Facção ‘evangélica’ que usa estrela de Davi como símbolo chega ao Acre, diz relatório da Abin

Fundado em 2002 após uma ruptura interna no Comando Vermelho, o TCP trava há mais de duas décadas uma guerra contínua contra o rival no Rio de Janeiro

O Terceiro Comando Puro (TCP), facção que ganhou notoriedade por reunir traficantes que se declaram evangélicos, entrou oficialmente no radar das autoridades federais após um mapeamento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) indicar que o grupo ultrapassou as fronteiras do Rio de Janeiro e alcançou diversos estados do país — entre eles, o Acre.

No RJ, paredes estão pinchadas com a estrela de Davi, marcando território. Foto: Reprodução

O alerta foi apresentado no início de novembro, durante reunião da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência no Congresso, pelo coordenador-geral de análise de conjuntura nacional da Abin, Pedro Souza Mesquita. Segundo ele, o TCP vive um processo de expansão acelerado e já domina áreas em Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Mesquita classificou esse avanço como suficiente para colocar o grupo como “terceiro emergente no contexto nacional”, atrás apenas do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Um dos movimentos mais recentes da facção ocorreu no Ceará. Há cerca de três meses, símbolos associados ao TCP, como a estrela de Davi, começaram a aparecer em paredes de bairros de Maracanaú, na região metropolitana de Fortaleza, acompanhados de pichações com frases do tipo “Jesus é dono do lugar”. No mesmo período, surgiram relatos de fechamento de terreiros de umbanda supostamente por ordem de integrantes do grupo, repetindo práticas já observadas na zona norte do Rio, onde o TCP tem histórico de intolerância religiosa.

Vista panorâmica de área urbana ao entardecer com várias casas e prédios baixos. Torre de água azul com estrutura metálica branca no centro, iluminada por luzes, destacando-se no cenário.

Complexo de Israel surgiu em 2020, com domínio de cinco comunidades na zona norte do Rio. Foto: Reprodução/Redes Sociais

O delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Márcio Gutiérrez, afirmou à BBC News Brasil que os episódios ainda estão sob investigação. Ele confirmou que as forças de segurança identificaram a chegada do TCP ao estado em setembro, mês em que 37 pessoas ligadas à facção foram presas somente na região metropolitana de Fortaleza.

Ainda de acordo com Gutiérrez, a entrada do grupo no Ceará ocorreu por meio de uma parceria com uma facção local, estratégia também adotada por CV e PCC em outras fases de expansão. Esse padrão é reconhecido por pesquisadores que estudam o fenômeno das organizações criminosas no Brasil.

Além do tráfico de drogas, o TCP tenta expandir outro tipo de atividade criminosa: a extorsão. Esse modelo, mais associado às milícias, envolve pressão econômica sobre moradores e comerciantes e tem sido adotado pelo grupo em alguns estados como forma de ampliar sua arrecadação.

Fundado em 2002 após uma ruptura interna no Comando Vermelho, o TCP trava há mais de duas décadas uma guerra contínua contra o rival no Rio de Janeiro. A disputa por território é alimentada por armas de grosso calibre, granadas, explosivos improvisados e até drones usados para monitoramento e ataques. Com o avanço geográfico das duas facções, pesquisadores apontam que a rivalidade tende a se intensificar em novas regiões do país.

Os reflexos dessa expansão já preocupam especialistas em segurança pública no Ceará, estado que, apesar de ter reduzido seus índices de homicídio nos últimos anos, continua entre os mais violentos do Brasil. Três cidades cearenses aparecem no ranking das dez com maiores taxas de assassinatos no último Anuário Brasileiro de Segurança Pública: Maranguape, Maracanaú e Caucaia.

O receio de autoridades e estudiosos é que a chegada do TCP resulte em uma nova disputa direta pelo controle de comunidades, aumentando o risco de confrontos armados e elevação das mortes violentas.

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