Encontro no Museu Afro do Rio traz força das macumbas na MPB

Por AgĂȘncia Brasil 07/11/2025 Ă s 09:02

A herança da cultura afro-brasileira serĂĄ celebrada com muita festa, nesta sexta-feira (7), no encerramento do ciclo Malungagem – A influĂȘncia das macumbas na mĂșsica contemporĂąnea brasileira, no Museu da HistĂłria e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), na Gamboa, regiĂŁo portuĂĄria.Encontro no Museu Afro do Rio traz força das macumbas na MPBEncontro no Museu Afro do Rio traz força das macumbas na MPB

Esta serĂĄ a terceira etapa da jornada do projeto, que começou em setembro no terreiro de tradição Jeje, IlĂȘ Omo Iya Ade Omin, em HigienĂłpolis, zona norte da cidade. O segundo encontro foi em outubro, no Centro de Cultura Única – UniĂŁo Umbandista Luz Caridade e Amor, na Pedra do Sal, na conhecida Pequena África, tambĂ©m na regiĂŁo portuĂĄria.

O cantor e compositor AlĂȘ, idealizador do projeto, disse que a ideia inicial era trazer as filosofias religiosas na mĂșsica brasileira como forma de fazer uma ponte para apresentar o seu trabalho autoral, mas com a execução a malungagem tem se revelado mais que isso. Se tornou uma proposta de valorização e reparação simbĂłlica ao aproximar a sociedade dos terreiros por meio da arte e do reconhecimento da sua força cultural.

“É dar a voz Ă s pessoas que vivem essa cultura e muitas vezes nem entendem, como cultura, a convivĂȘncia em espaço de terreiro, com as tecnologias de cura ancestral e com a comunicação com o invisĂ­vel. Como artista apaixonado pela mĂșsica, enxergo a musicalidade como uma cĂșpula que envolve a prĂĄtica religiosa em si. A ideia de malungagem vem daí”, acrescentou o YawĂŽ do IlĂȘ Omo Iya Ade Omin e herdeiro das tradiçÔes Banto/YorubĂĄ, em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil.

A palavra malungo, de origem banto, significa companheiro de viagem e, segundo AlĂȘ, o termo malungagem surgiu de um sentimento a partir do seu processo de letramento racial. “Malungagem, por definição, Ă© a reuniĂŁo atravĂ©s do encontro, daqueles que descendem dos ancestrais africanos que chegaram ao Brasil nos tumbeiros [navios que trouxeram de África as pessoas escravizadas para o Brasil]. É um encontro de celebração da ancestralidade afro-indĂ­gena genuinamente brasileira”, descreveu, informando que jĂĄ pensa em transformar o projeto em uma tese de doutorado.

“O malungo eram os companheiros das pessoas que viajavam nos tumbeiros, africanos retirados violentamente das suas vidas, de suas culturas, de seus paĂ­ses e muitas vezes de etnias que nĂŁo se comunicavam, que mantinham rivalidades culturais histĂłricas, mas tiveram inteligĂȘncia emocional de superarem isso no momento em que se viram vivendo aquele terror ao serem colocadas em um porĂŁo de navio e se transformaram em mercadoria”, completou.

O idealizador do projeto destacou ainda que embora ainda exista intolerĂąncia religiosa e a aspectos da cultura negra, atĂ© na forma de comunicação de pessoas do interior e de zonas rurais se percebe a influĂȘncia dos africanos que vieram para o Brasil.

“Eu moro em local que Ă© zona rural, aquele caipirĂȘs nada mais Ă© do que a forma de que a primeira geração de africanos conseguia reproduzir o portuguĂȘs de Portugal, entĂŁo o racista ele fala a lĂ­ngua de preto, fala o pretuguĂȘs, que a maravilhosa LĂ©lia Gonzalez cunhou muito bem”, comentou.

AlĂš contou que logo no primeiro encontro que ocorreu em setembro o tema da mesa de debates foi a influĂȘncia dos candomblĂ©s na musicalidade contemporĂąnea brasileira, com opiniĂ”es de yalorixĂĄs e babalorixĂĄs das trĂȘs linhas principais de candomblĂ© que se encontra no Rio de Janeiro: Jeje Angola e Ketu para saber como sentiam as referĂȘncias aos orixĂĄs na MĂșsica Popular Brasileira (MPB), que segundo pesquisas, conforme, citou incluem ainda o sertanejo tradicional.

