28 de novembro de 2016. Prestes a disputar a primeira partida da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, o time da Chapecoense, do interior de Santa Catarina, estava a todo vapor. O voo inicial seguiria diretamente de Guarulhos (SP) para Medellín, na Colômbia, mas o voo foi vetado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Para não prejudicar a partida, a equipe tomou um voo comercial até a Bolívia. Lá, pegaram um novo voo da “Línea Aérea Mérida Internacional de Aviación” – LaMia. A companhia de aviação, inicialmente constituída na Venezuela em 2009, havia se mudado para uma nova sede na cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra.

Acreano foi vítima da imprudência aos 44 anos de idade. Foto: Arquivo de Família
Entretanto, devido a um plano de voo irregular e um erro de cálculo do combustível da aeronave, aquela seria a última viagem de 71 pessoas. Na madrugada do dia 29 de novembro, foi notificada a queda da aeronave próximo ao aeroporto de Medellín.
Das 71 pessoas que perderam a vida no acidente, 19 eram jogadores do time Chapecoense. Outras vítimas incluem o acreano e médico da equipe, Márcio Bestene Koury, o técnico Caio Júnior, 21 jornalistas e sete tripulantes.
Apenas seis pessoas sobreviveram à queda, sendo os jogadores Alan Ruschel, Neto e Jackson Follmann, o jornalista Rafael Henzel, e os tripulantes Ximena Suarez e Erwin Tumiri.
“FUI REZAR E DORMI. ACORDEI SEM CHÃO”
“Eu estava em tratamento em Goiânia quando tudo aconteceu. Havia terminado de falar com minha nora Graziela, às 23h, perguntando se meu filho já havia chegado em Medellín. ‘Ele vai chegar meia noite’, ela me disse. Rezei e fui dormir. Na madrugada, meu irmão, José Bestene, me ligou e disse que havia acontecido um acidente. Pensei que era sobre um neto que vive comigo, o Vítor, mas ele disse: ‘Foi com o Chapecoense’. Fiquei sem chão.”

Familiares de Márcio durante o velório em 2016. Foto: Reprodução
É assim que Nabiha Bestene, de 66 anos de idade, relatou como soube da morte do filho Márcio Bestene Koury, médico da equipe de Chapecó. “Minha pressão subiu muito e tive que ser medicada para dormir. No dia seguinte, quando acordei, meus irmãos e sobrinhos já estavam comigo. Apesar da dor, os familiares e amigos me ajudaram muito naqueles primeiros dias tentando assimilar a tragédia”, disse Nabiha.
Sobre o filho, ela enfatiza o amor pelo Acre e a vontade que ele tinha de voltar para o Estado. “Sempre foi apaixonado pelo futebol, e essa paixão o levou a ir pelo rumo esportivo dentro da medicina. Ele sempre pedia que eu me aposentasse e fosse morar com ele na cidade. ‘Quem vai cuidar de ti sou eu, mãe’, ele me dizia. Faz um ano e a maioria das pessoas diz que passou rápido. Mas a dor não deixa. Os dias demoram a passar desde que isso aconteceu”, disse.
UM ANO DEPOIS
Além da dor de perder entes queridos, as famílias das vítimas enfrentam um outro tipo de problema: o jurídico. Um ano depois da tragédia, não houveram punições legais para as negligências que levaram à queda nas montanhas colombianas. Além disso, apenas as famílias dos 19 jogadores mortos receberam um seguro, e ainda aguardam as indenizações junto com os familiares das demais vítimas – que ainda não receberam nem um, nem outro.
Quanto à empresa LaMia, segundo especialistas que acompanham o caso, se encontra em um “deserto jurídico”: Como Marco Antonio Rocha Venegas (apontado como proprietário da empresa) está foragido, autoridades do Brasil, Bolívia e Colômbia envolvidas nas investigações têm dificuldades em apontar os culpados pela tragédia. Até o momento, além de Venegas, foram indiciados outros quatro bolivianos: dois operadores do aeroporto de Santa Cruz de la Sierra, que aprovaram o plano de voo irregular da LaMia, o diretor da companhia Gustavo Vargas Gamboa e seu filho Gustavo Vargas Villegas, integrante da cúpula de aviação civil da Bolívia. Os Vargas são os únicos que já foram detidos em todo o processo, mas hoje cumprem prisão domiciliar.
Em outubro, o Ministério Público Federal de Santa Catarina revelou indícios de que a empresa aérea pertença, de fato, a Loredana Albacete, filha do ex-senador venezuelano Ricardo Albacete. Ele era o verdadeiro dono do avião que transportava a delegação da Chapecoense, que supostamente estava arrendado à LaMia. Por envolver documentos de vários países, a complexa investigação caminha a passo lento e, por enquanto, a família Albacete não foi indiciada pelas autoridades.

71 pessoas faleceram em decorrência do acidente aéreo. Foto: Reprodução
No Brasil, a única conclusão do Ministério Público é de que a Chapecoense não tem culpa pelo acidente. Familiares alegam que o clube teria sido imprudente ao contratar a LaMia para transportar a delegação em rotas internacionais. Porém, os procuradores entendem que não há irregularidades nos contratos firmados entre o clube e a empresa boliviana, que também operou voos da seleção argentina em jogos das Eliminatórias sul-americanas.
Depois do acidente, a relação da Chapecoense com os familiares das vítimas ficou estremecida. O clube responde a 17 ações trabalhistas e três cíveis. Em nome da conciliação de interesses, foram criadas duas associações para cobrar punição aos responsáveis pelo acidente e, consequentemente, as indenizações que as famílias ainda não receberam.
A primeira é a Associação Brasileira das Vítimas do Acidente com a Chapecoense (ABRAVIC), que busca prestar auxílio imediato a familiares desamparados. A outra se trata da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense (AFAV-C), mais dedicada ao processo pelas indenizações.
No início de novembro, a ABRAVIC anunciou um acordo com a diretoria da Chapecoense para destinar R$ 29 mil (equivalente a 7.300 euros) por mês até outubro de 2018, que serão divididos entre as famílias como auxílio-saúde.
No último dia 21, a AFAV-C se reuniu com advogados da Chape para definir os próximos passos, que podem resultar em uma ação coletiva na Justiça brasileira. “Ainda não temos a quem processar. É um processo complexo, que envolve burocracias e legislações de três países diferentes. Praticamente não houve evoluções e existe o risco de os prazos processuais expirarem. Estamos vivendo essa angústia desde o acidente”, conta Fabienne Belle, presidente da AFAV-C e esposa do fisiologista Luiz Cesar Martins, que morreu na tragédia.
A seguradora Bisa, que tinha contrato com a LaMia, recusa-se a pagar integralmente o valor da apólice do seguro, estipulada em R$ 80 milhões, por entender que uma falha humana – do piloto, que errou o cálculo de combustível – causou o acidente. Na última reunião com representantes das vítimas, a Bisa ofereceu um acordo em que pagaria R$ 645 mil a cada família. A proposta foi rejeitada.
Por enquanto, os únicos recursos recebidos pelos familiares provêm da divisão da renda de amistosos realizados pelo clube, como o Troféu Joan Gamper, a convite do Barcelona, e, no caso de parentes dos jogadores que morreram, seguros contratados pela Chapecoense e Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Por outro lado, depois de alguns contratempos, a Chapecoense conseguiu cumprir seu principal objetivo dentro de campo: permanecer na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Na última rodada da competição, que será disputada no próximo domingo (2 de dezembro), a equipe catarinense tem até mesmo a chance de conquistar vaga na Copa Libertadores.
