Negros acreditam mais em empresas do que no poder pĂșblico, diz estudo

Por AgĂȘncia Brasil 10/11/2025 Ă s 18:02

Para a população negra do Brasil, o empresariado inspira mais confiança (85,3%) do que os governantes (68,7%). AlĂ©m disso, hĂĄ um sentimento de impotĂȘncia dos negros diante de vĂĄrias consequĂȘncias do racismo, como: violĂȘncia policial (22%), o apagamento em veĂ­culos de comunicação (17,6%), a falta de oportunidades de trabalho (20,7%) e o racismo religioso contra vertentes afrobrasileiras (19%).Negros acreditam mais em empresas do que no poder pĂșblico, diz estudoNegros acreditam mais em empresas do que no poder pĂșblico, diz estudo

Essas constataçÔes são da pesquisa O Consumo Invisível da Maioria: PercepçÔes, Gatilhos e Barreiras de Consumo da População Negra no Brasil, apresentada hoje (10), no Fórum Brasil Diverso 2025. O evento ocorre no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Elaborado pelos institutos Akatu, DataRaça e a Market Analysis, o estudo surgiu a partir do expressivo valor que esse grupo da população movimenta todos os anos, de R$ 1,9 trilhão. O levantamento consultou 1 mil pessoas negras de todas as regiÔes do país.

Os especialistas tomaram como referĂȘncia dados da Pesquisa Nacional por Amostra de DomicĂ­lios (Pnad) ContĂ­nua, do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂ­stica (IBGE), divulgada no segundo semestre deste ano. 

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Na avaliação do presidente do DataRaça, MaurĂ­cio Pestana, a intensa divisĂŁo polĂ­tica no paĂ­s, entre brasileiros da direita e da esquerda, dĂĄ pistas sobre por que os entrevistados encaram com maior otimismo a atuação das empresas do que do poder pĂșblico. A descoberta, contudo, foi uma surpresa para a equipe de pesquisadores. 

“Isso se explica, acredito, por essa polarização que vivemos no Brasil — hĂĄ desconfiança de um lado e de outro — e porque nas empresas temos regras claras de missĂŁo, de nĂŁo Ă  discriminação, de obrigaçÔes que de fato precisam ser cumpridas. JĂĄ no governo vivemos um histĂłrico de leis que Ă s vezes pegam, Ă s vezes nĂŁo, de cumprimento variĂĄvel”, pondera.

“Talvez o Estado devesse simplesmente seguir mais as regras para mudar essa percepção. O Brasil tem uma Constituição que nĂŁo deveria precisar ser lembrada o tempo todo. O cidadĂŁo deveria jĂĄ saber que a lei vale, mas aqui as leis sĂŁo frequentemente burladas e isso acaba refletindo nesses nĂ­veis de confiança”, critica o especialista, tambĂ©m fundador do FĂłrum Brasil Diverso.

Credibilidade

As organizaçÔes nĂŁo governamentais (31%) e as instituiçÔes religiosas (30,7%) sĂŁo as que mais tĂȘm credibilidade, algo perceptĂ­vel tambĂ©m no Ă­ndice de desconfiança, os menores registrados na lista, de 8% e 7,6%, respectivamente.

Na sequĂȘncia, com porcentagem significativamente menor, estĂŁo as companhias nacionais de grande porte (17,1%) e as multinacionais no Brasil (16,1%). Estas Ășltimas geram um nĂ­vel de desconfiança quase equivalente, de 12,1%.

Jå em relação aos governos, 12,9% afirmaram depositar muita confiança, contra 24% de falta de confiança. Quanto às pequenas e médias empresas nacionais, as porcentagens foram, respectivamente, de 10,4% e 8,3%.

O relatório que sintetizou os resultados destaca, ainda, as pessoas na faixa etåria de 35 a 44 anos como as mais céticas, jå que 36,7% delas suspeitam das intençÔes dos governos.

TrĂȘs grupos foram identificados como os que mais confiam nas mensagens governamentais: as mulheres (73,2%), os jovens (75,7%) e os idosos (76,9%). 

Racismo no coletivo e na vida pessoal

No recorte de classes sociais, a que mais då crédito tanto ao empresariado como aos governantes é a classe A (90% e 78,9%). A classe B figura como a mais crítica: o patamar das pessoas que não acham que empresas merecem seu voto de confiança é de 17,3% e de 37,7% quanto aos governos.

Aos olhos da população negra, as questĂ”es sociais com impacto mais profundo na vida dos brasileiros como um todo sĂŁo a violĂȘncia e a criminalidade (88,3%); a corrupção (84,6%); a violĂȘncia policial contra a população negra (72,9%); a desigualdade social (71,8%); a inflação e o aumento dos preços dos produtos (68,6%); problemas ambientais e mudanças climĂĄticas (66,9%); a falta de postos de trabalho (66,3%); a falta de vagas de emprego para negros e discriminação na esfera profissional por cor/raça (65,6%); discriminação em compras/serviços por cor/raça (64%); e ameaças Ă  famĂ­lia e valores morais cristĂŁos (61,7%). 

Os entrevistados tambĂ©m responderam sobre o que de mais grave os atinge pessoalmente, quando enumeraram a violĂȘncia e a criminalidade (78,9%); a corrupção (78,6%); a violĂȘncia policial contra a população negra (70,1%); a inflação e o aumento dos preços (68,8%); problemas ambientais e mudanças climĂĄticas (65,7%); desigualdade social (62,9%);  falta de emprego para negros e discriminação no trabalho (60%); ameaças Ă  famĂ­lia e valores morais cristĂŁos (61,7%); e (59,5%) e discriminação em compras/serviços por cor/raça (54,3%). 

Entre os setores que mais tĂȘm cativado os brasileiros negros, por conta de suas polĂ­ticas abertas Ă  diversidade, estĂŁo o de higiene, beleza, vestuĂĄrio e moda e o e-commerce (comĂ©rcio virtual).

Os shoppings, o comĂ©rcio de alimentos e a indĂșstria farmacĂȘutica, por sua vez, ainda devem se tornar mais convidativos. 

Ao todo, um em cada trĂȘs clientes negros (34,8%) foi vĂ­tima de discriminação ao contratar um serviço ou comprar um produto no Ășltimo ano. Em sete de cada dez casos, os alvos foram tratados de modo distinto a partir de gestos mais sutis ou disfarçados.

O racismo foi manifestado por meio de olhares que transmitiam cisma, desconforto ou julgamento e abordagens que destoavam do padrĂŁo oferecido aos demais clientes, por exemplo.

Os locais onde mais houve atos racistas foram lojas de roupas, calçados, perfumaria e acessĂłrios (24,5%); shoppings (17%); supermercados (16,8%); ĂłrgĂŁos pĂșblicos (5,5%); loja de eletrodomĂ©sticos, eletrĂŽnicos ou informĂĄtica (3,9%).

 

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