16/09/2026

Depois das canetas para emagrecer, vêm aí as canetas para preservar músculos?

Novas terapias buscam evitar perda muscular durante o emagrecimento

Por Nutrição em Pauta 16/09/2026 às 10:28
Reprodução

Nos últimos anos, medicamentos como semaglutida e tirzepatida transformaram o tratamento da obesidade. Agora, uma nova frente de pesquisa começa a chamar atenção: medicamentos desenvolvidos para preservar massa magra durante grandes perdas de peso.

Nas redes sociais, eles já começam a aparecer com um nome muito mais chamativo: “canetas para músculos”.

Mas será que estamos realmente diante de uma nova geração de medicamentos capazes de evitar a perda muscular?

A resposta exige cautela. Existem resultados promissores, mas boa parte dessas terapias ainda está em investigação e não deve ser confundida com uma solução pronta para ganhar músculos.

O problema não é apenas quanto peso se perde

Quando uma pessoa emagrece, o peso eliminado não corresponde exclusivamente à gordura.

Dependendo da magnitude da perda de peso, alimentação, nível de atividade física e características individuais, também pode ocorrer redução de massa livre de gordura.

Uma meta-análise publicada em 2026, reunindo 20 ensaios clínicos randomizados e mais de 15 mil participantes, estimou que a massa magra representou aproximadamente 25% a 39% do peso perdido nos estudos com agonistas de incretinas analisados. É importante ressaltar que massa magra não é sinônimo exato de músculo, pois inclui água, órgãos e outros tecidos livres de gordura.

Essa discussão fez surgir uma pergunta importante: será que o futuro do tratamento da obesidade estará não apenas em perder mais peso, mas em melhorar a qualidade desse emagrecimento?

O que são as chamadas “canetas para músculos”?

O termo é uma simplificação.

Entre as estratégias farmacológicas em desenvolvimento estão medicamentos que atuam sobre a miostatina e a activina, proteínas envolvidas na regulação da massa muscular.

A miostatina funciona como uma espécie de regulador natural que limita o crescimento muscular. Por isso, bloquear essa via pode favorecer maior preservação ou aumento de tecido magro.

Uma revisão científica publicada em 2026 destaca justamente a via activina/miostatina como um dos principais alvos estudados atualmente para preservar o músculo durante o tratamento da obesidade.

Mas isso não significa que essas substâncias sejam anabolizantes tradicionais nem que estejam disponíveis para uso estético indiscriminado.

Estamos falando de medicamentos experimentais, estudados em contextos clínicos específicos.

Os primeiros resultados chamam atenção

Um exemplo é o trevogrumab, anticorpo que bloqueia a miostatina e vem sendo estudado em associação à semaglutida.

No estudo de fase 2 COURAGE, divulgado em 2025, a adição do trevogrumab à semaglutida evitou aproximadamente metade da perda de massa magra observada com a semaglutida isoladamente durante as primeiras 26 semanas.

Outra estratégia recente é o apitegromab. Um estudo de fase 2 publicado em 2026 avaliou seu uso durante o emagrecimento induzido pela tirzepatida, reforçando o interesse científico em bloquear a miostatina para preservar tecido magro.

São resultados importantes, mas ainda precisamos de estudos maiores e mais longos para compreender segurança, manutenção dos resultados e, principalmente, se aumentar ou preservar massa magra se traduz proporcionalmente em mais força, funcionalidade e benefícios clínicos. Revisões recentes ressaltam que esse ainda é um ponto em aberto.

Preservar massa magra não significa automaticamente ganhar força

Essa diferença é fundamental.

Ter mais massa muscular e ter músculos funcionalmente mais fortes são coisas relacionadas, mas não idênticas.

Um medicamento pode interferir em vias biológicas que favorecem a preservação de tecido magro, mas o músculo precisa de estímulo mecânico para desenvolver força e capacidade funcional.

É justamente por isso que esses medicamentos não tornam a musculação dispensável.

E onde entram alimentação e treinamento?

