Igualar facçÔes a terrorismo prejudica inquéritos, diz relator de CPI

Por AgĂȘncia Brasil 07/11/2025 Ă s 17:02


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Relator da ComissĂŁo Parlamentar de InquĂ©rito (CPI) do Crime Organizado, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) argumenta que “simplesmente” equiparar as facçÔes ao terrorismo pode prejudicar as investigaçÔes em curso, uma vez que o combate ao terrorismo Ă© responsabilidade federal.  Igualar facçÔes a terrorismo prejudica inquĂ©ritos, diz relator de CPIIgualar facçÔes a terrorismo prejudica inquĂ©ritos, diz relator de CPI

Em conversa com a AgĂȘncia Brasil nesta sexta-feira (7), o senador falou sobre a expectativa com a CPI, sobre o papel das Forças Armadas no combate ao crime e avaliou que talvez seja necessĂĄrio abrir exceçÔes no teto de gastos para financiar a segurança pĂșblica.

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“A mera transformação de facção criminosa violenta em terrorismo vai fazer com que os processos criminais dessas açÔes migrem da Justiça estadual para federal e isso significa matar as investigaçÔes, jogar fora um conhecimento acumulado por profissionais qualificados por anos no combate ao crime grave”, destacou Vieira, que Ă© delegado da PolĂ­cia Civil hĂĄ 20 anos e estĂĄ licenciado para exercer o mandato.

Vieira acrescentou, por outro lado, que Ă© possĂ­vel equiparar facçÔes com terrorismo em relação ao tamanho e cumprimento das penas, mas “com os cuidados tĂ©cnicos” para “nĂŁo jogar fora todo um trabalho feito”.

O senador defendeu que as Forças Armadas devem ter papel no controle das fronteiras e questionou a eficiĂȘncia de operaçÔes de garantia da lei e da ordem feitas por militares.  

“É mais um exemplo de providĂȘncias que nĂŁo funcionam, nĂŁo geram resultados e sĂł servem para efeitos midiĂĄticos. NĂłs tivemos vĂĄrias oportunidades de intervenção das Forças Armadas em territĂłrio urbano e os resultados foram mĂ­nimos e absolutamente temporĂĄrios”, destacou o senador Alessandro.

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O parlamentar sergipano disse ainda não concordar com a convocação de líderes de facçÔes pela CPI, como pedem alguns requerimentos. Segundo ele, isso poderia ajudar o próprio crime.  

Ainda segundo o relator da CPI instalada nesta semana, as operaçÔes Carbono Oculto – que teve como alvo a lavagem de dinheiro do crime via postos de combustĂ­veis – e a Contenção – que resultou no assassinato de 121 pessoas no Rio de Janeiro  – sĂŁo complementares, tendo cada uma um papel no combate ao crime.


Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.
Foto: Tomaz Silva /AgĂȘncia Brasil

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 – Dezenas de corpos sĂŁo trazidos por moradores para a Praça SĂŁo Lucas apĂłs a Operação Contenção – Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

Confira a entrevista completa:

AgĂȘncia Brasil: Qual Ă© o principal – ou os principais – erros da polĂ­tica de segurança pĂșblica no Brasil para combater o crime organizado e como a CPI pode ajudar?

Senador Alessandro: A CPI vai viabilizar um diagnóstico completo. Com esse diagnóstico, daremos o encaminhamento de quais são as soluçÔes que funcionam e aquelas que nunca funcionaram, embora sejam repetidas de tempos em tempos.

Mas o que a gente pode apontar com muita clareza Ă© a questĂŁo da insuficiĂȘncia do financiamento, a ausĂȘncia de planejamento e a ausĂȘncia de continuidade na polĂ­tica de segurança.

Porque a política de segurança, ela leva um tempo para poder gerar resultado consistente. Ela custa muito dinheiro, ela exige uma vontade política firme no sentido de combater o crime. Esses são os pontos principais.

A questão da falta de integração entre as forças também é um ponto relevante, mas esses que eu citei antes me parecem mais importantes. Ouvindo os profissionais e ouvindo os especialistas, a gente, muito provavelmente, vai chegar a essas conclusÔes.

