Esses dias, enquanto organizava os papéis da minha mesa, que mais parece um campo de batalha entre o que já foi feito e o que ainda me espera, encontrei uma carta que nunca enviei. Estava dobrada em quatro, com a caligrafia torta de quem escreve com urgência, como se as palavras precisassem sair antes que o coração explodisse. Era uma carta para alguém que já não faz parte da minha vida. Alguém que, por muito tempo, eu insisti em manter nas entrelinhas da minha história.
E foi ali, com a carta entre os dedos e a frase de Ana Suy ecoando na cabeça “É preciso saber terminar um livro, Ă© preciso reconhecer um fim, Ă© preciso saber parar de escrever” que eu entendi: eu estava tentando continuar uma histĂłria que já havia acabado.
A gente tem essa mania, nĂ©? De querer reescrever finais. De colocar vĂrgulas onde já existe um ponto final. De insistir em capĂtulos que nĂŁo fazem mais sentido, sĂł porque temos medo do vazio que vem depois. Medo de fechar o livro e encarar a estante da vida, onde tantos outros esperam para serem abertos. Alimentamos promessas que nunca foram reais, sustentamos esperanças que já nĂŁo tĂŞm onde morar.
O tempo passou. E hoje, com mais silêncio do que certezas, eu reconheço: aceitar um fim não é desistir. É coragem. É maturidade. É saber que algumas histórias cumprem seu papel, e que continuar escrevendo pode ser uma forma de se perder de si.
Lembrei de uma ex-colega de trabalho. Ela liderava um projeto que amava, que fazia vibrar. Mas, aos poucos, o brilho foi se apagando. As reuniões já nĂŁo tinham a mesma energia, os resultados nĂŁo vinham, e ela tentava ressuscitar algo que já estava pedindo descanso. Foi difĂcil admitir. Porque quando a gente coloca amor em algo, Ă© quase impossĂvel aceitar que ele nĂŁo vai durar para sempre.
Mas ela parou. Respirou fundo. E encerrou. Com respeito, com gratidão, com a dignidade que toda boa história merece. E sabe o que aconteceu? Abriu espaço. Para novas ideias, novos encontros, novos começos.
São duas histórias. De pessoas diferentes. Mas de decisões idênticas. E de resultados surpreendentemente libertadores.
Terminar um livro é também um ato de amor. Amor por si, pela própria trajetória, pela possibilidade de recomeçar. Porque só quem reconhece um fim é capaz de viver plenamente o que vem depois.
EntĂŁo, se vocĂŞ está aĂ, segurando uma histĂłria que já nĂŁo te cabe, talvez seja hora de parar de escrever. De fechar o livro. De colocá-lo na estante com carinho e seguir em frente. Porque há outros livros esperando por vocĂŞ. E talvez, sĂł talvez, o prĂłximo seja aquele que vai te transformar.



