Pacientes com dor crônica desenvolvem dependência de opioides em Rio Branco, alerta médico

Dr. Marcos Araripe concede entrevista ao ContilNet para enfatizar a autonomia médica no cuidado com o paciente

Um problema silencioso vem ganhando atenção entre as unidade de saúde de Rio Branco: pacientes com dor crônica, como os portadores de fibromialgia, estão se tornando dependentes de medicamentos à base de opioides.

Em entrevista exclusiva, o psiquiatra e vice-corregedor do Conselho Regional de Medicina do Acre (CRM-AC), Dr. Marcos Araripe, alertou para os riscos do uso contínuo desses remédios. “É uma situação de saúde pública, porque o uso indiscriminado pode levar a transtornos psiquiátricos, problemas cardíacos e renais, e até à morte”, explicou. Os quadros podem evoluir para um quadro de dependência química, configurando uma preocupação crescente de saúde pública, evidenciando a gravidade do problema e a necessidade de uma abordagem multidisciplinar.

Pacientes com dor crônica,, estão se tornando dependentes de medicamentos à base de opioides/Foto: Ilustrativa

Esses pacientes que buscam constantemente a sensação de bem-estar proporcionada pelos opioides, chegam a exigir que a medicação seja aplicada intravenosamente, alegando que outras formas como comprimidos ou injeções intramusculares não surtem efeito. Na verdade, essa preferência pela via venosa está ligada à busca pelo efeito dopaminérgico. “É um quadro de dependência, não apenas de tratamento da dor”, destacou.

A situação gera conflitos, já que esses pacientes podem acusar as equipes de saúde de negligência quando a medicação injetável é negada. No entanto, o Dr. Araripe enfatiza a autonomia médica: “O médico tem autonomia sobre diagnóstico, prognóstico e prescrição”. A decisão sobre qual tratamento aplicar cabe ao médico, que possui o conhecimento técnico e científico para avaliar a condição do paciente de forma segura.

A situação gera conflitos, pois esses pacientes podem acusar as equipes de saúde de negligência quando a medicação injetável é negada./Foto: Ilustrativa

O médico ressalta que o uso indiscriminado e a alta dosagem de opioides podem levar a graves problemas de saúde, como transtornos psiquiátricos, insuficiência cardiológica e renal, além de potencial risco de morte. A recusa em administrar o medicamento da forma solicitada pelo paciente é, na verdade, uma forma de protegê-lo de um evento grave. Por vezes, os pacientes não têm conhecimento das comorbidades ou dos riscos que a medicação pode causar, como o aumento da pressão arterial em hipertensos ou problemas renais em quem já apresenta predisposição.

Além disso, existem relatos, sem comprovação, sobre a venda ilegal desses medicamentos, o que amplia ainda mais os riscos, pois possibilita que os dependentes pratiquem automedicação.

Para enfrentar o problema, ele defende um tratamento amplo e contínuo. “Essas pessoas precisam de acompanhamento multidisciplinar: psiquiatras, especialistas em dor, reumatologistas, acupunturistas, psicólogos. E o apoio da família é fundamental para entender o que está acontecendo e ajudar no processo”, ressaltou.

Psiquiatra e vice-corregedor do Conselho Regional de Medicina do Acre (CRM-AC), Dr. Marcos Araripe/Foto: Cedida

O médico revelou que esse problema já foi discutido em reuniões do Ministério Público. Pacientes, classificados como crônicos, chegam a fazer uma “peregrinação” por diferentes unidades de saúde—como prontos-socorros, UPAs e hospitais—para conseguir a medicação. Se um serviço de saúde nega o pedido, eles se dirigem a outro, na esperança de encontrar um profissional que administre o medicamento. Esse comportamento de abuso e busca incessante por opioides representa um sério problema de saúde pública, com risco real de overdose e morte.

A entrevista com o Dr. Araripe revela que a questão vai muito além da dor crônica: “Estamos diante de uma pandemia silenciosa de dependência de opioides”, concluiu, problema que exige um olhar cuidadoso e uma abordagem humanizada, mas firme, por parte das equipes de saúde, sempre priorizando a segurança e o tratamento integral do paciente.

PUBLICIDADE