AgĂȘncia Brasil: Como encontrar dinheiro para segurança pĂșblica com as atuais regras fiscais que limitam os gastos da UniĂŁo e dos estados?

Senador Alessandro: Da mesma forma como a gente acha espaço para todo gasto que a polĂ­tica considera importante. Um paĂ­s que gasta R$ 5 bilhĂ”es para financiar a sua eleição, ele tem dinheiro, seguramente tem dinheiro para financiar a defesa da vida, do patrimĂŽnio, da segurança do cidadĂŁo. É uma questĂŁo de definição polĂ­tica.

Com a CPI, esperamos conseguir juntar um volume de dados e de força política que viabilize, finalmente, a construção de um plano nacional de segurança pactuado entre estados, municípios e União, suficientemente financiado e eståvel para que ele tenha uma continuidade e gere os resultados que o Brasil precisa.

AgĂȘncia Brasil: O recurso poderia ficar por fora da meta fiscal do teto de gastos?

Senador Alessandro: O formato vai ser definido. A primeira resposta não é essa. A primeira pergunta é qual é o volume necessårio. O que a gente precisa fazer para gerar uma mudança significativa? A partir daí, viabilizar os espaços fiscais, seja com redirecionamento de recursos, que é sempre o ideal, seja com afastamento de algum limite específico de regra fiscal, desde que seja de forma pontual e técnica. Jå fizemos isso dezenas de vezes.

AgĂȘncia Brasil: Qual sua avaliação sobre o debate de se rotular, ou nĂŁo, essas facçÔes e milĂ­cias como terroristas?

Senador Alessandro: Tecnicamente falando, e nĂŁo hĂĄ divergĂȘncia nisso, nĂŁo sĂŁo organizaçÔes terroristas, porque o terrorismo pressupĂ”e um componente religioso, ideolĂłgico ou polĂ­tico. Essas facçÔes tĂȘm como objetivo o lucro, o dinheiro.

Mas Ă© possĂ­vel sim vocĂȘ avançar em alguma proposta de equiparação para fins de pena, cumprimento de pena, mas com os cuidados tĂ©cnicos necessĂĄrios para nĂŁo jogar fora todo um trabalho feito.

Porque a mera transformação de facção criminosa violenta em terrorismo vai fazer com que os processos criminais dessas açÔes migrem na Justiça estadual para federal e isso significa matar as investigaçÔes, jogar fora um conhecimento acumulado por profissionais qualificados por anos no combate ao crime grave.

Nada feito na correria é solução. Existem bons caminhos e bons projetos que jå estão no Senado e na Cùmara. A gente vai tentar ajudar os colegas a fazerem essa peneira. Criar uma lógica processual, não då para ser uma colcha de retalhos, e dentro de uma lógica que tem consenso.

Podemos agravar muito as penas desse tipo de criminoso, mais ainda das suas lideranças, endurecer o cumprimento de pena.

AgĂȘncia Brasil: No plano de trabalho, o senhor cita a contribuição das Forças Armadas para atuarem nas fronteiras e rotas utilizadas pelo trĂĄfico. Qual o papel dos militares no combate ao crime?  

Senador Alessandro:  Precisamos, primeiro, ouvir os profissionais das Forças Armadas. O Ministro da Defesa jå foi convidado, mas o desenho constitucional brasileiro e aquilo que efetivamente funciona aponta para a necessidade da atuação das Forças Armadas na região de fronteira.

As Forças Armadas, só muito excepcionalmente, e com duração muito delimitada, podem ter papel numa atuação de GLO [Garantia da Lei e da Ordem] numa cidade, metrópole ou comunidade.

Esse Ă© mais um exemplo de providĂȘncias que nĂŁo funcionam, nĂŁo geram resultados e sĂł servem para efeitos midiĂĄticos. NĂłs tivemos vĂĄrias oportunidades de intervenção das Forças Armadas em territĂłrio urbano e os resultados foram mĂ­nimos e absolutamente temporĂĄrios.