“A diversidade de trabalhos que vai do sertanejo tradicional ao rap citando a cosmologia. Eu estou no meio disso com o meu trabalho, o disco Igbá”, explicou.

“IgbĂĄ significa cabaça, Ă© o vaso, recipiente onde a gente cultua o orixĂĄ, geralmente com pedras [sagradas] chamadas de otá” informou, acrescentando que na pronĂșncia a palavra de origem yorubĂĄ a letra g Ă© muda.

Cada um dos encontros começou com o toque do Ngoma, tambor que atravessa o tempo, seguido de uma roda de conversa entre lĂ­deres de terreiro, artistas e pesquisadores, culminando com a mĂșsica ritualĂ­stica e poĂ©tica de AlĂš.

Nesta etapa a roda de conversa serå com nomes de destaque na cultura afro-brasileira contemporùnea. A fundadora e Mestra Popular do Quilombo Aquilah, pesquisadora das tradiçÔes afro-brasileiras e ex-dirigente do Centro Cultural José Bonifåcio (hoje MUHCAB), Hosania Nascimento;  a cantora sambista, professora e ativista pela valorização da mulher preta e da cultura de terreiro, criadora da roda O Samba é da Massa, Criss Massa; e a museóloga, dançarina e pesquisadora das culturas populares, integrante do Grupo Zanzar e cofundadora do Brincantes da Pedra Branca, Itana Gomes.

“Convidamos, preferencialmente, mulheres que trabalham com cultura popular, com os folguedos e com a musicalidade, cuja matriz sĂŁo as macumbas para saber a influĂȘncia do axĂ©, na lĂ­ngua portuguesa, na culinĂĄria, na forma como a gente se veste no imaginĂĄrio do Rio de Janeiro e fundamentalmente na mĂșsica que sempre Ă© a estrela principal”, apontou AlĂš.

Itana Gomes vai levar para o debate a influĂȘncia da cultura dos terreiros nĂŁo sĂł pela origem religiosa, mas os que tĂȘm o conceito de pertencimento para relembrar a ancestralidade. A pesquisadora disse que apesar da presença ainda de manifestaçÔes de intolerĂąncia, tem notado o crescimento do interesse e de participação de pĂșblico em apresentaçÔes culturais. NĂŁo quer dizer que nĂŁo tenha intolerĂąncia, mas a gente tem conseguido um espaço maior no tempo atual”, afirmou, lembrando que um exemplo Ă© a roda de danças populares que o Grupo Zanzar faz em frente ao Circo Voador, centro do Rio, toda Ășltima quinta-feira do mĂȘs junto com o Jongo da Lapa.

“Essas rodas acontecem em um território onde teve escravidão, onde teve um processo pesado para a população negra e onde a gente transforma o lugar de for em alegria, nem que seja naquele momento pontual para celebrar a vida”, disse.

A cantora Criss Massa, que jĂĄ tem uma carreira que valoriza a presença dos cantos religiosos na mĂșsica popular, contou que o samba nĂŁo existiria sem axĂ©.

“A batucada do samba Ă© oriunda das batucadas dentro dos terreiros, das casas, com as barricas”, revelou, contando ainda que mostrarĂĄ tambĂ©m na mesa de debates a interferĂȘncia em outras batidas de setores musicais como o funk e o rap.

“Outras batidas que se tornaram conhecidas em relação a batida do axĂ© para o samba, samba-enredo, samba de terreiro, samba pop e aĂ­ foi caindo para o batidĂŁo do funk entre outras coisas”, comentou destacando que as vezes a letra da mĂșsica nem se refere a um orixĂĄ especĂ­fico, mas a ancestralidade estĂĄ presente.

“A gente usa muito o ijexĂĄ dentro do samba. A mĂșsica Identidade do Jorge AragĂŁo Ă© ijexĂĄ e nĂŁo fala nada de orixĂĄ. Fala de um preconceito, de racismo, mas nĂŁo fala de orixá”, exemplificou.

Criss também percebeu uma mudança no preconceito em relação à cultura negra.

