Artigo de reflexão: Um Jesuíta entre nós- por Enilson Amorim

Iniciamos a reflexão, com uma breve contextualização da origem do Ratio Studiorum, que remonta as Constituições da Companhia de Jesus, elaborado por Inácio de Loyola e colocada em vigor em 1552. A sua IV parte, dedicada à educação, traz as linhas mestras da organização didática e o espírito da atividade pedagógica da Ordem.

Assim, quando Inácio de Loyola, em 1552, grafou, junto aos jesuítas, o Rátio Studiorum (método pedagógico dos jesuítas), considerado não só como uma das primeiras leis orgânicas que nortearia os métodos educacionais, já trazia, incluso, um vasto currículo, métodos de ensino e uma didática que deveria ser aplicada aos novos convertidos. Loyola estava procurando, naqueles tempos, sobre o comando do Papa, trazer o cristianismo ao Brasil bem antes da chegada do luteranismo. E mais, ele repensou em aprimorar a catequese, no intuito de proliferar a fé católica em toda a Europa, de forma brilhante. Tal currículo, contido no Rátio, não se resumia, apenas, aos objetivos referidos, mas, ainda, ensinar as ciências e formar bons alunos e futuros professores, como excelentes oradores, ricos em dialética e retórica, algo que ninguém ousaria apontar defeitos.

No que pese ao projeto luso, praticamente não existe nada recôndito, todos já sabemos que a dominação tinha que reinar de ambos os lados. A igreja e metrópole deveriam identificar qual era o modelo de cidadão propício ao espaço colonial e, assim, criar um projeto político pedagógico, visando garantir a formação de indivíduos dóceis e de fácil manipulação. Mas sobre este assunto, discutiremos em outro momento.

Retomando a questão primeira deste texto, por mais que José de Anchieta e o Manoel da Nóbrega tivessem métodos didáticos produzidos, num determinado tempo histórico, as estratégias de ensino foram retiradas do Rátio Studiorum, que traduziam grandes obras literárias clássicas, dentre as quais alguns fragmentos da bíblia para a língua tupi, no intuito de tornar o aprendizado cristão inclusivo, pela utilização da língua indígena, o que tornaria o processo de ensino/aprendizagem mais participativo, do ponto de vista cultural. Anchieta e Nóbrega, como bons missionários, demonstram, nesse método, algo muito revolucionário para a época. Assim, por essas e outras, os jesuítas foram perseguidos e chegaram a ser expulsos, dada a aproximação aos povos nativos e pelas denúncias ao descaso da metrópole aos verdadeiros donos da terra.

Não se pode olvidar que com a 1º e a 2º Revolução Industrial, alterou-se o ambiente de trabalho e, com ele, tudo deveria se transformar, inclusive o ensino e seus métodos. Hoje, os tempos são outros, instrumentos tecnológicos imbuídos de conhecimento cibernético e robótico tomaram conta das indústrias, criando marcas, no nosso dia a dia, no seio familiar e, principalmente, no espaço escolar. Por isso é urgente estudar outros modelos de currículos, ao longo dos séculos, embora cada um deles atendesse a realidades distintas.

Hoje, o mundo mudou, a informática modernizou a vida e criou novos hábitos, porquanto ampliou os aplicativos de comunicação na web. Ainda, deu impulso no processo comunicacional, numa velocidade que os humanos não esperavam, ou pelo menos não estavam preparados. Isso tudo deixou os professores e outros profissionais perdidos no tempo e no espaço.

Ao longo da história da educação mundial, professores e outros estudiosos, preocupados com o destino da juventude, para evitar alienação decorrente de fatores tecnológicos e robóticos, buscaram uma política educacional voltada à mudança de currículos, conteúdos e didática. Assim, por meio de inovação, buscaram novos modelos curriculares adaptados à realidade, mas, sobretudo, com um olhar mais focado para a educação especial. Desse modo, propunham um leque de atuação mais socializado na construção dos saberes, com setores da sociedade, tornando o currículo mais humanista e participativo.

Assim, viajando nesse tempo histórico, chegando à atualidade, com o objetivo de conhecer as estratégias de incluir os excluídos, dentro do universo educacional, chegamos na adequação do novo currículo, a BASE, ou melhor BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que é, sem dúvida, de suma importância, pois estabelece conteúdos igualitários para estudantes de todo país, podendo o mesmo ser flexionado de acordo com as dificuldades individuais do aluno. E, pelo visto, um desses professores, que planeja um excelente trabalho, aqui no Acre é, sem dúvida, Mauro Sérgio Cruz e sua valiosa equipe. Esse olhar dele é compreensível, considerando, que antes de ser Secretário de Estado, foi professor, logo sabe exatamente as dificuldades que encontram os educadores nesse caminhar sofrido. Fazer um sistema educacional funcionar bem não é tarefa fácil.

Sob essa ótica, o Secretário tem demonstrado preocupação de levar aos excluídos uma educação de qualidade. Mas, para isso, ele sabe o quanto é importante suas andanças, buscando ouvir as crianças, os adolescentes, os pais dos alunos adentrando nos lugares mais distantes do nosso Acre, tentando uma escuta, olho a olho, corpo a corpo. Na busca de compreender o processo educacional como instrumento que aproxima os esquecidos dos lembrados e, a partir de então, adotar políticas de inclusão educacional, democratizando a educação.
Trabalhando, desse modo, Cruz nos remete ao passado, trazendo um olhar positivo e cheio de esperanças, ao tempo em que mostra a formação jesuíta moderna, que tanto nos orgulha. Ele enxerga, de forma afetiva, os excluídos e, com isso, sente, na pele, as dificuldades dessa população sofrida. Para minimizar essa chaga social ele propõe ao Estado um tratamento mais humanista aos alunos e, como um bom professor, não se cansa de escrever em seu quadro que a maior arma para combater as desigualdades sociais é a educação. Neste sentido, o nobre Mestre, mesmo sentindo os ventos contrários pombalinos, numa tentativa ferrenha de derrubá-lo e deixá-lo fracassar, permanece de pé, firme igualmente um soldado do Senhor, iluminado, cativante, hospedeiro do conhecimento, enérgico e sempre apoiado pela fé de que um dia a educação será igual para todos. E é por estas e outras que este professor precisa da ajuda de cada cidadão acreano. É educação o motor que move o mundo. Avante, professor Mauro Cruz, um jesuíta entre nós.

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