Depois de suportar quatro dias com dificuldades, a trĂ©gua na SĂria parecia nesta terça-feira (3) mais frágil do que nunca depois que uma parte dos rebeldes congelaram sua participação nos preparativos das negociações de paz, acusando o regime de violar o cessar-fogo.
A decisão de vários grupos rebeldes ameaça o processo que deve começar no final de janeiro em Astana, promovido por Moscou e Teerã e com o apoio do regime e Ancara, aliado dos insurgentes.
O ExĂ©rcito sĂrio voltou a bombardear na segunda-feira uma regiĂŁo rebelde perto de Damasco para tentar recuperar o controle de fontes de água vitais para a capital, porĂ©m, os insurgentes denunciaram uma violação da trĂ©gua e suspenderam o diálogo.
Dez grupos rebeldes anunciaram que suspendiam qualquer discussĂŁo em resposta Ă s “violações” da trĂ©gua.
“Estas violações continuam. Os grupos rebeldes anunciam a suspensĂŁo de qualquer discussĂŁo relacionada com as negociações de Astana”, indicaram em um comunicado.
Há duas semanas, antes da trégua apadrinhada pela Rússia e pela Turquia, a Força Aérea bombardeou essa área quase que diariamente, e as tropas do governo avançavam nesta segunda-feira para os arredores de Ain al-Fige, uma importante fonte de água.
Os rebeldes afirmam ter respeitado o cessar-fogo em todo o territĂłrio sĂrio, mas alegam que o regime e seus aliados nĂŁo param de disparar, especialmente nas regiões (rebeldes) de Wadi Barada e Guta oriental, ambas situadas na provĂncia de Damasco.
Entre os grupos que assinaram o texto figuram os rebeldes islamitas Jaij al Islam e Faylaq al Rahman, presentes em Damasco, assim como o grupo Sultan Murad, apoiado pela Turquia e Jaij al Ezza, ativo na provĂncia de Hama (centro).
Escassez de água
A ofensiva das forças do regime, apoiadas por combatentes do movimento xiita libanĂŞs Hezbollah, continuava nesta terça-feira em Wadi Baradi, uma regiĂŁo controlada pelos rebeldes a 15 km de Damasco, segundo o ObservatĂłrio SĂrio de Direitos Humanos (OSDH).
Este setor é estratégico, já que abriga as principais fontes de fornecimento de água potável para os quatro milhões de habitantes da capital e seus arredores.
Segundo o OSDH, as tropas do regime usam helicĂłpteros e realizam disparos de artilharia.
O governo sĂrio acusa os rebeldes de danificar as infraestruturas, em particular contaminando com diesel as reservas de água e cortando a rede de abastecimento para Damasco.
Os rebeldes respondem dizendo que são os bombardeios que danificam as instalações e prejudicam o abastecimento.
O regime de Damasco tambĂ©m afirma que o grupo Fateh al Sham (ex-frente Al Nosra, a Al-Qaeda na SĂria) está presente em Wadi Barada, o que os rebeldes negam. O grupo Fateh al Sham está excluĂdo da trĂ©gua e das negociações.
‘Fase crĂtica’
O OSDH tambĂ©m falou de outras violações da trĂ©gua na SĂria, em particular ataques aĂ©reos contra Jan Seijun, na provĂncia de Idleb, que está em grande parte controlada pelos rebeldes. Uma mulher grávida morreu e trĂŞs civis ficaram feridos.
Para o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman, a trĂ©gua está em uma “fase crĂtica” e ameaçada se a RĂşssia e a Turquia nĂŁo interferirem para resgatar o pacto.
Moscou, que opera na linha de frente, obteve no sábado um apoio de compromisso do Conselho de Segurança da ONU a seu plano de paz.
Em plena transição polĂtica antes da posse de Donald Trump, os Estados Unidos, que apoiam a oposição ao regime de Assad, nĂŁo foram associados a esta iniciativa, pela primeira vez desde o inĂcio da guerra, em março de 2011.
Em compensação, é a primeira vez que a Turquia, que se aproximou da Rússia, participa de um acordo.

