, reconhecidamente, uma ação de inclusão social.

Pelo exposto sirvo-me deste breve relato para demarcar que à medida que minhas ações como Coordenador Institucional do Parfor na UFAC não encontram mais lastro e não se fazem ecoar nas práticas administrativas e políticas da administração superior dessa Instituição de Ensino Superior (IES), sendo comprometidas e desautorizadas por arroubos, passam a inexistir mais razões e condições para seguir à frente da gestão do Programa.

Prova inequívoca daquilo que estou a chamar de desautorização prende- se ao seguinte episódio: no mês de janeiro passado,   quando no estrito cumprimento das atribuições inerentes ao cargo, por ocasião das visitas técnicas e orientações acadêmicas às turmas do interior e para encaminhar as tratativas e as parcerias para assegurar a participação dos cursistas no “III Encontro Regional Norte/Nordeste do Parfor” que seria sediado na UFAC, nesse contexto, a senhora reitora interpela um gestor público que havia me recebido e feito o registro público em uma rede social afirmando que: “quem trata de parcerias e fala em nome da Ufac é ela enquanto reitora”, dando demonstrações inequívocas de autoritarismo, vaidade, ego e desconhecimento das diretrizes que regem o Programa, ignorando, por assim dizer, aquilo que é inerente à condição de todo e qualquer Coordenador Institucional do Parfor : manter trato direto com as Prefeituras e Secretarias Municipais de Educação onde funcionam turmas do Programa.

Na mesma linha posicionou-se a Pró-Reitora de Graduação que, ao ser inquirida por sua superiora, disse desconhecer de que parcerias o Coordenador Institucional do Parfor/Ufac estava a tratar no interior e, no caso em evidência, com uma Prefeitura em particular, tendendo a demonstrar, também, estranhamento ou conveniente desconhecimento sobre uma atividade que, ambientada na Prograd, ano após ano, sempre foi realizada por esta Coordenação nos diferentes municípios acreanos onde o Programa está em funcionamento.

Assim e considerando minha formação acadêmica, tempo de exercício na docência universitária e na gestão acadêmica, militância política e pedagógica no campo da formação de professores, da política educacional e da gestão democrática da educação, não posso coadunar, tampouco me submeter aos ditames de práticas autocráticas, verticalizadas, centralizadoras, “egocentradas”, intolerantes ao divergente, à manifestação livre e soberana de visões e pontos de vista em contrário e ao exercício ético e autônomo do pensamento e da liberdade de ação. Práticas de cerceamento, tentativa de intimidação e ameaça com a perda de cargo de direção são condutas execráveis ainda mais quando praticadas no âmbito de uma universidade dada à sua natureza e razão de ser.

Assim, ao tempo que agradeço pela convivência, parceria e trabalho fecundo realizado ao longo desses anos e desejo a todos(as) sucesso nas etapas que se seguirão, informo que a partir da presente data não mais respondo pela Coordenação Institucional do Parfor. Contudo, seguirei reafirmando meu compromisso acadêmico e político com a defesa da educação pública, gratuita, democrática, diversa e plural, atuando em outras frentes e espaços de interlocução, pois os lugares de representatividade que presentemente ocupo e exerço não resultam da condição de estar investido em um cargo de direção ou em uma coordenação. Ao contrário, são fruto e reflexo de minha construção acadêmica ao longo de 33 anos de exercício no magistério superior que me permitem usufruir de reconhecimento acadêmico e profissional em diferentes instituições e entidades científicas do campo educacional.

Saudações.

Rio Branco-Ac, 26 de março, 2026.

Prof. Dr. Mark Clark Assen de Carvalho

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