Articulação de governadores “exclui” Bolsonaro e irrita aliados do clã

Por MetrĂłpoles 19/08/2025

A agenda polĂ­tica tocada por governadores de direita apĂłs a prisĂŁo domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem irritado o “nĂșcleo raiz” do bolsonarismo.

Aliados atribuem a postagem feita pelo vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL), e repostada pelo irmĂŁo Eduardo Bolsonaro (PL), em que chama os “governadores democrĂĄticos” de “ratos” e “cĂșmplices covardes”, como uma reação do clĂŁ Bolsonaro a declaraçÔes de teor eleitoral de nomes como o governador de SĂŁo Paulo, TarcĂ­sio de Freitas (Republicanos), afilhado polĂ­tico do ex-presidente, e ao lançamento oficial da prĂ©-candidatura do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), Ă  PresidĂȘncia da RepĂșblica, no fim de semana.

“VocĂȘ acha que essa Ă© a hora de alguĂ©m se lançar candidato quando um ex-presidente, sem culpa de crime nenhum, estĂĄ em prisĂŁo domiciliar? É hora de alguĂ©m arvorar alguma coisa? Por isso que o filho de Bolsonaro, com muita razĂŁo, se posicionou. Eu concordo com ele em gĂȘnero, nĂșmero e grau”, afirmou ao MetrĂłpoles o pastor Silas Malafaia.

Para o lĂ­der religioso, principal organizador dos Ășltimos atos a favor de Bolsonaro, os presidenciĂĄveis de direita, que precisam do eleitorado bolsonarista para serem competitivos em 2026, sĂŁo omissos em relação a “tudo que estĂĄ acontecendo no Brasil”.

“Ele [Carlos] estĂĄ indignado porque estĂĄ vendo o pai dele definhando, doente, e nĂŁo tem uma reação veemente, dura, justa e verdadeira contra Alexandre de Moraes”, disse o pastor, que Ă© crĂ­tico ferrenho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) encarregado dos processos que envolvem os bolsonaristas.

A mando do ministro do STF, Bolsonaro estå em prisão domiciliar desde 4 de agosto. Ele é réu no processo que apura suposta tentativa de golpe do Estado pelo ex-presidente e aliados. O julgamento estå marcado para setembro.

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Agendas polĂ­ticas

Na Ășltima quarta-feira (13/8), um evento sobre agronegĂłcio realizado pelo banco BTG Pactual em SĂŁo Paulo virou palco para governadores de direita cotados como presidenciĂĄveis criticarem duramente o governo do PT e o presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva.

AlĂ©m do governador de SĂŁo Paulo, TarcĂ­sio de Freitas (Republicanos), que afirmou que o “Brasil nĂŁo aguenta mais o Lula” e o PT, os governadores de GoiĂĄs, Ronaldo Caiado (UniĂŁo), e do ParanĂĄ, Ratinho Jr. (PSD), fizeram duros ataques Ă  gestĂŁo petista em seus discursos.

No evento, os palestrantes se colocaram como a “nova safra” de polĂ­ticos e usaram os feitos de suas gestĂ”es nos estados como exemplo de que eles teriam condiçÔes de comandar o paĂ­s. TarcĂ­sio chegou a dizer que ele e outros governadores de direita possuem o “receituĂĄrio” para resolver o problema fiscal e tambĂ©m “moral” no paĂ­s. O nome de Bolsonaro, no entanto, nĂŁo foi mencionado. Da mesma forma, nenhum deles criticou Alexandre de Moraes.

ApĂłs a prisĂŁo preventiva de Bolsonaro e o tarifaço aplicado pelos EUA contra produtos brasileiros, TarcĂ­sio intensificou as agendas com representantes do mercado financeiro. AlĂ©m do evento do BTG, ele se reuniu no Ășltimo sĂĄbado (16/8) com empresĂĄrios em um almoço organizado pelo executivo do Bank of America, Alexandre Bettamio, em sua casa na Fazenda da Boa Vista, em Porto Feliz, a 107 quilĂŽmetros da capital paulista.

No dia 11 de agosto, o presidente do Goldman Sachs, John Waldron, foi ao PalĂĄcio dos Bandeirantes para se reunir com o governador. No dia seguinte, TarcĂ­sio tambĂ©m se reuniu, fora da agenda, com empresĂĄrios de diferentes ramos na casa do cantor Latino. Segundo o empresĂĄrio do artista, o encontro serviu para falar sobre a “atual situação polĂ­tica e econĂŽmica do paĂ­s”. JĂĄ nesta segunda-feira (18/8), o governador paulista palestrou em painel promovido pela empresa Warren Investimentos.

