O ano de 2026 mal começou e já escancarou, sem disfarces, o que costuma ser a marca registrada dos períodos eleitorais no Brasil: o vale-tudo institucionalizado. E, como sempre, o primeiro sinal não veio das ruas, nem das redes sociais, nem do debate público. Veio de onde deveria partir o exemplo: do Congresso Nacional. Em mais uma demonstração de arrogância política e desprezo absoluto pela sociedade, parlamentares aprovaram, sem aviso prévio, sem discussão transparente, sem consulta popular e sem qualquer constrangimento, a flexibilização do teto para gastos com salários e benefícios, beneficiando justamente a estrutura mais cara e mais protegida da República.
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Em mais uma demonstração de arrogância política e desprezo absoluto pela sociedade, parlamentares aprovaram, sem aviso prévio, sem discussão transparente, sem consulta popular e sem qualquer constrangimento. Foto: Ilustrativa
O gesto, por si só, já seria ofensivo. Mas ele se torna ainda mais revoltante quando observado dentro do contexto brasileiro: um país onde a maioria da população enfrenta filas na saúde, precariedade na educação, insegurança pública, desemprego e dificuldade para manter o básico dentro de casa. O recado do Congresso é claro: quando se trata dos próprios interesses, não existe teto, não existe limite, não existe crise. Existe pressa, existe articulação, existe união. E, curiosamente, funciona.
A pergunta inevitável é: por que isso continua acontecendo? A resposta não está apenas nos gabinetes refrigerados de Brasília. Está, principalmente, no comportamento do eleitor.
O Brasil vive uma doença política antiga, hereditária, transmitida de geração em geração: o voto sem memória. É por isso que os mesmos sobrenomes atravessam décadas, séculos, como se o poder fosse uma capitania hereditária moderna. Muda o partido, muda o discurso, muda o slogan. Mas os rostos são os mesmos — ou então são os filhos, as esposas, os irmãos, os genros, os netos, os aliados históricos. E o eleitor assiste a isso como se fosse normal, como se fosse inevitável, como se fosse destino.
Não é destino. É escolha.
O cidadão brasileiro, em boa parte, aprendeu a reclamar, mas não aprendeu a decidir. Xingam o político de ladrão, de corrupto, de oportunista. Mas, na hora do voto, repetem o erro com uma fidelidade quase religiosa. E pior: fazem isso sem nenhum senso de responsabilidade, como se o voto fosse apenas um gesto automático, sem consequências. Como se não houvesse relação direta entre a urna e o caos que se instala depois.
A democracia não se destrói apenas com golpes. Ela apodrece, lentamente, quando o eleitor passa a tratar a política como torcida organizada. Quando escolhe candidato como escolhe time de futebol. Quando vota por raiva, por vingança, por fanatismo, por modismo ou por interesse pessoal. Quando vende o voto por favores, por promessas vazias ou por migalhas disfarçadas de ajuda.
E é justamente isso que faz de 2026 um ano perigoso.
Eleições majoritárias não escolhem apenas nomes. Elas escolhem rumos. Elegem o presidente que definirá a política econômica, social e internacional do país. Elegem governadores que controlam orçamentos bilionários e determinam o funcionamento de áreas vitais como segurança pública e saúde. Elegem senadores com poder de decidir o futuro do Supremo, de aprovar ou travar reformas e de influenciar diretamente o destino institucional do Brasil. E elegem deputados federais que, na prática, definem as regras do jogo — inclusive as regras que beneficiam a eles mesmos.
Por isso, a consciência do eleitor precisa ser mais do que um discurso bonito. Precisa ser prática.
Votar com consciência exige esforço. Exige investigar o histórico do candidato, sua coerência, suas alianças, seu comportamento diante de temas relevantes, seu compromisso real com o interesse público. Exige olhar além da propaganda, além do marketing, além das frases prontas e dos vídeos emocionantes. Exige desconfiar de salvadores da pátria e rejeitar os profissionais da indignação seletiva, que gritam contra a corrupção apenas quando é conveniente.
O eleitor precisa entender que política não se muda com meme, nem com curtida, nem com revolta de ocasião. Política se muda com decisão racional. E decisão racional exige informação, comparação, análise e memória.
O Brasil não vai melhorar enquanto o eleitor insistir em repetir o mesmo erro e depois agir como vítima do próprio voto. Não adianta reclamar do Congresso se, na próxima eleição, os mesmos forem reconduzidos ao poder. Não adianta se revoltar contra privilégios se, na urna, o eleitor premia quem sempre viveu deles.
Não adianta exigir mudança se o voto continua sendo usado como instrumento de acomodação.
2026 será, sim, um ano de disputa dura. Um ano de narrativas agressivas, promessas fáceis e manipulações emocionais. Mas também pode ser o ano em que o eleitor finalmente entenda que o futuro não depende apenas dos políticos. Depende de quem os coloca lá.
E, goste ou não, a verdade é simples: o eleitor é parte do problema quando vota errado. E será parte da solução quando votar com responsabilidade.
