“Aprendi a me compreender para cuidar melhor do outro” diz médico sobre diagnóstico tardio de autismo

Ele iniciou a faculdade de medicina na Bolívia em 1997 e enfrentou dificuldades financeiras para concluir o curso

O médico Jorge Lucas da Fonseca, um dos 77 profissionais homenageados pelo Conselho Regional de Medicina do Acre (CRM-AC) durante a solenidade em comemoração ao Dia do Médico, revelou que sua trajetória na medicina foi profundamente marcada por autoconhecimento e pela descoberta do autismo na vida adulta. Natural de Rio Branco e com 15 anos de atuação reconhecida pelo conselho, ele destaca que o diagnóstico o ajudou a compreender comportamentos e dificuldades que o acompanharam desde a infância e durante a carreira.

O médico foi homenageado recentemente/Foto: Cedida

Filho dos agricultores João Aprígio da Fonseca e Oscarina Lucas da Fonseca, já falecidos, Jorge cresceu na zona rural de Rio Branco e aprendeu cedo o valor do esforço. “Venho de uma família simples, e tenho muito orgulho de ter sido criado pelos meus pais, que sempre trabalharam na roça. Desde pequeno eu ajudava, e isso me ensinou o valor do trabalho e da persistência”, contou.

Ele iniciou a faculdade de medicina na Bolívia em 1997 e enfrentou dificuldades financeiras para concluir o curso. “Tive muita dificuldade para me formar, mas não me lamento. Parei por um ano, depois retornei e terminei ao final de 2004. Só consegui pegar meus documentos em 2005 e o CRM uns cinco anos depois”, relembrou.

Ao longo da formação e da vida profissional, Jorge percebeu que algumas situações o afetavam de forma mais intensa que o normal. Foi somente anos depois que ele compreendeu o motivo: “Os diagnósticos me ajudaram a entender muita coisa. Por exemplo, não gosto de paciente na frente da porta enquanto atendo outro ou faço anotações. Isso me deixava muito irritado, e eu achava que era apenas impaciência. Hoje sei que é parte de quem eu sou.”

O médico reconhece que o autismo impactou diretamente sua forma de trabalhar e de se relacionar. “Pacientes que se estressavam ou gritavam me deixavam muito nervoso. Ainda não me libertei completamente disso, mas hoje sei identificar e lidar melhor. Antes, eu esquecia que estava com um paciente e já passava para outro, sem terminar o atendimento anterior. Era uma forma de distração que eu não entendia. Agora, sei que faz parte da minha condição”, explicou.

Luanne Fonseca é filha do médico, e foi prestigiar o pai durante a homenagem/Foto: Cedida

Casado com Gabriela da Fonseca e pai de dois filhos, Luanne e Gabriel, Jorge afirma que a compreensão sobre o espectro autista trouxe alívio e amadurecimento. “O ponto que mais me impactou foi a aceitação. Foi difícil aceitar. Também fiquei com dó da minha mãe, porque ela sofreu muito comigo na infância. Eu era um menino muito acelerado, e hoje entendo o porquê”, contou.

Mesmo com os desafios, ele nunca deixou de exercer a profissão com zelo e empatia. “Hoje sou médico e estou sendo reconhecido por 15 anos de CRM, com serviço prestado com amor, dedicação e zelo pelos meus pacientes. Tento ser cada vez mais atento e melhorar a cada dia. Às vezes me perco no meio do raciocínio, mas sempre volto e procuro me concentrar mais”, disse.

A rotina médica exige atualização constante, algo que ele encara como um desafio adicional. “Tenho que buscar sempre me atualizar com medicamentos, porque tem uns que não consigo gravar o nome. Graças a Deus, nunca tive problemas graves por esquecer um medicamento de urgência, porque pratico muito sobre isso”, relatou.

Ao lado da filha, a esposa, Gabriela Carneiro, esteve ao lado do marido no evento/Foto: Cedida

Para Jorge, compreender o autismo foi essencial não apenas para o crescimento pessoal, mas também profissional. “Aprendi a me compreender para cuidar melhor do outro. A medicina exige sensibilidade, e o autismo me ensinou a olhar para os detalhes, em mim e nos meus pacientes. Hoje penso duas ou três vezes antes de falar ou agir. Tento ser mais empático e cuidadoso, e isso faz toda diferença no atendimento.”

O presidente do CRM-AC, Dr. Thadeu Moura, destacou durante a solenidade a importância do reconhecimento a profissionais como Jorge. “Ser médico talvez seja uma das profissões mais gratificantes que existe. Acompanhamos desde o primeiro atendimento na sala de parto até o envelhecimento. Estar presente em todas as fases da vida é gratificante para todos nós”, afirmou.

Além da homenagem do CRM, Jorge também recebeu um convite da Câmara Municipal de Rio Branco para participar de uma Sessão Solene alusiva ao Dia do Médico. O reconhecimento, segundo ele, simboliza uma vitória pessoal e coletiva. “Ser lembrado por isso é uma honra. Dedico essa conquista à minha família, aos meus pacientes e a todos que acreditam que é possível vencer mesmo com limitações. O autismo não me impede de cuidar, ele apenas me faz enxergar o mundo de uma forma diferente”, concluiu.

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