O MinistĂ©rio PĂșblico pediu a prisĂŁo preventiva de Lucas Diez Bove (PL) nesta quinta-feira (23/10), aproximadamente um ano apĂłs o denunciado ter agredido sua ex-esposa, a influenciadora Cintia Chagas, que havia solicitado medida protetiva, mas que nĂŁo foi acatada pelo deputado. O documento com a denĂșncia aponta que, durante o relacionamento, o politico praticou agressĂ”es fĂsicas e psicolĂłgicas contra a vĂtima, motivado por ciĂșmes e sentimento de posse.
âEm razĂŁo dos reiterados descumprimentos de medidas protetivas, cometidos cada vez de forma mais ostensiva, demonstrando claro desprezo Ă s restriçÔes judiciais impostas por Vossa ExcelĂȘncia, [âŠ] o denunciado vem ignorando as determinaçÔes do Sistema de Justiça (que jĂĄ o intimou e advertiu, pessoalmente e por meio de seus advogados constituĂdos), de modo que o autor possui plena ciĂȘncia da necessidade de respeitar as medidas protetivas [âŠ]â, alega a promotora Fernanda Raspantini Pellegrino.
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O documento solicita o encaminhamento do prontuĂĄrio mĂ©dico e das radiografias ao IML para exame de corpo de delito indireto, destacando que se trata de âvĂtima protegidaâ, conforme o Provimento 32/00.
Segundo as testemunhas, Lucas controlava os hĂĄbitos da vĂtima, especialmente ao frequentar a academia. Ele teria obrigado a vĂtima a filmar o local para provar que estava vazio, conforme relatado por uma das testemunhas, e a proibia de se matricular na academia que desejava, fato confirmado por uma amiga de CĂntia. O deputado tambĂ©m teria isolado a vĂtima de amigos e colegas de trabalho, demonstrando ciĂșmes inclusive de mulheres. A denĂșncia aponta que ele âobrigou a ofendida a dispensarâ seu cabeleireiro e a romper a parceria profissional com a empresĂĄria, sob a alegação de que as duas âtinham um casoâ.
Relatos ainda indicam que Lucas usava agressĂ”es fĂsicas para humilhar a vĂtima, como beliscĂ”es e apertos nos seios â inclusive âna frente de terceirosâ. Uma testemunha afirmou ter visto o deputado âbeliscar a vĂtima em muitos momentosâ e descreveu um episĂłdio em que ele, sob efeito de maconha, apertou o âbico do peito da vĂtimaâ e disse: âOlha o que eu faço com sua amigaâ, deixando ambas constrangidas.
ApĂłs a separação, em 03/08/2024, o deputado teria passado a perseguir a vĂtima, ameaçando sua integridade psicolĂłgica e pressionando-a a assinar um contrato com clĂĄusulas abusivas â incluindo multa de R$ 750 mil por descumprimento e confidencialidade forçada. Segundo a denĂșncia, Lucas supostamente usou chantagem e intimidação, afirmando que âacabaria com a carreiraâ da vĂtima e usaria o âgabinete do Ăłdioâ para difamĂĄ-la. TambĂ©m teria citado âpessoas influentes na polĂticaâ para intimidĂĄ-la.
Em outro episĂłdio, datado de 13/03/2023, o denunciado teria voltado a agredir fisicamente a vĂtima, deixando hematomas. Nas mensagens enviadas a ele, ela implora: âNĂŁo tem graça. Olha como ficou. Vontade de chorar sĂł de olhar pra isso. Por favor, amor. Pare. TĂŽ pedindo. DĂĄ muita raiva de olhar.â
Os laudos psicolĂłgicos indicam que, alĂ©m das lesĂ”es fĂsicas, a vĂtima desenvolveu Transtorno de Estresse PĂłs-TraumĂĄtico (TEPT), passou a usar antidepressivos, teve queda de cabelo e passou a andar em veĂculo blindado com motorista por medo, o que restringiu sua liberdade de locomoção. A perĂcia do IMESC constatou que o relacionamento apresentava âpadrĂ”es disfuncionais de interaçãoâ e que, 11 meses apĂłs a separação, a vĂtima ainda se esforça para âreassumir e reequilibrar sua vidaâ.
