A presidente do Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE), Dulce Benício, emitiu nota oficial nesta quinta-feira (19) manifestando repúdio às declarações públicas do treinador do Vasco-AC sobre o suposto caso de estupro coletivo envolvendo atletas do clube contra duas jovens, ocorrido em Rio Branco. O caso está sob sigilo policial e é investigado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).
Segundo a presidente, embora a apuração dos fatos deva seguir com rigor técnico e respeito ao devido processo legal, nenhuma circunstância justifica comentários que relativizem a violência, transfiram a responsabilidade para a vítima ou reproduzam estereótipos que a desumanizam.
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Em sua nota, Dulce Benício destacou que expressões como “homens longe de casa”, referências a “invasão do alojamento” ou a rotulação das vítimas como “Maria Chuteira” são incompatíveis com os valores constitucionais da dignidade da pessoa humana e da igualdade entre homens e mulheres. “A violência contra mulheres — física ou simbólica — não pode ser naturalizada nem tratada como opinião. A dignidade das mulheres é inegociável”, afirmou a presidente do TCE-AC.
O caso ganhou repercussão após relatos de que as vítimas teriam se deslocado até o alojamento do clube para um encontro consensual com um dos jogadores, mas, ao chegar ao local, teriam sido conduzidas coercitivamente a um dormitório onde os demais atletas aguardavam, resultando nos abusos. As jovens procuraram a Delegacia da Mulher ainda na manhã de sábado (15), e o registro formal da ocorrência foi realizado posteriormente, após contato do delegado de plantão, Alcino Souza, na Maternidade Bárbara Heliodora.
O episódio ocorre em um contexto delicado, já que o Acre enfrenta índices elevados de feminicídio e estupro, o que reforça a importância de abordagens responsáveis por parte de figuras públicas e esportivas durante investigações em andamento.
Nota na íntegra da presidente Dulce Benício
Diante da notícia de um suposto estupro coletivo envolvendo atletas vinculados a um clube esportivo do Acre, atualmente sob investigação policial, e diante das declarações públicas do treinador da equipe sobre o episódio, manifesto repúdio.
A apuração dos fatos deve seguir com rigor técnico e respeito ao devido processo legal. Contudo, nenhuma circunstância autoriza declarações que relativizem a violência, desloquem a responsabilidade do agressor para a vítima ou recorram a estereótipos que a desumanizam.
Em um estado que enfrenta índices elevados de feminicídio e estupro, expressões como “homens longe de casa”, a ideia de “invasão do alojamento” ou a rotulação de mulheres como “Maria Chuteira” não são neutras. Tais manifestações são incompatíveis com os valores constitucionais da dignidade da pessoa humana e da igualdade entre homens e mulheres.
A violência contra mulheres — física ou simbólica — não pode ser naturalizada nem tratada como opinião. A dignidade das mulheres é inegociável.
Rio Branco-Acre, 19 de fevereiro de 2026.
Dulce Benício
Presidente do TCE-AC
