O bem viver e os “causos” do radialista Idel Diniz em Sena Madureira

Nascido no Seringal Baturité, Colocação Silva Jardim, no Rio Iaco, Eduardo Reis Ferreira Diniz, de 67 anos, mais conhecido como Idel Diniz, ou como “o lord do Iaco”, é um cidadão popular no município de Sena Madureira, distante 144 quilômetros da Capital. Filho de um seringalista bem sucedido, na época áurea da borracha, foi morar em Manaus e estudou nas melhores escolas. Mas a saudade destas plagas o fez retornar quatro anos depois. Por quase cinco anos foi gerente do seringal da família.

A decadência da economia gomífera e a consequente desativação dos seringais na década de 80, no entanto, fez o nosso personagem migrar para a cidade, onde casou, tornou-se funcionário público e o maior radialista de todos os tempos em Sena Madureira. Pois foi no rádio o maior e melhor telefone público do município, cerca de 1.600 quilômetros seringal adentro, que esse aposentado bonachão fez sucesso, amigos e colecionou alguns “causos”.

Idel Diniz com a esposa Zeneide e Milk, seu cãozinho de estimação/Foto: Arquivo da família

Em um curtíssimo espaço de tempo, transformou-se no “menino prodígio do Iaco” e, por onde andava, era recebido com foguetes e papéis para autografar. “O Dr. Ulisses [ex-prefeito Ulisses Modesto] me chamou para montar a Rádio Difusora, que servia pra tudo: mandar recados para o interior, veicular notícias nacionais e locais, utilidade pública, dar alô e parabéns para os ouvintes, além de abrir espaço para todo artista da região se apresentar”, lembrou Idel, que resume a magia do rádio em duas palavras: som e emoção.

Os filhos com nomes “diferentes” de Idel e Zeneide Diniz: Kathleen Macloren, MacMaillan e Kethleen Maklaine/Foto: Arquivo da família

Além comandar programas de notícia e entretenimento, ele se tornou narrador esportivo. “Certa vez, eu fui transmitir um jogo no Estádio José de Melo. Um grupo de moças começou a me vaiar. A cabine não tinha vidro. Ao presenciar aquele situação, a minha mulher saiu de perto de mim, fez que não me conhecia [risos]. Aí eu fiz valer o meu suposto talento. Entoei a voz e elogiei as meninas, que passaram a me aplaudir e a minha esposa voltou”, contou ele, às gargalhadas .

O prestígio e a fama, no entanto, não eram exclusividade do nosso bon vivant. “Todo mundo tinha uma legião de fãs, inclusive tem episódio de um amigo meu, o Ronaldo Queiroz, que me disse: ‘Idel, porque você não namora? Tem gente que namora e a esposa nem sabe’, propôs ele. Aí, no programa de maior audiência, eu contei essa história. Em um minuto a mulher do Ronaldo estava na rádio querendo pegar ele”, lembrou o “amigo da onça”.

Idel também coleciona pérola de políticos. O seu preferido é o ex- prefeito Aguinaldo Chaves. “Certa vez, na rua que dá acesso à BR, ele estava com seu carro próximo de cinco caminhões atolados. Todos ajudando uns aos outros até que um caminhoneiro fez o seguinte comentário: “Pelo o amor de Deus! Essa cidade não tem prefeito. Se encontrasse esse fi d’uma égua eu o matava”. E o Aguinaldo respondeu: “Eu faria o mesmo, meu amigo”.

Família comemora aniversário de Idel: “Esse cara sou eu”

A reportagem da ContilNet encontrou essa figuraça jogando dominó na casa de um amigo. Nesta entrevista risonha, concedida em sua casa, ele fala um pouco da sua vida, dos hábitos sena-madureirenses e principalmente do rádio, que é uma de suas paixões. Veja os principais trechos:

ContilNet – Quais as músicas e os cantores que o senhor mais gostava de tocar nos programas?

Idel Diniz Agepê e Roberto Carlos. Temos muitos disco de vinil e quase a coleção completa do Rei. Os amigos já levaram muitos. Eu ainda tenho uma vitrola que está ali na sala.

