O Brasil como um organismo, caminha a seu próprio tempo, mesmo com alguns impedimentos

Sonhamos há muitas décadas em alcançar a realidade de países desenvolvidos como a Noruega e a Suíça, por exemplo, que demasiadamente distantes do nosso espírito brasileiro de transição (estado em que o brasileiro, completamente, ainda não se desprendeu do atraso, mas que almeja avançar, mesmo que inconscientemente), nos mostram que algumas qualidades precisam ser adquiridas e postas em prática para o provimento de qualquer espécie de evolução, seja na esfera econômica ou na dimensão humana, propriamente dita. Mas estamos caminhando… Com passos lentos, mas estamos…

Embriagados pela corrupção sistêmica, que também inclui a nossa participação (ou não) direta e/ou indireta, enquanto cidadãos de direitos e deveres, pela incompetência dos nossos representantes em exercer unicamente o que exige a Constituição e cegos pela cultura do “jeitinho brasileiro”, considero que perdidos estamos no país em que o ‘rabo abana o cachorro’. Mas há uma esperança, porque despertamos, em algum nível.

Sempre que me refiro à essa máxima de uma jurista que conheci há algum tempo, expressando nos últimos meses que no Brasil “o rabo abana o cachorro”, me dou conta de que o ano de 2018 está sendo marcado por um desmonte de parte dos direitos civis, levando em consideração que o orçamento público foi saqueado, por numerosos casos de corrupção (alguns com sentenças proferidas e outros em fase de investigação) e que o direito de ir e vir, por falta de segurança, está sendo limitado, em virtude da ineficiência do Estado na garantia de medidas efetivas. Além disso, quando trato de questões relacionadas aos direitos civis, também resgato decisões ‘chulas’, como imposição de um modelo de família (Estatuto votado na câmara municipal de Rio Branco, que denomina família uma composição que reúne apenas, Pai, Mãe e Filho), a proposta de desmonte do SUS (medida que deve investir mais dinheiro nos planos de saúde e estender apenas alguns tipos de serviços ao setor público, fazendo com que você, contribuinte, realize parte de exames, consultas e outros procedimentos médicos, pagando mais caro por isso), dentre outras aberrações impostas pela camada mais perversa desse Brasil.

Não é fácil encarar tudo isso!

Há esperança!

Embora esses ensaios e movimentos insanos, recheados de maldade, estejam a sugar, pelo menos na tentativa, as únicas energias que nós brasileiros ainda dispomos, extraio de Kurt Goldstein, um neurologista e psiquiatra alemão, a ideia de que todo organismo tem a nata virtude de se autorregular, mesmo em desequilíbrio, restaurando suas próprias funções e tendo, sempre, algo de preservado para que faça essa atualização. Lanço mão de uma analogia, dentro dessa teoria organísmica, correlacionado a compreensão ao sistema chamado Brasil, que também considero um organismo.

Nós estamos, certamente, com essa estrutura adoecida, machucada, mas ao mesmo tempo, com algumas partes preservadas. É nesse sentido que confirmo a necessidade de promover neste país, a participação ativa da sociedade civil, com o voto consciente, com o não apoio aos comportamentos corruptos e desvios de conduta, com a ida às ruas pedindo o aprimoramento da democracia, solicitando intervenções diretas daqueles que elegemos para ocupar os cargos públicos.

Não podemos deixar morrer o que ainda pulsa vida dentro desse sistema, segurando o que ainda resta. Havia uma força no público que solicitou a partir de reivindicações, eleições presidenciais diretas no Brasil, no movimento da década de 80 que conhecemos por “Diretas Já”. Reverencio àqueles que lutaram por mim e por você na história desse país. Eles foram o braço forte, quando o corpo estava adoecido.

Não é o caminho melhor, pedir intervenção militar (aqui não criticarei o regime ditatorial), como fator precipitante, mas, se torna a melhor saída, abraçar a decisão de lutar por uma nação livre dos maus feitores, daqueles que engessaram a nossa economia. Não reeleja quem compactua com crime organizado, com quem usa o dinheiro público para atender as próprias necessidades. Devemos exercer o que nos compete.

Há um tempo, de acordo com a perspectiva que citei acima, para que todo organismo se restabeleça, como por exemplo: o período cronológico necessário para que um medicamento faça efeito no corpo físico. Não estão livres, de forma alguma, aqueles organismos de alta complexidade, como o Brasil e qualquer outro Estado. Nenhuma potência já nasceu com o IDH ou PIB considerável, mas investiu energia e tempo pra conquistá-los.

Em virtude desse entendimento, vamos ficar com o que temos e com as armas (que não ferem, mais permitem o avanço) fundamentais para garantir mudanças, sem recorrer às agressões, como intervenções macabras, que buscam adiantar a todo custo essa promessa, que está no nosso plano de necessidades, mas não no nosso tempo, somente. Quando peço ação e temperança, nesse paradoxo interessante, é porque penso que qualquer agressão, deixa falecer os recursos inteligentes que temos para enfrentar o verdadeiro mau.

Ao contemplar os passos lentos que estamos dando, penso sobre o interessante e imprescindível apoio que ofertamos, como verdadeiros patriotas e zeladores do campo que habitamos, às operações contra corrupção, às lutas pela garantia de direitos (barrando preconceitos e estereótipos agressivos) e à consciência da necessidade de ter paz, tendo a sabedoria de que ela não coaduna com a injustiça. Pensem bem: o brasileiro sabe muito mais sobre quem são os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e como anda um processo na justiça, do que mesmo quem são os jogadores que irão compor o time do Brasil na copa do mundo, por exemplo. Ótimo! É isso mesmo!

De nada servem as teorias, se não as operacionalizamos. De nada servem os debates ideológicos de ego, se não sairmos da responsabilidade “sempre” terceirizada. Desenvolver é criar e, sobretudo, fazer algo com o que criou!

Everton Damasceno é repórter do site ContilNet, estudante de Psicologia e integrante do Grupo de Estudos e Experimentação em Gestalt-terapia do Acre (GEEGT).

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