Por fim, o documento requer que Lucas Bove seja citado e processado criminalmente, com a oitiva da vĂtima e das testemunhas, e pede sua condenação por danos patrimoniais e morais, conforme o artigo 387, IV, do CĂłdigo de Processo Penal, e a jurisprudĂȘncia do STJ (Resp nÂș 1.585.684/DF).
CĂntia Chagas se pronuncia:
CĂntia Chagas se pronunciou sobre o pedido do MPSP por meio de sua advogada Gabriela Manssur. Em nota, a defesa declarou que nĂŁo deve existir espaço para a violĂȘncia: âHoje, a denĂșncia formal reafirma o que sempre sustentamos: que nĂŁo hĂĄ espaço para o abuso, para a impunidade e para o uso do poder como instrumento de opressĂŁoâ.
A nota completa:
âA justiça nĂŁo Ă© palco para vingança, brincadeiras ou deboche, especialmente quando se trata de violĂȘncia contra a mulher. A denĂșncia do MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo contra Lucas Bove, com imputação dos crimes de ameaça, perseguição, lesĂŁo corporal, violĂȘncia psicolĂłgica e desobediĂȘncia no Ăąmbito domĂ©stico, representa um marco importante para as mulheres na busca pela verdade, pela responsabilização e pela dignidade da vĂtima. A mensagem que fica Ă© clara: ninguĂ©m estĂĄ acima da lei e da justiça. Sempre acreditei na palavra de CĂntia Chagas, como mulher, amiga, cliente e comunicadora que admiro profundamente. Ela enfrentou com coragem todos os obstĂĄculos, confiou na Justiça e seguiu cada orientação jurĂdica com serenidade e firmeza. Hoje, a denĂșncia formal reafirma o que sempre sustentamos: que nĂŁo hĂĄ espaço para o abuso, para a impunidade e para o uso do poder como instrumento de opressĂŁo. Como ex-membro do MinistĂ©rio PĂșblico, instituição Ă qual servi com orgulho por mais de vinte anos e que me representa para o resto da vida, celebro seu papel essencial na defesa dos direitos das mulheres e no combate Ă violĂȘncia. Essa atuação demonstra que a lei existe para todas e contra todos que a violarem, independentemente de quem sejam ou do cargo que ocupem. E eu sigo acreditando, com fĂ©, Ă©tica e coragem, que a verdade e a Justiça sempre prevalecem.â â Gabriela Manssur.
Lucas Bove dĂĄ sua versĂŁo:
O deputado afirma que a outra parte pediu sua prisĂŁo apenas por ele ter respondido a uma pergunta sobre fatos jĂĄ pĂșblicos. Segundo ele, a promotora da Vara da Mulher concordou com o pedido, enquanto a outra parte segue se manifestando publicamente.
âA decisĂŁo acabou de sair, e a imprensa soube antes de mim! A delegada da Delegacia da Mulher afastou totalmente as acusaçÔes (descabidas) de violĂȘncia fĂsica e me indiciou por âviolĂȘncia psicolĂłgicaâ. Fato curioso: hĂĄ um laudo oficial do IMESC (alĂ©m de diversas declaraçÔes da outra parte) atestando que nĂŁo hĂĄ dano psicolĂłgico, ignorado pela delegada! Outro fato curioso: a outra parte falou publicamente ontem que eu joguei uma f@c4 nela, mesmo com a delegada tendo afirmado o contrĂĄrio, ignorando o segredo de justiça e desrespeitando uma cautelar que tambĂ©m a proĂbe de falar! E nada aconteceâŠâ
âOu seja, a militĂąncia feminista que alcançou o poder pĂșblico deixa claro que, se vocĂȘ for mulher: nĂŁo precisa cumprir as regras impostas pela Justiça; sua palavra vale mais do que suas açÔes, do que seu histĂłrico e atĂ© do que um documento oficial assinado por um profissional devidamente qualificado e isento. Eu, na qualidade de deputado sob a qual estou fazendo estas postagens, sinto vergonha em nome das milhares de vĂtimas reais de violĂȘncia que muitas vezes deixam de denunciar justamente pela descredibilização que as falsas denĂșncias trazem Ă causaâ, concluiu.






