O ObservatĂłrio de ViolĂȘncia de GĂȘnero (OBSGĂȘnero), ĂłrgĂŁo auxiliar do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre e integrado ao Centro de Atendimento Ă VĂtima (CAV), divulgou dados que revelam um cenĂĄrio preocupante em relação aos feminicĂdios no estado. O ĂłrgĂŁo atua como uma sala de anĂĄlises, estudos e pesquisas voltadas ao monitoramento da violĂȘncia de gĂȘnero, reunindo informaçÔes para subsidiar açÔes de prevenção e responsabilização.
De acordo com o levantamento, a taxa de feminicĂdios no Acre apresentou variaçÔes ao longo dos Ășltimos anos. Em 2019, o Ăndice era de 2,73; em 2020, subiu para 2,95. Em 2025, no entanto, o nĂșmero cresceu de forma significativa, alcançando a taxa de 3,28, a maior em seis anos.

O relatĂłrio tambĂ©m traça o perfil das vĂtimas e das circunstĂąncias dos crimes | Foto: Reprodução
Somente em 2025, foram registrados 14 feminicĂdios consumados no estado. A capital, Rio Branco, concentrou quatro casos. Cruzeiro do Sul e TarauacĂĄ contabilizaram dois casos cada. Os demais registros ocorreram nos municĂpios de Bujari, Capixaba, FeijĂł, MĂąncio Lima, Porto Acre e Senador Guiomard, com um caso em cada localidade.
O relatĂłrio tambĂ©m traça o perfil das vĂtimas e das circunstĂąncias dos crimes. A maior parte das mulheres assassinadas estava separada ou em processo de separação do agressor, totalizando nove casos. Em relação Ă s medidas protetivas, 11 vĂtimas nĂŁo possuĂam nenhuma ordem judicial de proteção vigente, enquanto apenas trĂȘs estavam amparadas por esse tipo de medida no momento do crime.
Quanto aos meios utilizados, nove mortes foram provocadas por arma branca e quatro por arma de fogo. Os dados mostram ainda que a violĂȘncia ocorreu majoritariamente no ambiente domĂ©stico: 13 dos 14 feminicĂdios aconteceram dentro de casa. Outros trĂȘs casos foram registrados em via pĂșblica.
Um dos casos que mais marcou o ano foi o julgamento do feminicĂdio de Luana Conceição do RosĂĄrio, de 45 anos, ocorrido em Senador Guiomard. O Tribunal do JĂșri da comarca condenou JosĂ© Rodrigues de Oliveira, de 54 anos, a 52 anos e 6 meses de reclusĂŁo, em regime inicial fechado, pelo assassinato da ex-companheira.
O crime aconteceu na manhĂŁ de 13 de junho de 2025, quando a vĂtima saĂa de casa de bicicleta para comprar pĂŁo e foi surpreendida pelo ex-companheiro. Segundo o processo, o rĂ©u jĂĄ a seguia desde o dia anterior e cometeu o crime por nĂŁo aceitar o fim do relacionamento. A Justiça reconheceu que houve motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vĂtima.
Na sentença, o juiz RomĂĄrio Divino Faria destacou que o crime foi premeditado e executado com extrema frieza e planejamento. O magistrado tambĂ©m ressaltou os impactos do assassinato sobre a famĂlia, especialmente sobre o filho da vĂtima, um menino autista de 11 anos, que sofreu forte abalo emocional ao tomar conhecimento da morte da mĂŁe.
A pena-base foi fixada em 35 anos, acima do mĂnimo legal, em razĂŁo de circunstĂąncias judiciais desfavorĂĄveis, como maus antecedentes. Com o reconhecimento das qualificadoras do feminicĂdio, a condenação chegou a 52 anos e 6 meses de prisĂŁo. AlĂ©m disso, o rĂ©u foi condenado ao pagamento de indenização mĂnima de R$ 50 mil por danos morais Ă famĂlia da vĂtima.

