Dia da ConsciĂȘncia Negra no Rio marca incentivo Ă  “economia preta”

Por AgĂȘncia Brasil 20/11/2025 Ă s 16:03


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No meio da Avenida Presidente Vargas, uma das principais do centro do Rio de Janeiro, o monumento em homenagem ao lĂ­der negro Zumbi dos Palmares amanheceu nesta quinta-feira (20) cercado de manifestaçÔes populares, como mĂșsica e dança. O local Ă© um dos pontos mais tradicionais da celebração do Dia da ConsciĂȘncia Negra.Dia da ConsciĂȘncia Negra no Rio marca incentivo Ă  “economia preta”Dia da ConsciĂȘncia Negra no Rio marca incentivo Ă  “economia preta”

Em meio Ă s atraçÔes e discursos de ativistas e personalidades do movimento negro, um enorme buffet vendia pratos da culinĂĄria afro-brasileira. O ponto de venda era uma expressĂŁo do que a empreendedora Carol PaixĂŁo chama de “economia preta”.

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O conceito, tambĂ©m conhecido como black money (em inglĂȘs, dinheiro negro), consiste em um movimento socioeconĂŽmico de fazer o capital girar dentro da comunidade negra.

“É uma economia que bebe da africanidade”, diz a empreendedora Ă  AgĂȘncia Brasil.

“A gente estĂĄ falando de uma economia que visa à população preta, que visa empregar mais pessoas pretas”, completa ela, em meio a pratos da África do Sul e Moçambique, alĂ©m da feijoada brasileira.


Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – Cortejo da Tia Ciata em comemoração do Dia da ConsciĂȘncia Negra percorre ruas do centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

ManifestaçÔes populares no centro do Rio de Janeiro no Dia da ConsciĂȘncia Negra. Na foto, Cortejo da Tia Ciata – Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

Carol Ă© responsĂĄvel pelo ImpĂ©rio Kush, estabelecimento no centro do Rio. O nome Ă© referĂȘncia a um antigo impĂ©rio africano. Ela explica que o conceito de black money tambĂ©m se estende Ă  relação com outros empreendimentos.

“Quando a gente fecha parceria de prestação de serviço, a gente tambĂ©m visa que sejam todos pretos”, enfatiza.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas pretas e pardas vivenciam mais o desemprego do que as brancas, além de receberem salårios menores e trabalharem mais na informalidade.

Veja a galeria de fotos:

 

Reparação

À frente do busto gigante de Zumbi, o presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine), Luiz Eduardo Oliveira, o Negrogun, aponta que a presença, ano apĂłs ano, no monumento no dia do feriado Ă© um sinal de persistĂȘncia.

“NĂłs temos que ter reparação já”, declarou Ă  AgĂȘncia Brasil, em referĂȘncia aos danos causados por mais de 300 anos de escravidĂŁo negra no paĂ­s.

O Cedine Ă© uma instĂąncia que reĂșne representantes do governo estadual e ativistas, como Negrogun.

Quilombolas

Zumbi liderou a resistĂȘncia contra a escravidĂŁo em um conjunto de quilombos que existiu por cerca de um sĂ©culo – onde hoje Ă© a cidade alagoana de UniĂŁo dos Palmares. Ele foi morto em 1695.

>> 20 de novembro: saiba a origem da data e quem foi Zumbi dos Palmares


Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – A presidente da Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj), Bia Nunes fala durante ato do Dia da ConsciĂȘncia Negra no Monumento a Zumbi dos Palmares, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

Negrogun, Bia Nunes e Rose Cipriano participam de ato no Dia da ConsciĂȘncia Negra no monumento a Zumbi – Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

Necessidade de reparação é vocabulårio presente nas comunidades quilombolas. De acordo com o Censo do IBGE, em 2022, havia no Brasil 1,3 milhão de quilombolas, correspondendo a 0,65% da população. Oito em cada dez vivem com saneamento båsico precårio.

A presidente da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj), Bia Nunes, enfatizou a pressão exercida por descendentes de habitantes dos quilombos.

“As comunidades quilombolas sĂŁo referĂȘncia de resistĂȘncia dentro desse paĂ­s. SĂŁo homens e mulheres que vĂȘm, desde a sua geração, da sua ancestralidade, resistindo dentro dos seus territĂłrios, morrendo pelo territĂłrio, mas sustentando e os protegendo”, disse Bia Nunes Ă  AgĂȘncia Brasil.

“Se não fosse a população originária e a população quilombola, nós não teríamos a biodiversidade que temos nesse país. É isso que representam os territórios quilombolas no Brasil”, completou a líder que representa 54 comunidades quilombolas fluminenses.

Favelismo

O escritor, filĂłsofo e ativista GĂȘ Coelho vĂȘ semelhança entre a resistĂȘncia dos quilombos, no tempo da escravidĂŁo, e as atuais favelas.

