O Acre está longe dos grandes centros turísticos do Brasil, mas isso não significa distância no sentido de experiência. Localizado no extremo oeste do país, o estado reúne florestas preservadas, rios volumosos, fronteiras internacionais e uma diversidade cultural que ainda passa despercebida por boa parte dos viajantes brasileiros.
Mesmo sendo um dos estados menos visitados do Brasil, o Acre começa a aparecer com mais força no mapa do turismo de natureza e de experiências. E isso não acontece por acaso. A combinação entre biodiversidade, territórios protegidos e modos de vida tradicionais transforma o estado em uma rota ideal para quem busca viajar com mais sentido e menos pressa.
Este período do ano, marcado pelo inverno amazônico, ajuda a revelar esse potencial. As chuvas intensificam o verde da floresta, os rios ficam cheios e o cenário muda completamente. É quando a paisagem se impõe, viva e sonora, lembrando que o Acre é um território em constante movimento.
Reservas naturais e florestais que colocam o Acre no mapa
Entre os grandes patrimônios ambientais do estado estão áreas que permanecem pouco conhecidas fora dos circuitos especializados, mas que têm enorme relevância ecológica e turística.
O Parque Estadual Chandless é uma dessas áreas. Localizado no interior do Acre, o parque protege uma vasta extensão de floresta amazônica e vem ganhando destaque nacional como destino estratégico para o turismo de observação de aves. Recentemente, o Chandless foi reconhecido pelo Governo Federal como um dos parques com alto potencial para esse segmento, que cresce no Brasil e atrai visitantes interessados em natureza, conservação e ciência.
Outra área de grande importância é a Floresta Estadual do Rio Liberdade, situada na região de Tarauacá. Com uma rica biodiversidade e recursos hídricos preservados, a floresta representa um dos muitos territórios acreanos com potencial para o ecoturismo, a pesquisa e a educação ambiental. São espaços onde o turismo pode acontecer de forma responsável, conectando visitante, floresta e comunidades locais.
Saberes ancestrais e povos originários: o Acre antes de qualquer rota
Antes de qualquer estrada, ponte ou unidade de conservação, o Acre já era território de povos indígenas que seguem vivendo, resistindo e ensinando. São mais de uma dezena de etnias presentes no estado, entre elas Huni Kuin, Yawanawá, Ashaninka, Katukina e Manchineri, cada uma com sua língua, cosmologia e relação própria com a floresta.
Esses povos não fazem parte apenas do passado. Estão no presente e no futuro do Acre. Seus saberes sobre o uso sustentável da terra, das plantas medicinais, dos rios e dos ciclos da natureza ajudam a manter vivas áreas que hoje são reconhecidas como reservas, parques e florestas protegidas.
Em regiões como o Vale do Juruá, o entorno da Serra do Divisor e áreas próximas a unidades de conservação, a presença indígena é fundamental para compreender o território. O turismo que surge nesses espaços precisa reconhecer que a floresta não é cenário, é morada, e que cada trilha, rio ou montanha carrega histórias muito anteriores ao turismo.
Viajar pelo Acre é também um exercício de escuta, respeito e aprendizado.
Serra do Divisor: onde a floresta encontra a fronteira
No extremo oeste do estado, o Parque Nacional da Serra do Divisor se estende junto à fronteira com o Peru, conectando trilhas, mirantes naturais e cachoeiras em uma das áreas mais preservadas da Amazônia brasileira. A região abrange municípios como Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter e concentra uma das maiores biodiversidades do país.
A Serra do Divisor não é um destino de turismo rápido. Exige planejamento, respeito ao território e disposição para o caminho. Em troca, oferece paisagens únicas, silêncio, rios de águas claras e a sensação de estar em um dos últimos grandes refúgios naturais do Brasil.
Na fronteira com a Bolívia: um primeiro passo além do Acre
Para muitos acreanos, o primeiro contato com outro país não aconteceu em um aeroporto distante. Aconteceu pela estrada. Cobija, na Bolívia, costuma ser o primeiro lugar fora do Acre que muita gente conhece. Seja para compras, turismo rápido ou simples curiosidade, atravessar a fronteira sempre fez parte da nossa vivência.
No extremo sul do estado, os municípios de Brasiléia, Epitaciolândia e Assis Brasil formam um dos principais corredores de integração internacional. A Ponte Wilson Pinheiro, que liga Brasiléia à cidade boliviana de Cobija, simboliza esse fluxo constante de pessoas, culturas e relações que atravessam gerações.
Quem é daqui reconhece. Ir a Cobija nunca foi visto como algo distante ou inacessível. Sempre foi próximo, quase cotidiano. E isso diz muito sobre o Acre. Mesmo sendo considerado distante dos grandes centros do Brasil, o estado sempre esteve conectado a outros países, outras culturas e outras formas de viver.
Essa experiência de fronteira ensina cedo que o mundo não é tão longe quanto parece. Que atravessar limites geográficos também pode ser simples e transformador. Para muitos acreanos, é ali que nasce o desejo de conhecer outros lugares, outras rotas e outros caminhos.
A Bolívia, com sua riqueza cultural e histórica, merece um olhar próprio e ficará para um próximo artigo. Aqui, ela aparece como aquilo que sempre foi para nós: um começo de rota.
Por que o Acre ainda é pouco visitado e por que isso está mudando
O turismo brasileiro historicamente se concentra em grandes centros urbanos e destinos de sol e praia. O Acre, por sua localização geográfica e perfil ambiental, ficou fora dessas rotas tradicionais. Ainda assim, o interesse por turismo de natureza, observação de aves e experiências autênticas vem crescendo, e o estado começa a ser reconhecido como um destino estratégico nesse cenário.
Ser pouco visitado, nesse caso, não é uma desvantagem. É uma oportunidade. Significa menos exploração predatória, mais espaço para planejamento e a chance de construir um turismo mais consciente, que respeite o território e valorize quem vive nele.
Um convite para quem é de fora e para quem é daqui
Para quem ainda não conhece, o Acre oferece rios que refletem o céu, florestas que guardam histórias e fronteiras que conectam mundos. Para quem é daqui, viajar pelo próprio estado é também um exercício de reconhecimento e pertencimento.
Começar pelo Acre é entender que o turismo não precisa começar longe. Que o ponto de partida pode ser o lugar onde a gente pisa todos os dias. E que algumas das rotas mais interessantes do Brasil ainda estão fora do óbvio.
A rota começa aqui: no Acre. E segue aberta para quem quiser descobrir.
Sobre quem escreve
Sou Marisol Pinheiro Pontes, criada entre rios, estrada e floresta. Viajar me ensinou que conhecer o mundo não nos afasta das nossas raízes, pelo contrário, nos ajuda a reconhecê-las. Viajo como missionária há 17 anos e acredito no encontro entre culturas como caminho de consciência e transformação.
Atualmente, sou voluntária na ATINI – Voz pela Vida, atuo como consultora em seguro viagem e, nesta coluna, compartilho rotas possíveis, destinos pouco conhecidos e histórias que começam de onde estamos.
Instagram: @marisolpinheiro / @na.rota.do.ceu





