Com as bĂȘnçãos do bonecĂŁo do carnavalesco JoĂŁozinho da Vila, falecido em 2017, a Praça ZĂ© Ramalho, a 5 quilĂŽmetros da Praça dos TrĂȘs Poderes, no centro de BrasĂlia, transformou-se em cenĂĄrio de resistĂȘncia cultural neste domingo (15) de carnaval.

Por mais um ano, o Bloco Charrete, dedicado a ritmos do Norte, atraiu foliÔes empenhados em manter a alegria em um dos bairros de maior importùncia histórica do Distrito Federal.
NotĂcias relacionadas:
- Bloco celebra diversidade e carnaval sem assédio no Rio de Janeiro.
- Bloco do Amor faz carnaval respeitoso e livre de preconceitos no DF.
A missĂŁo do Charrete Ă© manter o legado do bloco VilĂ”es da Vila, fundado por JoĂŁozinho. ApĂłs a morte do carnavalesco, a Vila Planalto, bairro prĂłximo ao Lago ParanoĂĄ onde originalmente moravam os operĂĄrios que construĂram BrasĂlia, ficou dois anos sem folias no carnaval.
O silĂȘncio carnavalesco sĂł foi quebrado em 2019, quando o produtor Thiago Fanis, acompanhado de membros do VilĂ”es da Vila e de figuras culturais da Vila Planalto, fundou o Charrete, formado pela uniĂŁo dos grupos Fanfarra Tropicaos e Charretinha do ForrĂł.
Â
âA Vila Planalto Ă© um dos territĂłrios de maior patrimĂŽnio histĂłrico do Distrito Federal. Procuramos manter acesa a chama do carnaval nessa regiĂŁo, sempre com as bĂȘnçãos de JoĂŁozinho da Vilaâ, explica Thiago, diante do bonecĂŁo do carnavalesco.
Ele faz questão de ressaltar que pediu autorização aos remanescentes do VilÔes da Vila antes de fundar o bloco.
MĂșsicas regionais
Esqueça os pandeiros, os tamborins e o axĂ©. No carnaval do Bloco Charrete, coexistem ritmos do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste. A banda Charretinha do ForrĂł toca ritmos nordestinos. A Fanfarra Tropicaos une mĂșsicas populares com marchas carnavalescas tradicionais.
TambĂ©m estĂĄ prevista a apresentação de DJs e de coletivos culturais do DF, com estilos que vĂŁo do reggae ao tecnobrega. No momento em que a reportagem da AgĂȘncia Brasil acompanhava o bloco, marchas carnavalescas tradicionais e boleros antigos eram tocados no palco.
Carnaval de interior
De menor porte que os blocos mais famosos do Distrito Federal, o Charrete atrai um pĂșblico em busca de uma folia mais tradicional e de menos multidĂŁo. Vestida de leoa, a autĂŽnoma Monique Menezes, 48 anos, diz que a Vila Planalto tem se tornado referĂȘncia para um carnaval diferenciado.
âA Vila Planalto remete a um povoado do interior, e o carnaval aqui acaba refletindo esse clima de folia de rua de cidade pequenaâ, conta Monique.
Pela primeira vez no bloquinho por indicação de amigos, o bancĂĄrio Ălvaro Peres, 36 anos, sentiu-se atraĂdo pelo formato mais tradicional do Charrete.
âPelo que vi atĂ© agora, gostei do bloco. Ă uma diversĂŁo que valoriza a cultura brasileira, com ritmo mais prĂłximo do Tropicalismoâ, declara.
ResistĂȘncia da alegria
AtĂ© pela proximidade com a Praça dos TrĂȘs Poderes, o carnaval na Vila Planalto nĂŁo se dissocia da polĂtica.
Enquanto o bonecão de Joãozinho da Vila desfilava na Praça Zé Ramalho, um folião balançava uma bandeira da Palestina.
JĂĄ estandartes feministas condenavam o assĂ©dio a mulheres no carnaval e a atual onda de feminicĂdios.
Adesivos contra a anistia aos condenados no 8 de janeiro e a favor da punição aos responsĂĄveis pela liquidação do Banco Master eram distribuĂdos aos foliĂ”es presentes.
Da mesma forma, o pĂșblico pregava nas roupas adesivos com a bandeira do Brasil conclamando a soberania do paĂs diante do tarifaço de Donald Trump.
Os frequentadores do bloco concordam que o carnaval nĂŁo serve apenas para se divertir, mas para passar mensagens.
âPor definição, o carnaval Ă© polĂtico. Ă um ato de resistĂȘncia, sĂł que por meio da alegria. Precisamos sorrir, cantar, dançarâ, defendeu Monique.
âO sistema atual Ă© construĂdo para a gente se frustrar. O carnaval Ă© uma brecha para se divertir e voltar Ă rotina de forma mais descansadaâ, comenta Ălvaro.

