Esquerda quer eleger pelo menos um deputado federal, mas a briga vai ser grande

Avaliação dentro da federação é de que há condições de conquistar pelo menos uma cadeira

Por Matheus Mello, ContilNet 09/06/2026 às 10:28
Hoje, três nomes aparecem como os mais competitivos. — Foto: Reprodução

Os partidos de esquerda do Acre entraram em 2026 com uma preocupação que se tornou prioridade desde a última eleição: voltar a ter representação na Câmara dos Deputados. Em 2022, PT, PV e PCdoB ficaram sem nenhuma das oito vagas da bancada federal acreana, resultado que expôs a perda de espaço do campo progressista em um estado cada vez mais inclinado à direita.

Desta vez, a avaliação dentro da federação é de que há condições de conquistar pelo menos uma cadeira. O problema é que a disputa pela vaga considerada mais viável promete acontecer dentro da própria aliança.

Hoje, três nomes aparecem como os mais competitivos.

O PT aposta no vereador André Kamai, nome da nova geração do partido em Rio Branco. O PV trabalha a candidatura de Virgílio Viana, filho do ex-governador Tião Viana. E o PCdoB volta a lançar Perpétua Almeida, ex-deputada federal que ficou fora da Câmara por pouco em 2022.

A conta da esquerda é simples: primeiro, alcançar votos suficientes para garantir uma cadeira. Depois, saber quem ficará com ela.

Perpétua larga na frente

Embora a disputa interna da federação PT/PV/PCdoB ainda esteja em aberto, Perpétua Almeida aparece, neste momento, com uma vantagem sobre os demais concorrentes.

A pesquisa Paraná Pesquisas divulgada na última semana mostrou a ex-deputada entre os nomes mais lembrados pelos eleitores acreanos na corrida pelas vagas da Câmara Federal.

Além do recall acumulado por quem já exerceu mandatos em Brasília, Perpétua chega à eleição após ter ocupado a direção da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) durante o atual governo Lula. No Acre, sua passagem pelo órgão acabou associada a entregas como o Complexo Industrial do Café de Mâncio Lima, inaugurado em 2025, e ao empreendimento de Cruzeiro do Sul, previsto para ser entregue no próximo mês.

Esse conjunto de fatores tem garantido à ex-deputada uma rede de apoios e, ao menos neste início de pré-campanha, a coloca em posição de destaque dentro da própria federação.

Os veteranos ficaram de fora

Se a estratégia da esquerda fosse montar uma chapa capaz de sonhar com mais de uma vaga na Câmara Federal, talvez fosse necessário recorrer aos velhos nomes que marcaram a história do campo progressista no Acre.

A federação PT/PV/PCdoB optou por uma renovação parcial, mas deixou fora da disputa figuras como os ex-deputados federais Léo de Brito e Siba Machado, o ex-prefeito de Rio Branco e ex-deputado Raimundo Angelim, a ex-vice-governadora Nazareth Araújo e o ex-governador Binho Marques.

Nenhum deles ocupa mandato atualmente, mas todos ainda preservam capital eleitoral e mantêm identificação com parcelas do eleitorado que acompanharam os anos de hegemonia petista no estado.

O assunto da semana

O desabamento da ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, virou naturalmente o principal assunto político da semana. E, como costuma acontecer em momentos de crise, não faltaram tentativas de transformar a tragédia em discurso eleitoral.

Em meio ao ambiente de acusações, a deputada federal Socorro Neri adotou um tom diferente. Em manifestação pública, preferiu destacar a resposta do governo estadual e elogiou a postura da governadora Mailza Assis diante da crise.

Socorro lembrou que a ponte havia sido interditada preventivamente antes do desabamento e citou medidas adotadas em seguida, como a instalação do gabinete de crise, o atendimento às vítimas e a decisão de acionar judicialmente a construtora responsável pela obra.

A avaliação da parlamentar é que momentos como esse exigem menos disputa política e mais capacidade de gestão.

Independentemente das divergências partidárias, a crise em Sena Madureira acabou servindo também como um teste de imagem para os atores políticos. Alguns optaram pelo confronto. Outros, pela defesa de uma resposta institucional.

E, em tragédias como essa, a forma como cada um reage costuma ser observada pela população com mais atenção do que os discursos feitos depois.

A responsabilidade do presente

A obra da ponte Frei Paolino Baldassari não foi licitada, executada ou entregue durante a gestão de Sula Ximenes no Deracre. Ainda assim, desde o desabamento, a atual presidente do órgão tem assumido a linha de frente da crise e evitado qualquer tentativa de se desvincular do problema.

Nos bastidores do governo, a avaliação é de que Sula tem adotado a postura que o cargo exige: enfrentar a situação em vez de procurar culpados antes da hora.

É evidente que a apuração sobre responsabilidades técnicas e administrativas precisará apontar quem falhou. Mas, para quem ocupa funções públicas, existe uma regra não escrita bastante conhecida na política: quem assume uma estrutura, assume também seus problemas.

Como diz o velho ditado, “quem casa com a viúva, casa com os filhos”.

Tudo ou nada

Samir Bestene oficializou a pré-candidatura a deputado estadual. E poucos nomes chegarão a 2026 em condições tão favoráveis.

É vereador, carrega um sobrenome tradicional na política acreana e tem o pai, José Bestene, no comando da Saúde, a maior secretaria do Estado.

Com esse conjunto, a expectativa dentro do próprio grupo é simples: ganhar.

Se não conseguir se eleger com toda essa estrutura política acumulada ao redor, será difícil encontrar uma oportunidade mais favorável no futuro.

A nuvem sobre a homenagem

Enquanto o deputado Fagner Calegário e o vereador Bruno Moraes participavam da sessão solene em homenagem ao Dia do Trabalhador Terceirizado, na Aleac, um assunto dominava as conversas de corredores.

Circula nos bastidores a informação de que uma série de demissões de terceirizados ligados politicamente aos dois pode ocorrer nos próximos dias.

O motivo atribuído nos bastidores seria o mesmo de sempre em ano eleitoral: a falta de entusiasmo dos dois parlamentares em embarcar no projeto de reeleição da governadora Mailza Assis.

Por enquanto, tudo não passa de especulação. Mas, em política, boato persistente costuma ser sinal de que alguém está mandando recado.

Resta saber se a fumaça vai desaparecer ou se, desta vez, há fogo por trás dela.

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