A Universidade Federal do Acre (Ufac) se tornou casa de uma quase incontável quantidade de pesquisas, e uma delas ganhou destaque internacional recentemente. O professor doutor Victor Santiago é o responsável por uma dessas pesquisas.

O professor, natural do Rio de Janeiro, representa o estado do Acre e o Brasil no evento internacional/Foto:Cedida
Docente de Língua Inglesa e Literatura na Ufac, ele usou os conhecimentos adquiridos sobre Virginia Woolf, uma escritora inglesa, que foi tema de seu mestrado e doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), para criar o trabalho que o levou para participar de evento no velho continente.
“Sendo uma pessoa queer e favelada, muito interessado em língua estrangeira, sempre me atraíram assuntos do “estrangeiro”, em diversos sentidos. Vi em Woolf uma voz potente para pensar os grandes desafios do nosso tempo, principalmente aqueles ligados às dissidências”, explica.
O evento que levou Santiago para fora do país foi a 34ª conferencia anual internacional de Virginia Woolf, da Universidade de Sussex (34th Annual International Conference on Virginia Woolf – University of Sussex, no original), onde ele apresentou o trabalho Reimaginação Queer de Freshwater, uma comédia, no Brasil (Queer Reimaginings of Freshwater a comedy in Brazil, no original).
Segundo o pesquisador, a idéia de trabalhar a peça em si foi, justamente, pela escassez de conteúdo em português, mas foi além disso, e decidiu dar ainda um próximo passo.
“Minha ideia de pesquisa surgiu após o término do meu mestrado, quando me dei conta de que a única peça de Woolf ainda não tinha tradução para o português e que nunca havia sido montada no Brasil. Realizei a tradução das duas versões de Freshwater: uma comédia (1923 e 1935) e desenvolvi um estudo ainda inédito no Brasil sobre Woolf sob as lentes da comédia, algo também importante para o campo dos estudos literários, levando em consideração que Woolf é muito lida pelo viés da tragédia, da melancolia”, contextualizou.

O trabalho foi apresentado na Universidade de Sussex, na Inglaterra/Foto: Cedida
Ele acrescenta ainda que a possibilidade de dar enfoque a questões relacionadas a minorias dentro de seu trabalho também foi um motivador para a pesquisa.
“Sendo pesquisador da área, resolvi preencher uma lacuna crítica nos estudos woolfianos e das artes cênicas, pensando principalmente na recepção desse trabalho no Brasil, com atenção às questões de raça, classe, gênero e sexualidade”, acrescentou.
A surpresa de Santiago quanto ao pouco desenvolvimento desse olhar sobre a obra surgiu quando, durante o período pandêmico, participou da Virginia Woolf Conference, de maneira remota, e percebeu que o seu objeto de trabalho era pouco observado até mesmo no exterior.
“Em 2025 enviei uma proposta de apresentação para pesquisadores internacionais e fui aprovado, recebendo carta de aceite para apresentar meu trabalho na Universidade de Sussex, na Inglaterra, terra da própria Woolf”.
Sobre a satisfação em apresentar este trabalho, representando o Brasil e a Ufac, ele revela que é um prazer inenarrável em poder colocar o Brasil, em especial o Acre, no centro de um debate mundial sobre o tema.
“Não tinha muita consciência disso, mas sou o único no mundo, até onde sei, que realiza essa pesquisa. Além disso, por ser a primeira vez que saio do Brasil, sou tomado por muitas lembranças de uma infância pobre e difícil, e agora tenho a certeza de que a educação pode sim salvar vidas. Por fim, minha alegria não é apenas minha. Jamais teria chegado aqui sem o apoio da minha família, amigos, companheiros do teatro, meu querido orientador e todos os professores que passaram pela minha vida”, explicou.
Conheça mais de Victor Santiago
O professor Victor Santiago, docente de Língua Inglesa e Literatura no Centro de Educação, Letras e Artes (Cela) da Universidade Federal do Acre (Ufac), construiu uma trajetória marcada por superação, dedicação aos estudos e comprometimento com a educação pública. Nascido e criado no Pavãozinho, comunidade localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, ele viu na educação uma ferramenta essencial para a transformação social e pessoal.
Filho de nordestinos que migraram para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida, Victor estudou em escolas públicas durante toda a infância e adolescência. O incentivo familiar foi determinante para que buscasse oportunidades no ensino superior. Conquistou uma bolsa filantrópica para pessoas em situação de vulnerabilidade social e ingressou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde realizou sua graduação.
A trajetória acadêmica seguiu na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), instituição na qual cursou o mestrado e o doutorado, com pesquisas dedicadas à escritora inglesa Virginia Woolf, com enfoque nos estudos de gênero e sexualidade. A escolha por temas ligados às dissidências e à língua estrangeira esteve conectada às experiências pessoais do pesquisador, que se identifica como uma pessoa queer e oriunda de comunidade periférica.
Antes de ingressar na universidade como professor, atuou em diversas ocupações, como atendente de supermercado, auxiliar em petshop e entregador de quentinhas. Mais tarde, passou a dar aulas em cursos de inglês, mantendo o foco na formação acadêmica. Foi no período de conclusão do doutorado que tomou conhecimento do concurso da Ufac, oportunidade que o levou a se mudar para o Acre e iniciar uma nova fase de sua vida profissional e pessoal como docente no ensino superior.
Quem foi Virginia Woolf
Virginia Woolf foi uma das mais influentes escritoras britânicas do século XX, reconhecida por sua contribuição à literatura modernista e por seu papel central no desenvolvimento dos estudos de gênero, subjetividade e escrita feminina. Nascida em 1882, em Londres, no seio de uma família intelectual da elite vitoriana, Woolf teve acesso a uma educação privilegiada, ainda que informal, e desde cedo demonstrou interesse pela literatura, história e filosofia.

Virginia Woolf é uma grande referência na literatura/Foto: Reprodução
Ao longo de sua carreira, publicou romances, ensaios, críticas literárias e diários que desafiaram as convenções narrativas da época e propuseram novas formas de representação da consciência, do tempo e da experiência subjetiva. Obras como Mrs. Dalloway (1925), Ao Farol (1927) e As Ondas (1931) tornaram-se referências incontornáveis da prosa modernista, pela exploração de fluxos de consciência e estruturas narrativas fragmentadas.
Além da produção literária, Woolf foi uma figura central no grupo Bloomsbury, coletivo de artistas, escritores e intelectuais que discutia arte, política e relações sociais à margem dos padrões conservadores da sociedade britânica. Seus escritos atravessam as fronteiras entre literatura, crítica cultural e teoria feminista, sendo Um Teto Todo Seu (1929) uma de suas obras mais emblemáticas, um ensaio que articula questões de gênero, classe, criação artística e espaço social da mulher escritora.
Virginia Woolf também enfrentou dificuldades emocionais ao longo da vida, marcadas por episódios de depressão e transtornos psíquicos, que influenciaram diretamente sua escrita e visão de mundo. Sua morte, em 1941, por suicídio, não interrompeu o impacto de sua obra, que permanece como referência essencial para a literatura contemporânea, os estudos de gênero e os debates sobre sexualidade, subjetividade e identidade.
Ao questionar as estruturas patriarcais da cultura e propor novas formas de pensar o sujeito e a linguagem, Woolf deixou um legado que ultrapassa seu tempo e ainda inspira pesquisadores, escritoras e leitores em todo o mundo.
