A agência reguladora norte-americana Food and Drug Administration (FDA), equivalente à Anvisa no Brasil, autorizou a expansão do uso do Addyi (flibanserina) para mulheres que já atravessaram a menopausa. Anteriormente restrito ao público na pré-menopausa, o fármaco, popularmente chamado de pílula rosa, agora pode ser indicado inclusive para pacientes acima dos 65 anos que apresentam redução persistente do desejo sexual.

Viagra Feminino/ Foto: Reprodução
A decisão traz novos horizontes para o tratamento da saúde sexual feminina, mas especialistas alertam que a substância possui mecanismos de ação complexos e exige acompanhamento rigoroso.
O portal BacciNoticias conversou com o médico e terapeuta sexual João Borzino, que diz que o desejo não deve ser encarado como um simples comando biológico, mas como um fenômeno que envolve fatores hormonais, psicológicos e sociais.
Eficácia e alinhamento de expectativas
Diferente do funcionamento do medicamento masculino, que atua na resposta física e vascular, a flibanserina trabalha no sistema nervoso central. De acordo com Borzino, os efeitos da medicação são considerados modestos em termos estatísticos. Isso significa que, embora haja um aumento na frequência de momentos sexuais satisfatórios, o resultado não deve ser confundido com uma transformação radical ou um efeito afrodisíaco imediato.
O especialista ressalta que o tratamento é voltado especificamente para o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH). Trata-se de uma condição clínica onde a ausência de libido é persistente e gera sofrimento pessoal significativo, diferenciando-se das oscilações naturais de desejo que ocorrem com o passar do tempo ou devido ao desgaste rotineiro das relações.
Riscos e restrições no uso do fármaco
A segurança do uso da flibanserina exige disciplina por parte da paciente. Entre os efeitos colaterais mais comuns relatados estão tontura, náusea, fadiga e sonolência. No entanto, o ponto de maior atenção para a comunidade médica é o risco de queda brusca na pressão arterial e episódios de desmaio.
Esses riscos são potencializados drasticamente quando há consumo de bebidas alcoólicas, o que gera uma recomendação restrita de abstinência durante o tratamento. Além disso, pacientes com problemas hepáticos ou que utilizam outros medicamentos, como certos tipos de antidepressivos, antifúngicos ou anticoncepcionais, precisam de avaliação minuciosa. Essas substâncias podem interferir no metabolismo do fígado, aumentando a toxicidade ou anulando o efeito da pílula.
O papel da vigilância contínua
Para as mulheres que já convivem com condições como hipertensão ou diabetes, o uso não é proibido, mas demanda monitoramento constante. Como o medicamento atua diretamente no sistema nervoso, o acompanhamento médico deve ser contínuo para avaliar o custo-benefício em relação ao bem-estar e à autonomia da paciente.
A interação com terapias de reposição hormonal, comuns durante a menopausa, ainda é um campo em estudo. Existe a possibilidade de uma ação conjunta benéfica, mas também o risco de sobreposição de efeitos colaterais relacionados ao humor e ao sono. A orientação médica é evitar a soma de intervenções químicas sem uma estratégia clara de tratamento.
Resultados e alternativas complementares
É importante destacar que a flibanserina não apresenta resultados imediatos. O organismo costuma levar entre quatro e oito semanas para manifestar mudanças perceptíveis. O médico João Borzino enfatiza que o comprimido não resolve questões físicas como a secura vaginal, comum na menopausa, para as quais existem lubrificantes e tratamentos locais específicos.
Por fim, o médico indica que o estilo de vida permanece como pilar fundamental. Práticas como exercícios físicos, alimentação equilibrada e a gestão do estresse impactam diretamente na vitalidade sexual. O uso de terapias integrativas, como a acupuntura e a fitoterapia, pode ser considerado de forma complementar, desde que haja coordenação profissional para evitar interações perigosas entre substâncias naturais e sintéticas.