O lançamento da prĂ©-candidatura Ă  PresidĂȘncia do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), tambĂ©m desagradou o entorno do ex-presidente. O evento realizado no sĂĄbado (16/8) em um espaço de eventos na zona sul de SĂŁo Paulo foi dominado por crĂ­ticas ao PT e tambĂ©m a Alexandre de Moraes, porĂ©m sem mençÔes diretas a Bolsonaro.

“Acho que o Zema errou ao lançar candidatura na semana em que o julgamento de Bolsonaro no STF Ă© marcado”, afirmou um interlocutor da famĂ­lia Bolsonaro. Na Ășltima semana, o presidente da Primeira Turma da Corte, Cristiano Zanin, marcou o inĂ­cio do julgamento para o dia 2 de setembro.

“Eleição sem Bolsonaro Ă© golpe”

Aliados do clĂŁ Bolsonaro reclamam que os postulantes nĂŁo estejam colocando a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro de 2023 no centro de seus discursos, evitando crĂ­ticas diretas a Alexandre Moraes, ministro relator da trama golpista no STF e principal algoz do ex-presidente. Uma das principais pautas do grupo mais radical ligado a Bolsonaro Ă© o impeachment de Moraes.

Na visĂŁo dessa ala, em vez de se colocarem como candidatos ao PalĂĄcio do Planalto, os governadores deveriam insistir na tese de que a “eleição sem Bolsonaro Ă© golpe”.

Embora TarcĂ­sio jĂĄ tenha feito crĂ­ticas pĂșblicas ao processo contra ex-presidente e Ă  adoção das medidas cautelares como o uso de tornozeleira e, depois, a prisĂŁo preventiva, parte dos bolsonaristas avaliam que o governador paulista nĂŁo faz criticas diretas a Moraes e que seu discurso de pacificação, na verdade, significa uma “submissĂŁo ao sistema”.

Aliados da família Bolsonaro ainda avaliam que a prisão preventiva e a impossibilidade de o ex-presidente se comunicar com correligionårios atrapalham as articulaçÔes do grupo, que tem ficado sem uma orientação clara sobre as estratégias que devem ser adotadas visando as eleiçÔes do ano que vem.

“EstĂŁo, literalmente, enterrando vivo nosso presidente. O outro [Lula] estava condenado, tiraram da cadeia e colocaram no jogo. O nosso nem condenação possui e estĂŁo atropelando e enterrando vivo”, disse ao MetrĂłpoles o vice-prefeito de SĂŁo Paulo, coronel Mello AraĂșjo, afilhado polĂ­tico e interlocutor do ex-presidente. Mello visitarĂĄ Bolsonaro na prisĂŁo domiciliar na prĂłxima terça-feira (19/8).

CrĂ­ticas de Carlos e Eduardo

  • No domingo (17/8), sem citar nomes, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) postou um texto na rede social X, que foi compartilhado por seu irmĂŁo Eduardo Bolsonaro (PL), com fortes crĂ­ticas ao que classificou como os “chamados ‘governadores democrĂĄticos’”, a quem comparou a ratos.
  • O post de Carlos ocorreu um dia apĂłs o lançamento da candidatura de Zema.
  • NĂŁo Ă© a primeira vez que a famĂ­lia Bolsonaro ataca possĂ­veis herdeiros do espĂłlio do patriarca. TarcĂ­sio tambĂ©m jĂĄ foi atacado por tentar negociar contra o tarifaço, enquanto Eduardo tenta usar a pressĂŁo norte-americana para conseguir anistia para seu pai. Desta vez, o tom foi parecido.
  • “A verdade Ă© dura: todos vocĂȘs se comportam como ratos, sacrificam o povo pelo poder e nĂŁo sĂŁo em nada diferentes dos petistas que dizem combater. Limitam-se a gritar “fora PT”, mas nĂŁo entregam liderança, nĂŁo representam o coração do povo. Querem apenas herdar o espĂłlio de Bolsonaro, se encostando nele de forma vergonhosa e patĂ©tica”, escreveu Carlos.
  • Carlos descreveu seu pai como “preso, doente e sendo lentamente assassinado a cada dia que passa”, enquanto os governadores, “nĂŁo colocam, de forma espontĂąnea, a destruição dos direitos humanos em pauta que transformam o Brasil numa Venezuela cristalinamente”
  • Segundo ele, esses lĂ­deres estariam preocupados apenas “com seus projetos pessoais e com o que o mercado manda”.
  • Carlos definiu a postura como “desumana, suja, oportunista e canalha”, acusando-os de fingirem que vĂŁo resolver algo, mas se esconderem “atrĂĄs da prudĂȘncia e sofisticação tĂ©cnica”.
  • O vereador ainda os chama de “cĂșmplices covardes”.

 

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