Enquanto a indústria farmacêutica busca novas soluções, duas ferramentas que já conhecemos continuam sendo fundamentais: alimentação adequada e exercício resistido.

Uma meta-análise de 2026 encontrou menor proporção de perda de massa magra quando intervenções para emagrecimento incluíam treinamento resistido. Estudos e consensos recentes também destacam ingestão proteica adequada e exercícios de força como estratégias importantes durante o uso de medicamentos à base de incretinas.

E isso se torna ainda mais relevante quando o medicamento reduz bastante o apetite.

Comer muito menos sem planejamento pode dificultar atingir as necessidades de proteínas, vitaminas, minerais e energia. Portanto, simplesmente “não sentir fome” não significa necessariamente estar nutricionalmente bem.

O emagrecimento do futuro pode olhar menos para a balança

Talvez essa seja a parte mais interessante dessa nova discussão.

Durante muito tempo, o sucesso do emagrecimento foi avaliado principalmente pelo número de quilos perdidos.

Hoje, a ciência começa a dar cada vez mais atenção à composição corporal e à funcionalidade.

Perder 15 quilos não conta toda a história. Quanto foi gordura? Quanto foi massa magra? A força foi preservada? A alimentação continua nutricionalmente adequada? Como estão saúde metabólica e capacidade funcional?

Uma revisão publicada em 2026 propõe justamente que o tratamento da obesidade passe a considerar a “qualidade” da perda de peso, buscando reduzir gordura enquanto se preservam músculo, função física e saúde metabólica.

As novas terapias direcionadas à massa muscular podem se tornar ferramentas importantes no futuro, especialmente para pessoas com maior risco de perda muscular. Mas ainda não substituem aquilo que já sabemos funcionar.

Medicamento pode atuar em uma via biológica. Ele não treina pelo paciente e não organiza sua alimentação.

Por isso, principalmente diante de emagrecimentos expressivos, acompanhamento médico, nutricional e de um profissional de educação física continua sendo fundamental para que o objetivo não seja simplesmente pesar menos, mas perder gordura preservando saúde, músculos e funcionalidade.

Referências científicas

CARTY, S. Myostatin-targeting antibody protects lean mass during incretin-induced weight loss. Nature Reviews Endocrinology, v. 22, n. 8, p. 450, 2026.

LISCO, G. et al. Targeting the activin/myostatin–ActRII pathway to preserve skeletal muscle mass in obesity: mechanistic insights and therapeutic perspectives. Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders, v. 27, n. 4, p. 763-780, 2026.

SANCHO-HARO, E. et al. Optimizing weight loss in the GLP-1 era: preserving muscle mass, function and metabolic health through precision nutrition and resistance training. Pharmaceuticals, v. 19, n. 6, p. 897, 2026.

REGENERON PHARMACEUTICALS. Results from Phase 2 COURAGE trial demonstrating potential to improve quality of GLP-1 receptor agonist-induced weight loss by preserving lean mass. Tarrytown, 17 set. 2025.

EUROPEAN ASSOCIATION FOR THE STUDY OF OBESITY; EUROPEAN FEDERATION OF THE ASSOCIATIONS OF DIETITIANS; EUROPEAN COALITION FOR PEOPLE LIVING WITH OBESITY. Nutritional, functional, and psychological considerations for incretin-based therapies in adults: consensus statement. 2026.

Luana Diniz
Foto: Clara Lis

Luana Diniz – Nutricionista Clínica Esportiva | CRN7 16302

Nutricionista e atleta, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e pós-graduada em Nutrição Clínica Esportiva. Referência em emagrecimento, hipertrofia e recomposição corporal, com foco em resultados sustentáveis e estratégia individualizada.

Realiza atendimentos presenciais em Rio Branco (AC) e online, auxiliando pacientes a melhorar a relação com a alimentação, otimizar performance e transformar o corpo com consistência, sem radicalismos.

É colunista do ContilNet e parceira da Be Strong Fitness, levando informação de qualidade e prática para o dia a dia.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.