Escondida, funcionĂĄria que fez alerta sobre voo da Chape alega inocĂȘncia

Por G1 03/01/2017 Ă s 11:20

Escondida no Brasil, a boliviana Celia Castedo Monasterio convive com o medo depois de sofrer ameaças e ter sido acusada de negligĂȘncia, mesmo apĂłs ter identificado problemas no plano de voo que levava a delegação da Chapecoense antes do aviĂŁo da LaMia deixar a BolĂ­via. Apesar das observaçÔes, a aeronave decolou, e o resultado foi a tragĂ©dia que deixou 71 mortos no dia 29 de novembro. Mais de um mĂȘs depois, a ex-funcionĂĄria da Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares de Navegação AĂ©rea da BolĂ­via (Aasana) recebeu o SporTV para uma entrevista exclusiva, com a condição de nĂŁo ter o local de refĂșgio revelado.

Em uma conversa de mais de uma hora com o repórter Fred Justo, ela chorou ao lembrar de tudo o que passou desde o acidente e garantiu que não tinha o poder de evitar que a aeronave decolasse rumo à ColÎmbia, apesar dos problemas detectados. Segundo Celia, somente a Direção Geral de Aviação Civil (DGAC) da Bolívia poderia ter impedido a realização do voo que partiu de Santa Cruz de La Sierra.

Escondida, funcionĂĄria que fez alerta sobre voo da Chape alega inocĂȘncia

Foto: Reprodução/Globo

– NĂŁo. NĂŁo a Aasana. Um “airways” nĂŁo. Um funcionĂĄrio nosso nĂŁo. Quero esclarecer que nĂłs recebemos esse plano de voo como uma formalidade, um documento de voo. Antes de apresentar isso, a linha aĂ©rea ou o piloto que queria realizar um voo nĂŁo regular, se dirige aos escritĂłrios da DGAC, e eles sĂŁo os que solicitam a autorização, a empresa ou o piloto. Isso Ă© o que eu queria esclarecer, que a DGAC Ă© a Ășnica autoridade que pode impedir a decolagem de uma aeronave – disse.

Questionada sobre o motivo do ĂłrgĂŁo nĂŁo ter impedido a decolagem, ela respondeu.

– Eu queria que essa pergunta fosse feita Ă  DGAC.

Nunca me senti responsåvel (pelo acidente). Eu me sentiria responsåvel caso não tivesse feito meu trabalho de observar detalhadamente o plano de voo, que é a minha função

Celia lembrou ter feito diferentes observaçÔes, mas considerou justamente o ponto referente ao combustĂ­vel como o maior dos problemas – o tempo de voo previsto (4h22min) era o mesmo registrado para a autonomia de combustĂ­vel que tinha a aeronave.

– Das cinco observaçÔes, a que me chamou mais atenção e a qual reforcei trĂȘs vezes foi a autonomia do voo. O combustĂ­vel era exatamente para o tempo da rota. Mas, Ă© claro, a parte de informação suplementar Ă© de conhecimento unicamente da empresa aĂ©rea, a parte operacional. E o comando Ă© do piloto ou do despachante do voo. Essa parte, a linha aĂ©rea Ă© a Ășnica que pode fazer alguma modificação. NĂłs, como Aasana, como “airways”, nĂŁo podemos realizar um pedido de modificação direta, que eles mudem a informação, porque somente eles sabem qual Ă© o peso, o combustĂ­vel que estĂĄ na aeronave, peso e balanceamento que fazem.

ApĂłs o acidente, com a divulgação do plano de voo e do relatĂłrio de Celia, ela passou a receber ameaças. Ela reclama que nĂŁo teve tempo suficiente para se defender e, por medo, decidiu deixar a BolĂ­via. Mais de um mĂȘs apĂłs o acidente, ela chorou ao falar que teme pela prĂłpria vida e da famĂ­lia.

– Nos dias depois do acidente recebi ameaças por escrito, de morte, dizendo que eu era culpada pelo acidente (lĂĄgrimas). Sim (tem medo), especialmente pelos meus filhos. Me assustei muito quando chegaram as ameaças. EstĂŁo diretamente me acusando de algo que eu sou inocente e estĂŁo me ameaçando sem saber a minha verdade, sem poder me defender e esclarecer Ă s pessoas que eu nĂŁo deveria receber a culpa, que sou inocente. Sei que Ă s vezes as pessoas reagem de modo emocional e pouco a pouco vĂŁo se dando conta de que realmente eu nĂŁo fui culpada pelo acidente – completou.
As ameaças chegaram depois da divulgação do relatĂłrio que continha as observaçÔes. No dia 3 de dezembro, a Promotoria da BolĂ­via denunciou a funcionĂĄria por nĂŁo ter reportado a tempo as observaçÔes do plano de voo. Acusada de negligĂȘncia, ela pode responder por homicĂ­dio culposo, quando nĂŁo hĂĄ a intenção de provocar o crime.

– Recebi com espanto, me assustei muito. Para mim, foi um golpe muito duro porque num mesmo dia, numa mesma tarde, a instituição Aasana me fez perguntas investigativas, por uma advogada enviada de La Paz, um questionĂĄrio de perguntas investigativas e sem que eu tivesse um advogado que me desse um suporte. Isso me foi negado. Meia hora depois, no mesmo dia, na mesma tarde, jĂĄ me entregaram o processo interno, feito pela Aasana, sobre mim, no qual aponta que eu tinha 10 dias para me defender e provar minha inocĂȘncia, com documentação, mas nĂŁo me deram esses 10 dias. Terminei de receber esse processo administrativo e uma hora depois me informaram que o diretor regional estava em um Tribunal apresentando uma acusação formal contra mim, acusando-me diretamente. JĂĄ no Tribunal, tive todos os direitos subtraĂ­dos dentro da empresa, da instituição, nĂŁo me deram nem um dia. Na mesma tarde abriram dois processos e me acusaram diretamente num Tribunal – reclamou.

O acidente ocorreu na madrugada do dia 29 de novembro. A aeronave, um Avro RJ-85, bateu em uma montanha ao ficar sem combustível a 17 km da pista do aeroporto José María Córdova, em Medellín. Das 77 pessoas a bordo, 71 morreram.

Para conferir o material completo, com vĂ­deo, clique AQUI.

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