“VocĂȘ consegue se mostrar melhor, consegue sair entre aspas do armĂĄrio e mostrar o que realmente vocĂȘ Ă©. Antigamente nĂŁo se ouvia a pessoa dizer que era espĂ­rita, umbandista, candomblecista. Falava que era catĂłlico. Hoje nĂŁo, as pessoas fazem questĂŁo de dizer o que sĂŁo. Foi essa a liberdade e se nota isso atravĂ©s de vĂĄrias rodas de samba, de movimentos, de pessoas que fazem dança e teatro. JĂĄ se consegue ver isso nas ruas, tem uma maior liberdade de expressĂŁo”, relatou.

Hosania Nascimento vai apresentar no debate o projeto do Quilombo Aquilah, na localidade do Tanque, em Jacarepaguå, zona sudoeste do Rio, de ensino dos cùnticos afro diaspóricos nas escolas, como o Jongo nas Escolas e Baianas de Acarajé nas Escolas.

“É importante desde muito cedo, conscientizarmos as crianças o quanto os cĂąnticos em YorubĂĄ, os pontos de umbanda, as toadas do maracatu. Todas essas cançÔes usadas pelo povo de matriz africana devem ser desmistificadas e serem olhadas sem demonização, nĂŁo gosto de usar essa palavra, mas Ă© importante, porque Ă© o que acontece”, apontou.

“Acho importante levar para as crianças os pontos de umbanda como acalantos. A minha vida inteira de criança, atĂ© os meus 10 anos, as cantigas para eu dormir eram pontos de umbanda. Minha avĂł era indĂ­gena, umbandista, sou uma mulher preta, mas miscigenada porque o meu avĂŽ era portuguĂȘs, minha avĂł indĂ­gena e minha mĂŁe preta. Carrego comigo toda essa pluralidade de DNAs. Fui acalentada com esses pontos que nĂŁo tĂȘm nada de demonĂ­acos, pelo contrĂĄrio”, defendeu.

Sobre o acarajé, Hosania afirmou que além de ser uma oferenda destinada a Iansã é um quitute da culinåria baiana e da etnia preta.

“VocĂȘ nĂŁo precisa olhar o acarajĂ© somente como um ponto religioso, como oferenda, mas sim como um quitute da gastronomia brasileira”.

JĂĄ no samba, Hosania destacou que embora existam as consideradas divas como Dona Ivone Lara e Leci BrandĂŁo, existem outras mulheres importantes que foram invisibilizadas como as conhecidas pastoras, de grande importĂąncia dos sambas enredos das escolas e que estĂŁo presentes nos projetos de pesquisa do Quilombo Aquilah.

“Nós fazemos um trabalho de pesquisa há muitos anos, eu como mestra popular, em cima da musicalidade afro-brasileira, a gente passa pelo samba, somos consideradas patrimînio imaterial do Rio de Janeiro, o nosso grupo musical Pastoras do Aquilalh em homenagem as nossas primeiras damas do samba. Hoje temos divas reconhecidas dona Ivone, Jovelina, Clementina, mas as mulheres que estavam por trás dos cñnticos dos homens como os que Ataulfo [Alves] que ele as batizou como pastoras foram as primeiras do samba feminino e eram as que escolhiam os sambas enredo que as escolas iam desfilar”, revelou.

A terceira etapa contarå ainda com participaçÔes artísticas da dançarina, coreógrafa e criadora do projeto IntuiDanse, Maria Liberta, e de Tairini Cristine, conhecida como Poeta Tairini, MC, DJ e slammer paulista radicada em Ubatuba.

O encerramento do encontro serå com um show de AlÚ. A produção do encontro é da Ubuntu Cultura e Arte em parceria com a Neggra Sim e resulta da conquista do edital Fluxos Fluminenses da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro.

As entradas gratuitas podem ser conseguidas no endereço https://www.sympla.com.br/evento/malungagem/3180847?share_id=copiarlink 

Programação:

14h – abertura  – Com DJ Tairini

15h/16h – Intervenção artĂ­stica com a bailarina Maria Liberta  

16:30h / 18h  – Mesa de conversa 

19h / 21h – Apresentação -AlĂš e Banda

 

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