“As favelas, na verdade, sĂŁo uma luta contra a opressĂŁo do Estado Ă s pessoas mais pobres, mais humildes, mais perifĂ©ricas”, afirmou ele, que lançou este ano o livro Favelismo: A revolução que vem das favelas.

Ele contextualiza que o monumento de Zumbi fica a cerca de 600 metros do Morro da ProvidĂȘncia, considerada a primeira favela do Brasil, surgida no final do sĂ©culo 19, para abrigar soldados que combateram na Guerra de Canudos (1896-1897), na Bahia.


Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – O escritor Geraldo Coelho lança seu livro Favelismo, a revolução que vem das favelas durante ato do Dia da ConsciĂȘncia Negra no Monumento a Zumbi dos Palmares, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

Escritor Geraldo Coelho, autor do livro Favelismo, a revolução que vem das favelas – Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

GĂȘ Coelho considera que atualmente a resistĂȘncia acontece por meio de “disputas no campo das ideias”. Ele defende que sejam criadas universidades dentro de favelas brasileiras.

“A maioria das pessoas que vĂŁo falar sobre nĂłs vĂŁo contar uma histĂłria que nĂŁo Ă© a nossa histĂłria, que nĂŁo Ă© a nossa realidade”, critica.

“A gente precisa ter uma universidade, nĂŁo Ă© contando a histĂłria a partir deles, e sim a partir de nĂłs, do nosso conhecimento”, acrescenta.

De acordo com o IBGE, pretos e pardos são 55,5% da população do país, no entanto formam 72,9% dos moradores de favelas.

Luta de todos

No evento, que tambĂ©m teve ação social como campanha de vacinação, o deputado federal Reimont (PT-MG), presidente da ComissĂŁo de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da CĂąmara dos Deputados, defendeu que “a luta do negro nĂŁo Ă© sĂł do negro”.

“É claro que o negro tem o espaço de fala do racismo que sofre, mas nĂłs, os brancos, que compreendemos que essa terra Ă© de todo mundo, temos que ser solidĂĄrios na luta e colocarmo-nos Ă  disposição para fazer essa luta, para que a humanidade aconteça”, disse Ă  AgĂȘncia Brasil.

Convite Ă  marcha

O dia de celebração e cobrança tambĂ©m serviu para a coordenadora do ComitĂȘ Estadual da Segunda Marcha Nacional das Mulheres Negra, Rose Cipriano, fazer um convite para a manifestação popular que serĂĄ realizada, em BrasĂ­lia, na prĂłxima terça-feira (25).

“A gente sabe que atĂ© hoje a população negra sofre os impactos do racismo, as mulheres em especial. A gente sabe dos Ă­ndices de violĂȘncia, da pouca representatividade e que hoje, sĂ©culo 21, a gente ainda estĂĄ chegando pela primeira vez a alguns lugares”, constatou a coordenadora.

“Angela Davis [ativista negra americana] jĂĄ diz, ‘mulheres negras movimentam a estrutura da sociedade’, Ă© por isso que vamos para a marcha por reparação e bem-viver”, incentiva.

A primeira edição do movimento ocorreu em 2015, também na capital federal. São esperadas 1 milhão de pessoas na próxima semana.


Rio de Janeiro (RJ), 20/11/2025 – Cortejo da Tia Ciata em comemoração do Dia da ConsciĂȘncia Negra percorre ruas do centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

Cortejo da Tia Ciata percorre ruas do centro do Rio de Janeiro – Foto: Tomaz Silva/AgĂȘncia Brasil

Cortejo Tia Ciata

As ruas que cercam o monumento de Zumbi foram espaço de apresentação do cortejo de Tia Ciata (1854-1924), negra baiana considerada a matriarca do samba.

Milhares de pessoas ─ de baianas carnavalescas a crianças de escolas de samba – formavam a manifestação cultural repleta de referĂȘncia Ă  cultura afrodescendente e mistura de batuques, como samba, maracatu, afoxĂ© e bateria de escola de samba. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, acompanhou a celebração. 

Brasil – Angola

O cĂŽnsul-geral de Angola no Rio de Janeiro, Mateus de SĂĄ Miranda Neto, deu tom internacional Ă  celebração, lembrando que o mĂȘs de novembro tambĂ©m Ă© representativo para Angola, nação africana origem de negros escravizados que vieram para o Brasil.

“Novembro para nĂłs Ă© um mĂȘs muito importante. É o mĂȘs que resultou a grande luta que tivemos de travar contra o colonialismo, luta que nos conduziu ao 11 de novembro de 1975, a nossa independĂȘncia”.

Assim como o Brasil, Angola foi colonizada por Portugal.

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