Às vésperas da paralisação anunciada por motoristas para esta quarta-feira (22), a crise no transporte coletivo de Rio Branco ganhou um novo capítulo. Em um documento divulgado nesta terça-feira (21), a RICCO Transportes tornou pública uma prestação de contas detalhada e afirmou que a operação do sistema se tornou financeiramente inviável. Em tom duro, a empresa resumiu o cenário em uma frase: “Continuamos operando por respeito à cidade, mas o limite financeiro chegou.”
O material, direcionado a funcionários e à opinião pública, expõe números de arrecadação, despesas, dívidas acumuladas e acusa a Prefeitura de Rio Branco de não recompor os custos do serviço. A manifestação ocorre em meio à crescente insatisfação dos trabalhadores, que denunciaram atrasos salariais, pendências trabalhistas e anunciaram a suspensão das atividades nas primeiras horas desta quarta.
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Segundo a Ricco, em 3 de fevereiro de 2026 foi protocolado ofício informando à Prefeitura que não havia interesse na renovação do contrato emergencial referente ao Lote I do SITURB. A vigência oficial teria terminado em 10 de fevereiro, mas, ainda assim, a empresa afirma que manteve os ônibus em circulação “por boa-fé”, para evitar o colapso imediato do transporte público.
No documento, a empresa sustenta que houve publicação de uma suposta renovação contratual sem assinatura ou concordância formal da concessionária.
“Fechamos no vermelho”: caixa revela déficit em apenas 20 dias
A Ricco também apresentou um recorte financeiro entre 1º e 20 de abril de 2026, período em que afirma ter arrecadado R$ 2.848.062,15 entre caixa, cartão, Pix, vale-transporte e subsídios. No mesmo intervalo, os gastos somaram R$ 2.912.826,01, resultando em saldo negativo de R$ 64.763,86.
Entre as principais despesas apontadas estão:
- Combustível: R$ 1,15 milhão
- Peças e manutenção: R$ 481 mil
- Folha, férias, vale-refeição e tributos: demais valores operacionais
Segundo a empresa, mesmo pagando apenas o essencial para manter a frota em circulação, o caixa já encerrou no vermelho.
Rombo supera R$ 1,5 milhão e afeta salários
O ponto mais sensível do documento envolve obrigações vencidas. A empresa afirma ter acumulado, em apenas 20 dias, um déficit total de R$ 1.594.331,29, incluindo:
- Salários pendentes: R$ 574 mil
- Vale-alimentação: R$ 348 mil
- Cesta básica, rescisões e outros compromissos: R$ 607 mil
ENTENDA: Prefeitura de Rio Branco suspende licitação do transporte coletivo
A divulgação ocorre justamente após motoristas denunciarem atrasos salariais, falta de depósitos de FGTS e INSS e problemas envolvendo empréstimos consignados descontados em folha.
No dossiê, a Ricco afirma que transportou 490.248 passageiros entre 1º e 17 de abril. Desse total:
- 53,5% pagaram tarifa integral
- 23,4% eram estudantes com meia passagem
- 23,1% gratuidades
Ou seja, quase metade dos usuários não paga tarifa cheia. A empresa sustenta que esses valores deveriam ser compensados pelo poder público, conforme legislação vigente.
Ainda segundo a concessionária, a Prefeitura repassou R$ 2,89 milhões, quando o valor necessário para equilíbrio da operação seria R$ 4,41 milhões, considerando tarifa técnica de R$ 7,79. A diferença apontada é de R$ 1,51 milhão em apenas 17 dias.
As três causas do colapso, segundo a empresa
No documento, a Ricco atribui a crise a três fatores principais:
- Defasagem tarifária – tarifa pública congelada desde 2022, enquanto custos como diesel subiram fortemente;
- Omissão estrutural – vias precárias causando desgaste acelerado da frota;
- Mercado ilegal e inércia regulatória – denúncias de revenda irregular de vale-transporte e ambiente hostil ao setor.
A crise se agrava em um momento delicado para a mobilidade urbana da capital acreana. A Prefeitura suspendeu recentemente a licitação do novo sistema de transporte coletivo após impugnações e questionamentos ao edital.
Com isso, o sistema já operava sob incerteza jurídica e financeira. Agora, com a paralisação marcada para esta quarta-feira, milhares de trabalhadores e estudantes podem ficar sem ônibus logo nas primeiras horas do dia.
Em manifestação anterior, a Prefeitura de Rio Branco informou que não tinha conhecimento da paralisação anunciada pelos motoristas, mas que apuraria a situação. Até o momento, não havia resposta oficial sobre o conteúdo do documento divulgado pela empresa.

