Produtora acreana Karla Martins é indicada ao Prêmio da Billboard: “Não vou só”

A acreana reforçou que ao ser escolhida para a premiação, ela não vai sozinha mas que representa todo um povo

Indicada na categoria Empreendedora Cultural do WME Awards by Billboard, Karla Martins vê o reconhecimento nacional como uma conquista coletiva e um marco para a produção cultural fora dos grandes centros do país. Acreana, produtora cultural e articuladora do Comitê Chico Mendes, ela participa nesta quarta-feira (17) da cerimônia do prêmio, o único do Brasil totalmente dedicado às mulheres na música, que neste ano tem como tema “Coração em Festa”, em homenagem à cantora Preta Gil.

O evento é dedicado as mulheres/Foto: Hannah Lydia/Comitê Chico Mendes

“A vitória, ela já veio quando nós, que estamos aqui em um território que é mais distante, somos reconhecidas no mesmo lugar e na mesma qualificação de pessoas de outras regiões”, afirmou Karla. Segundo ela, o reconhecimento também evidencia uma mudança histórica. “É um fato mesmo que o Brasil durante muito tempo esteve de costas para aquilo produzido e pensado culturalmente fora dos grandes eixos, especialmente o eixo Rio-São Paulo”, completou.

Nascida em Rio Branco, no bairro da Capoeira, Karla Martins tem 56 anos e uma trajetória marcada pela arte, pela coletividade e pela defesa da Amazônia. Filha de Éden e Ercília, ambos oriundos de seringais amazônicos, ela aprendeu a ler ainda na infância, pouco depois dos três anos de idade, com a ajuda de uma vizinha professora. “Falam que é péssimo, mas eu aprendi a ler assim”, relembrou, ao citar o método da “carta do ABC”.

A literatura foi uma das portas de entrada para o universo artístico. Autores como Cecília Meireles, Emily Dickinson, Shakespeare, Molière, Anna Sewell, Clarice Lispector e Machado de Assis marcaram sua formação. Após a morte da mãe, aos 15 anos, Karla encontrou nos livros, nas novelas de rádio, na televisão, que chegou ao Acre em 1974, e na poesia, formas de compreender o mundo.

A escolha pelo teatro veio após um período de indecisão acadêmica, marcado também pela morte do pai. “A coisa mais importante no teatro, para mim, era a possibilidade de ser o outro. Quando você é o outro, você se permite entender o outro”, afirmou. A experiência coletiva do teatro se tornaria uma marca permanente de sua atuação profissional e política.

Mesmo que apenas ela atravesse fisicamente o tapete vermelho do WME Awards, Karla reforça que a conquista não é individual. “Quando você ocupa um espaço desse, eu não vou só. Vai comigo uma legião de pessoas que aqui nos nossos territórios amazônicos, ou nos territórios que são os periféricos do Brasil, fazem muitas coisas”, disse. Para explicar o sentimento, ela cita o poeta Gregório Filho: “Não é o prêmio que qualifica a pessoa. É a pessoa que qualifica o prêmio”.

Seis anos após a morte de Chico Mendes, Karla retornou definitivamente ao Acre. A partir da vivência nos seringais e do contato direto com os povos da floresta, passou a atuar em projetos ligados à educação, cultura e comunicação. Seu trabalho chamou a atenção do então governador Jorge Viana, com quem colaborou na área cultural do estado.

Atualmente, Karla Martins coordena a Casa Ninja Amazônia, integra o Comitê Chico Mendes e desenvolve projetos no audiovisual amazônico. Entre eles está o filme Noites Alienígenas, que ganhou projeção nacional e internacional. “Ele virou uma coisa impactante para muita gente […] pela crueza da realidade que está ali exposta de um novo futuro da juventude”, afirmou.

Além da premiação, Karla também participou recentemente do evento Mulheres e Poder, do Estúdio Clarice. Ao falar sobre o tema, ela amplia o debate para além da representatividade. “Importante pensar que não se trata somente de enfrentamento ao patriarcado… Nós estamos lidando com algo mais arraigado. Nós estamos lidando com a misoginia”, declarou.

Ao lembrar episódios históricos de violência contra mulheres, como o caso de Ângela Diniz, Karla traça paralelos com o cenário atual. “Que sociedade é essa que permite que uma parlamentar, dentro de uma casa de legisladores, seja escutada de um homem que ela estava merecendo uns tapas?”, questionou.

Para a produtora cultural, o poder que precisa ser celebrado é o direito de existir. “Nós estamos falando de mulheres de poder em muitas instâncias, inclusive do poder de ser. O poder de estar mulher, de ser mulher em qualquer lugar”, afirmou.

Mesmo com reconhecimento nacional e internacional, Karla reforça sua escolha política de permanecer na Amazônia. “Eu quero viver aqui, não quero sair da Amazônia. Meu lugar é aqui”, disse. E, como ela mesma define sua trajetória, onde quer que esteja, carrega consigo um coletivo inteiro: “Eu não vou só”. O texto conta com informações do Comitê Chico Mendes.

Com informações do Comitê Chico Mendes

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