Se em contrapartida eu consigo, em parceria das forças de segurança, com as Forças Armadas, restringir o acesso de armas e drogas pelas nossas fronteiras, eu impacto diretamente o crime organizado, eu aumento o custo deles, reduzo a atratividade daquilo e reduzo, por consequĂȘncia, a criminalidade. EntĂŁo, cada um no seu quadrado, com liderança polĂ­tica da UniĂŁo e integração.

AgĂȘncia Brasil: Quando foi apresentado o plano de trabalho, o senhor destacou a necessidade de dar atenção especial para a penetração do crime organizado nos mercados legais. Por que isso Ă© importante? 

Senador Alessandro: Porque hå um avanço muito acelerado do crime organizado em segmentos da economia formal. O que chamou mais atenção recentemente foi o segmento dos combustíveis e seus derivados. Mas isso acontece em outras åreas da economia formal.

A gente precisa criar, primeiro, a mesma dinùmica de levantamento dos dados, a oitiva dos profissionais que trabalham no segmento e o encaminhamento de soluçÔes. Em alguns casos, vão ser soluçÔes legislativas, criando mais travas para esse acesso do crime organizado ou diminuindo o interesse potencial do crime organizado por esse segmento.

Tenho projetos apresentados, hå um ano talvez, na årea de combustíveis para tentar fechar a porta da lavagem de dinheiro com o uso de postos de gasolina. A gente vai conseguir avançar em medidas desse tipo, protegendo a economia formal, a economia lícita, e inviabilizando os diversos mecanismos de lavagem de dinheiro que hoje são utilizados.

AgĂȘncia Brasil: Qual seria a melhor forma de reduzir o poder econĂŽmico e militar dessas organizaçÔes criminosas no Brasil?

Senador Alessandro: Uma série de açÔes, não tem uma bala de prata, uma série de açÔes que se complementam. Muita gente comparou a Operação Carbono Zero e a Operação Contenção.

São operaçÔes totalmente diversas, incomparåveis, mas que se conectam. Porque eu tenho que descapitalizar o crime, combater a lavagem de dinheiro, identificar e prender esses operadores e fechar essas portas de passagem de dinheiro sujo.

Mas, ao mesmo tempo, tenho que retomar o territĂłrio que hoje Ă© ocupado pelo crime. Essa retomada do territĂłrio exige o uso da violĂȘncia pelo Estado. NĂŁo dĂĄ para comparar uma coisa com a outra, elas se complementam.

A atividade de segurança pĂșblica Ă© complexa, embora nĂŁo seja segredo para ninguĂ©m, a gente sabe o que funciona e o que nĂŁo funciona, mas ela tem todas essas camadas. Quando o traficante Ă© descapitalizado com a apreensĂŁo de drogas, ele incide no roubo. Ele Ă© bandido, ele quer dinheiro fĂĄcil, ele nĂŁo para. Ele sĂł para preso.

VocĂȘ tinha 2,5 mil homens da polĂ­cia do Rio de Janeiro no morro, num confronto violento que teve 120 mortos, e dentro do presĂ­dio, no mesmo Rio de Janeiro, a mesma facção determinava açÔes de retaliação ou de diversionismo pelo Estado, pela cidade do Rio de Janeiro. Isso mostra uma falĂȘncia na gestĂŁo de um ponto fundamental e que estĂĄ no nosso plano de trabalho, que Ă© o sistema prisional.

AgĂȘncia Brasil: O senhor apoia convocar chefes de organizaçÔes criminosas presos, conforme pedem requerimentos do senador Marcos do Val? Por quĂȘ?

Senador Alessandro: Não tem meu apoio, mas a CPI é um colegiado. A gente vai ouvir os colegas de forma respeitosa e pedir que eles expliquem qual é o objetivo de uma oitiva dessa natureza.

NĂŁo hĂĄ por que dar espaço, palco, microfone para bandido quando se tem jĂĄ prĂ©via consciĂȘncia de que esse bandido nĂŁo vai trazer nenhuma informação relevante que favoreça o combate ao crime. Ele vai usar esse espaço para tentar fortalecer o crime.

Então a gente tem que ter essa clareza, a gente vai respeitosamente ouvir o autor do requerimento, mas vai encaminhar a votação contråria porque é improdutivo e prejudicial para os interesses do Brasil.

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