‘Se uma pessoa em estado grave é idosa, a gente deixa morrer. Não posso pegar a vaga de alguém mais novo’, diz enfermeiro italiano

O enfermeiro italiano Dante Baldi, de 54 anos, trabalha há mais de 30 anos na Policlínica Gemelli, o maior hospital de Roma. Por lá, setores inteiros foram fechados e adaptados para abrigar exclusivamente os pacientes infectados pelo coronavírus.

Desde o início da epidemia no país, ele mantém uma escala que classifica como “massacrante” e convive com decisões dramáticas a cada momento.

Paciente infectado chega à Policlínica Gemelli, onde trabalha o enfermeiro Dante Baldi. Foto: Luigi Avantaggiato / Reuters

Paciente infectado chega à Policlínica Gemelli, onde trabalha o enfermeiro Dante Baldi. Foto: Luigi Avantaggiato / Reuters

“Se uma pessoa em estado grave é muito idosa, a gente deixa morrer. É preciso escolher, e não posso pegar vaga na UTI para alguém de 90 anos, com perspectiva de um ou dois anos de vida, e ignorar alguém de 60 anos, que tem perspectiva de 25. Todos os dias tenho visto isso”, diz Baldi em entrevista a ÉPOCA.

Ele menciona um caso recente para traduzir sua dura rotina. “Ontem um senhor de 86 anos estava agonizando e acabou morrendo porque não havia lugar e possibilidade de salvá-lo. A situação dos leitos de UTI está quase em colapso. Fechamos as salas operatórias e não há mais cirurgias que não sejam urgentes. Todas as salas estão virando UTIs.”

Baldi ressalta a importância de permanecer em casa diante do risco de contaminação. “A coisa mais importante que os brasileiros precisam saber é que é preciso ficar em casa e não entrar em contato com os outros. Caso encontrem alguém, fiquem a 1 metro ou 2 de distância. Estamos testando muitas pessoas, então já vimos que estamos com a taxa de mortalidade em torno de 5%. Primeiro era só com os idosos, mas o vírus está entrando em mutação e infectando crianças e jovens. Aqui já temos crianças infectadas, e o Estado não está mentindo. Estamos todos cientes do que está acontecendo. Ninguém está a salvo.”

* Mateus Baldi é jornalista e filho de Dante Baldi

VIVI PARA CONTAR

ENFERMEIRO NA ITÁLIA

Enfermeiro que trabalha em hospital em Roma diz que equipe médica deixa que morram idosos infectados com problemas muito graves

PUBLICIDADE