A eleição para o governo do Acre em 2026 se desenha como um confronto desigual — e justamente por isso histórico. De um lado, candidaturas que partem de posições institucionais privilegiadas. De outro, um político que construiu sua trajetória governando e que entra na disputa apoiado mais em currículo do que em estrutura. É nesse contraste que emerge a figura de Tião Bocalom como uma espécie de “Dom Quixote” acreano: determinado, resiliente e disposto a enfrentar gigantes políticos e financeiros.
A vice-governadora Mailza Assis chegará a 2026 em condição particularmente confortável. Com a saída do governador Gladson Cameli, que deve disputar o Senado, ela assumirá o comando do Estado a partir de abril. Disputará a eleição no exercício do cargo — e, diferentemente de prefeitos ou outros cargos executivos, não precisará renunciar para concorrer. Trata-se de uma vantagem institucional relevante: máquina administrativa, visibilidade permanente e protagonismo formal.
Sua estratégia política passa, naturalmente, pela associação ao grupo governista e pela expectativa de transferência de capital eleitoral. O desafio será transformar essa herança em densidade própria de gestão. Assumir o governo e governar são movimentos distintos. A campanha exigirá demonstração concreta de capacidade executiva autônoma.
No outro campo está o senador Alan Rick, que também ocupa posição confortável. Pode disputar o governo mantendo seu mandato por mais quatro anos, sem necessidade de afastamento. Desde que foi eleito senador, constrói agenda e posicionamento voltados para 2026. Está em pré-campanha permanente. Aparece à frente em pesquisas iniciais — números que refletem visibilidade acumulada, embora ainda distantes do ambiente eleitoral definitivo.
Mas há uma diferença substantiva: Alan Rick nunca exerceu função executiva. Nunca administrou município, nunca geriu folha salarial, nunca enfrentou o desafio cotidiano de equilibrar orçamento, executar obras e manter serviços essenciais sob pressão. Sua experiência é parlamentar e midiática — legítima, mas distinta da experiência administrativa.
É nesse cenário que Tião Bocalom surge como o elemento disruptivo.
Prefeito três vezes de Acrelândia e reeleito em Rio Branco no primeiro turno, Bocalom construiu sua trajetória no exercício direto da gestão. Enquanto adversários estruturavam campanhas antecipadas, ele permaneceu governando. Submeteu-se ao julgamento popular administrando — e venceu.
Acrelândia consolidou-se como polo agropecuário sob sua liderança. Rio Branco passou por ciclo de obras estruturantes, reorganização urbana e investimentos em tecnologia e infraestrutura. Há críticas? Naturalmente. Mas há entregas concretas. Há portfólio.
O momento histórico torna essa comparação ainda mais relevante. O Acre passa a integrar o debate nacional sobre o corredor bioceânico e a conexão logística com o Pacífico, inserindo-se em um novo desenho comercial sul-americano. O Estado pode deixar de ser visto como periferia para assumir papel estratégico no eixo de exportação e integração continental. Esse novo ciclo exige experiência administrativa real, capacidade de articulação produtiva e visão executiva.
A disputa de 2026, portanto, será menos retórica e mais comparativa. De um lado, candidaturas que partem do conforto institucional e de estruturas robustas. De outro, um candidato que entra na corrida apoiado essencialmente em sua trajetória administrativa.
É a metáfora perfeita: um Don Quixote enfrentando gigantes bem armados.
Mas a história ensina que eleições não se vencem apenas com estrutura — vencem-se com credibilidade, narrativa e conexão com a realidade das pessoas.
2026 não será apenas uma eleição.
Será uma definição de futuro para o Acre e para os acreanos.
Zé Américo Silva é jornalista e consultor de marketing político
