No Acre, a causa animal sobrevive graças ao trabalho voluntário. Essa é uma verdade dura, conhecida por quem vive a realidade dos resgates diariamente. Desde os meus 17 anos, eu não sei o que é viver sem dedicar parte da minha vida a seres que não sabem falar, mas sabem sentir. E, muitas vezes, ouso dizer que sentem mais do que alguns humanos.
Eu não estou sozinha. Existe um grande grupo de protetores espalhados pelo nosso estado, unidos por algo em comum: o amor pelos animais. Pessoas que interrompem a própria rotina para salvar vidas invisíveis aos olhos do poder público. Pessoas que enfrentam chuva, trânsito, fome, cansaço, dívidas e frustrações simplesmente porque não conseguem passar indiferentes diante do sofrimento.
Se não fosse por esse trabalho voluntário, haveria uma superpopulação ainda maior de animais abandonados nas ruas. Consequentemente, também haveria mais acidentes, mais doenças, mais sofrimento e mais mortes. O abandono não é apenas um problema animal, é também uma questão de saúde pública, segurança e dignidade social.
Nós nos cansamos fisicamente, emocionalmente e financeiramente, mas seguimos. Repartimos a própria comida com quem precisa. Há pessoas que enchem calçadas de vasilhas de ração todos os dias. Nunca tivemos férias. Nunca houve descanso verdadeiro. Porque, para quem protege, basta existir um animal ferido ou abandonado diante dos nossos olhos para tudo parar: perdemos aula, atrasamos trabalho, deixamos compromissos para trás e vamos fazer aquilo que, muitas vezes, o próprio Estado não faz: salvar.
Em Rio Branco, existe lei municipal determinando que o poder público realize o resgate de cães e gatos e encaminhe os animais saudáveis para adoção. Porém, na prática, essa política quase não funciona. A consequência disso é cruel: protetores endividados, casas superlotadas, ONGs sobrecarregadas e mulheres adoecidas emocionalmente por carregar uma responsabilidade que deveria ser compartilhada pelo Estado.
E a proteção animal no Acre já não se limita apenas a cães e gatos. Somos um estado de fronteira e convivemos também com casos envolvendo cavalos, aves silvestres, alpacas, lhamas e outros animais vítimas de abandono, maus-tratos ou exploração. O sofrimento não escolhe espécie. Se é um cavalo abandonado, um passarinho ferido ou um cão atropelado, haverá alguém tentando ajudar.
Recentemente, o Acre acompanhou mais um resgate realizado pela ONG Patinha Carente, exemplo de resistência dentro da causa animal. Enquanto isso, outras organizações estão com os resgates suspensos, não por falta de vontade, mas por falta de recursos. A dívida sufoca quem protege.
A verdade é que não sabemos por quanto tempo a causa animal continuará sendo sustentada quase exclusivamente por protetores independentes, em sua maioria mulheres. Mulheres que acolhem, cuidam, alimentam, medicam, fazem rifas, vendem objetos pessoais e acumulam contas para impedir que vidas sejam descartadas.
A Constituição Federal determina que todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Isso inclui a proteção da fauna e o combate aos maus-tratos. Mas, na prática, parte da política ainda ignora que a Constituição também deve alcançar aqueles que não votam, não gritam e não ocupam espaços de poder.
Os animais não falam, mas o povo acreano grita por eles.
E enquanto existir alguém incapaz de passar indiferente diante da dor, a causa animal continuará resistindo no Acre, mesmo abandonada pelo sistema.