ContilNet – Sena Madureira tem fuxico?

Idel Diniz – Aqui? Sena é a cidade do fuxico. Na feira, no dominó, no estádio, no tacacá, nos bares. Mesmo com a Televisão, Sky, internet e WhatsApp isso nunca mudou. O fuxico é a nossa maior tradição.

ContilNet – Como é o agricultor de Sena Madeira?

Idel Diniz- Ele é extremamente preguiçoso. O governo tem culpa sim, mas ele não gosta de plantar. Agora meninos eles têm muito.

ContilNet – Como está a economia do município?

Idel Diniz- Aqui é a cidade do já teve: já teve dois jornais impressos diários, já teve castanha e borracha, madeira, peixes e até narrador esportivo, que sou eu. Eu tenho três diplomas garantindo que sou o melhor narrador da cidade. Mas só tinha eu de concorrente (gargalhadas).

ContilNet – Como está o patrimônio histórico e a memória da cidade?

Idel Diniz- Do jeito que você está vendo. Abandonado, sem manutenção. O poder público ‘num tá’ nem está nem aí para a nossa história. Os políticos não acham que isso é importante, infelizmente. Temos prédios centenários abandonados, bem como documentos e objetos que deveriam estar em ‘num’ museu ou memorial.

ContilNet – Os seus três filhos possuem, digamos assim, nomes inusitados. O senhor pode explicar o motivo disso?

Idel Diniz- – Eu tinha certeza que o primeiro bebê seria uma moça, que é a mais bonita de cidade. A menina nasceu linda, com cabelo de ouro. Então ela tinha que ter um nome bonito, concorda? Eu gostava muito da atriz Sophia Loren. Então eu juntei o nome de uma irmã do presidente Kennedy, que é Kathleen, com o as iniciais de MacGovern, que é de um político democrata americano, e Loren da atriz, ficando Kathleen Macloren. O nome do meu segundo filho foi assim: tinha pastor que queria que colocasse o nome de Macmiller, que era um ministro da Inglaterra. Então eu registrei MacMaillan ‘pra’ se diferenciar do pastor. E o nome da terceira filha foi a mãe dela, que fez uma adaptação com o nome da mais velha, e ficou assim: Kethleen Maklaine.

ContilNet – Na manhã do dia de 28 de setembro de 1972, uma avião DC-3 da Cruzeiro vitimou 32 pessoas. Foi o maior acidente da aéreo até então. O que o senhor lembra daquela tragédia?

Idel Diniz – Foi uma coisa terrível. O acidente aconteceu nas margens do Rio Caeté, acerca de quatro quilômetros daqui, mas o cheiro dos corpos carbonizados infestou a cidade. Muitas pessoas ficaram semanas sem comer carne. Lamentamos, também, a perda o arcebispo da Diocese do Acre e Purus, Dom Giocondo Maria Grotti.

ContilNet – O que é o bem viver?

Idel Diniz – Sou um homem religioso e por isso feliz. Amo e sou amado por Jesus Cristo. Sou católico, mas convivo naturalmente com outras religiões. Tem um padre, nosso amigo, que eu disse a ele: quando estamos em pecado adocemos. Veja um exemplo. Eu sai daqui para ir à cidade de Aparecida (SP) e findei parando na capital Fluminense. Gostei muito e nem fui. Sabe o que aconteceu? Pequei dengue e quase me lasco. Isso foi castigo.

ContilNet – É verdade que o senhor não gosta do PT? E também nunca votou na legenda?

Idel Diniz – Depois da minha família, esse é o meu maior orgulho. Viu o que eles fizeram com o Brasil e o nosso Estado? Todo mundo aqui já foi do PT, menos eu. Olha essa vergonha de BR. O Orleir foi o melhor governador pra nós. Espero que a operação Lava Jato passe o Brasil a limpo. Quando se rouba o dinheiro da saúde, matam-se pessoas. Quando o dinheiro é educação, deixam-se pessoas sem instrução. E quando desviam verbas da segurança o resultado é o que está acontecendo na nossa cidade.

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