Raiara Azevêdo de Barros, 21 anos, natural de Xapuri, Acre, e filha da Reserva Extrativista Chico Mendes, é finalista do Prêmio Chico Vive na categoria Amazônia com o projeto Filhos da Resistência, que busca fortalecer a identidade e a participação da juventude nas reservas extrativistas do estado.

A jovem é a única representante do estado do Acre na premiação/Foto: Reprodução
“Fico muito feliz em saber que chegou até você essa notícia. Eu sou a única acreana que vai estar disputando esse prêmio. São por categoria, né? São por biomas. E eu sou uma das finalistas da categoria Amazônia”, disse Raiara.
O projeto da jovem acreana visa aproximar os jovens da história e da cultura das reservas. “O meu projeto é Filhos da Resistência, que busca fortalecer a identidade da juventude, que é das reservas extrativistas. Porque a gente vem enxergando que os jovens estão querendo apagar, sabe, essa identidade. Não estão se identificando como parte dessa história. Uma história que foi derramada sangue, suor, de muitas pessoas da nossa família. Querendo ou não, quem vive dentro da reserva deu um pouco de contribuição para a conquista da Reserva”, afirmou.
Raiara explica que a iniciativa prevê a realização de intercâmbios entre juventudes da Reserva Chico Mendes e a Casa Umbaira Semma, em Sena Madureira, abrangendo sete municípios do Acre.
“Pensando nisso, eu submeti um projeto para fazer o intercâmbio entre juventudes da Reserva Chico Mendes e a Casa Umbaira Semma, que fica em Sena Madureira, e a Chico Mendes, que abrange sete municípios do estado do Acre.”
A motivação para o projeto veio de uma experiência pessoal. “Teve um momento assim que meu pai passou a poronga pra mim, poronga é aquela lamparina que era usada pelos seringueiros quando estavam na estrada de seringa, e aí ele pôs aquela poronga na minha cabeça, com a seguinte frase: ‘a luz dessa poronga sirva de luz para o teu caminho; antes ela iluminava as estradas seringas e agora ela irá iluminar o caminho que tu for percorrer’. Aí eu senti que aquilo era um chamado, sabe, pra dar continuidade à luta dele, que não é só dele, né? Então eu senti esse peso assim, daí em diante eu tive isso no coração, que eu tinha que dar continuidade. Que fortalecer a juventude para que futuramente elas pudessem ser as futuras lideranças de seus territórios”, contou.
A jovem reforçou a importância de manter viva a história de sua família e da luta de Chico Mendes. “Não tem como deixar que essa história, a história de Chico Mendes, a história do meu pai Raimundão, se apague, sabe? Eu costumo dizer que quando a gente é filha do Raimundão, a gente já nasce nesse berço de luta.”
Raiara também destacou sua trajetória como liderança juvenil: “Desde muito nova, já sou muito envolvida nos movimentos. Desde 18 anos de idade, já faço parte, viajo pra construir com tantos outros jovens de outros estados, de realidades diferentes, pra gente construir redes nacionais pra fortalecer essa luta. Que é pra lutar pela Amazônia de pé. A gente vê que as crises climáticas estão afetando muito as nossas vidas, então a gente tenta, quer tentar frear um pouco sobre isso.”
Para ela, o ano de 2025 tem sido significativo para a juventude. “Costumo dizer que desde o ano passado tem sido um ano fundamental para a juventude. A gente já foi calado muitas vezes e agora a juventude está ocupando os lugares. Tem muitas juventudes ocupando lugares de fala, sendo presidente de uma associação e colocando as ideias nas comunidades, porque antes a gente tinha muito esse tabu dos mais velhos não acreditar no potencial da juventude. E elas têm se mostrado fortes e fazendo parte desses espaços de voz, de tomada de decisão.”
Raiara ainda comentou sobre a conexão emocional com o projeto. “Eu me sinto muito, muito, muito, muito mesmo, porque acredito que é um projeto que tem a presença de outros seres, que é o Chico Mendes, que nasceu do fundo do meu coração e que veio iluminando a mim e a todos que são parte dele. Então é uma conexão muito profunda, é um projeto muito forte pra gente.”
A valorização da floresta e dos produtos extrativistas também é um ponto central do projeto. “A gente vê que muitos jovens ainda trabalham com o extrativismo sustentável, a castanha, a borracha. Então, isso são formas de fortalecer a comunidade. Porque a gente sabe que se a gente destruir a floresta, a gente não tem esses produtos que são essenciais para a nossa sobrevivência e a sobrevivência de toda a nossa família”, explicou Raiara.
O projeto Filhos da Resistência evidencia o compromisso da juventude acreana com a preservação da Amazônia, a valorização da cultura local e o fortalecimento da identidade comunitária, mantendo viva a memória e os ensinamentos de Chico Mendes.
