Dia Nacional do Samba: rompendo o machismo, Moças do Samba se consolidam no cenário acreano

Comemorado neste 2 de dezembro, o Dia Nacional do Samba é celebrado desde 1964. A data foi escolhida por ocasião da primeira visita de Ary Barroso a Salvador, em 2 de dezembro de 1940.

Um ritmo genuinamente brasileiro, com a fusão de elementos tropicais, africanos e ameríndios, foi, por muitos anos, um espaço tradicionalmente masculino.

Às mulheres, era reservado o papel de serem musas das letras dos sambas e apareciam como figuras sedutoras, desejadas e por muitos até traiçoeira, como na música de Noel Rosa: “Quando no reino da intriga, Surge uma briga, Por um motivo qualquer, Se alguém vai pro cemitério, É porque levou a sério, As palavras da mulher”; ou até como submissa, igual à Amélia, da música de Mário Lago e Ataulfo Alves: “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia/ Aquilo sim é que era mulher/Às vezes passava fome ao meu lado/E achava bonito não ter o que comer/Quando me via contrariado/ Dizia: Meu filho, o que se há de fazer?/ Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era a mulher de verdade”.

Foi um longo caminho até ser conhecida a primeira voz feminina no samba. Dona Ivone Lara rompeu a o processo do machismo e abriu as portas para as mulheres como protagonistas nas rodas de samba.

No Acre, em pleno século 20, o cenário do samba ainda não é um meio com muitas delas. Único grupo que é conduzido por musicistas mulheres, O Moças do Samba é um exemplo de resistência.

Formado por Carol Di Deus, Narjara Saab e Sandra Bu, o grupo surgiu em 19 de dezembro de 2013. Fruto do encontro de 8 mulheres em uma oficina de percussão para mulheres, ministrada pelo Clube do Samba Local à época. “Decidimos, por incentivo do nosso primeiro maestro, Antônio Carlos do Nascimento, formar um grupo protagonizado por mulheres e, desde então, várias mulheres precisaram sair do grupo por motivos pessoais e ficaram Carol Di Deus, Narjara Saab e Sandra Buh. Hoje, temos 5 músicos que nos acompanham e estamos sob direção musical de James Fernandes”, explica Narjara Saab.

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Carol di Deus, Sandra Vuh e Narjara Saab são o Moças do Samba/Foto: divulgação

Carol di Deus, que também integra o grupo, explicou que apesar de ao longo dos anos o Brasil ter tido grandes mulheres fazendo história, como Ivone Lara, Clementina de Jesus, Leci Brandão, Beth Carvalho, Jovelina Pérola Negra, Teresa Cristina, entre outras, ainda assim, foram e são minoria.

“O Samba é um meio que historicamente é protagonizado por homens, apesar da mulher ser parte atuante e estar presente desde o início de sua formação. Sempre esteve num papel secundário e sem espaço para exercer sua presença e criatividade em toda sua plenitude, fruto muito da nossa sociedade machista. Essas mulheres que você cita, foram e são de uma importância imensuravel para o movimento das mulheres no samba, pois através de muito esforço, persistência, resistencia e sofrendo com a discriminação, o preconceito e o machismo enfrentaram os obstáculos, quebraram barreiras e abriram espaço para a mulher ser vista e respeitada no meio do samba. O caminho ainda é longo até que possamos reconhecer tantos talentos e toda potência criativa da mulher no samba! Mas nós estamos aí e não somos poucas, mas precisamos de espaço e reconhecimento”.

Se compor e cantar o samba já é resistência, tocar instrumentos em meio ao estilo predominantemente masculino é um desafio ainda maior.

“Quanto à mulher tocar instrumentos nos samba, aqui na nossa cena é ainda muito raro… Temos mulheres instrumentistas sim e, inclusive, nós do Moças tivemos uma fase em que tocávamos e cantávamos, mas, depois que escolhemos seguir pela estrada dos shows cênico musicais, a gente precisou parar de tocar para poder atuar no palco. Temos a Rebeka do grupo Doce Amizade, que é percussionista aqui há mais de 10 anos atuando no samba. Mas, fora ela, atuando somente no samba, não temos mulheres instrumentistas na cidade. Mas temos em outros cenários e que vez por outra atuam no samba em participações especiais. A própria Camile Castro é instrumentista também e atua no samba, mas são raras”, avalia Sandra Buh.

Conheça o Moças do Samba

CAROL DI DEUS

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Atriz graduada pela UEL/PA. Atua no campo da produção e gestão cultural há mais de 20 anos. Trabalhou entre os anos de 1999 e 2001 no FILO (Londrina/PA), um dos maiores festivais de teatro do Brasil.

Produziu grupos artísticos como: Teatro da Vertigem (SP), Parlapatões, Patifes e Paspalhões (SP), Fractons (SP) entre outros.

Gestora pública do estado do AC desde 2007 atuando na construção e implementação de políticas públicas para a cultura durante 14 anos. Especialista em Gestão e Políticas Culturais pela universidade de Gironda/Espanha – Itaú Cultural.

Uma das criadoras do Grupo Moças do Samba. Palhaça há mais de 20 anos e articuladora da rede AcreDito Por Palhacas e co-criadora da Acreativa Produções.

NARJARA SAAB

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Graduada em Matemática e Especialista em Educação, Cantora, Produtora Cultural co-fundadora da Acreativa Produções, Roteirista, Fotografa profisional proprietária da Sol e Lua Fotografia e pesquisadora da história do samba, da participação da mulher/no cenário do samba e das matrizes africanas que originaram esse ritmo.

Artivista e uma das criadoras do Grupo Moças do Samba, grupo em que desde 2013 encampa projetos com foco no protagonismo feminino no samba, em pautas feministas e na liberdade de crença e respeito às religiões de matriz africana.

SANDRA BUH

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Mestra em Artes Cênicas pela UFAC, especialista em Educação, Diversidade e Cidadania pela FAEL, graduada em Artes Cênicas Teatro e Letras Português pela UFAC. É integrante do grupo de samba Moças do Samba e dos grupos de teatro
O Barulho do Acre, teatro GPT, Macaco Prego da Macaca, Cia Visse Versa de Ação Cênica e do grupo percussivo Maracatu Pé Rachado. Trabalha profissionalmente com teatro e música desde 1988.

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