Recentemente nossa cidade foi tocada por uma dor antes inimaginável, alguns diriam uma “tragédia”. Bem, costumamos chamar de tragédia tudo aquilo que sobrevêm de forma inesperada, como um acontecimento catastrófico, funesto ou terrivelmente desesperador, que provoca medo, dor, angústia e normalmente envolve a perda de bens materiais, mas principalmente vidas, vidas que importam e que eram amadas.
Nietzsche nos ensina que “Existem alturas da alma, de onde mesmo a tragédia deixa de ser trágica”, esta frase nos leva a uma reflexão talvez mais profunda: o que está diante dos nossos olhos e nós estamos fingindo ou fechando os mesmos, para uma violência que cresce de todos os lados e todos os dias na nossa sociedade? O que é trágico e o que é falta de cuidado e responsabilidade?
Ao discorrer sobre como a humanidade e os governantes muitas vezes encenam suas ações, camuflando na verdade a falta de um olhar verdadeiramente atento para as necessidades básicas da população, Marx afirmou num dos seus discursos: “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”.
O caso do Instituto São José não é um fato isolado, há centenas de casos similares no mundo. Não é uma tragédia, também não é uma farsa. É real. É a dor de todos, mas principalmente, a dor de duas famílias que perderam quem amavam e de centenas de famílias que terão que lidar com o luto e o trauma que vai morar para sempre no inconsciente.
O caso em tela desabou sobre nós uma dor que parecia distante, veio sem pedir licença e mudou por um dia, para os que olharam de fora e de dentro, a percepção da vida e a morte de forma drástica também escancarou o grito desesperado de uma sociedade representada por alguém adoecido, quem sabe também, vítima da violência, ao final, quando um é violentado toda a sociedade sofre as consequências, e talvez esta seja a parte mais difícil de digerir, pois fomos ensinados a culpar e punir, e queremos de alguma forma exercer um poder que não cabe a nós, mas ao Estado, ao grande “boss”.
Estamos tão imersos em nós e mecanicamente programados para atirar a primeira pedra que esquecemos que somos humanos e precisamos de cuidado, de afeto, acolhimento e amor. Cada um de nós, dentro da sociedade, tem um papel fundamental no cuidado e proteção daqueles que estão sob a nossa responsabilidade. Ao Estado cabe prestar assistência social, saúde, educação, segurança, entre outros; à Justiça cabe fazer cumprir as leis e garantir direitos e cidadania; à família cabe o amor, o sustento e o bem-estar dos seus; e às instituições escolares e/ou universitárias, privadas ou públicas, cabe o ensino das matérias e a responsabilidade civil pela guarda de todos os bens, principalmente, o bem da vida, a vida de todos aqueles que recebe diariamente ao abrir os seus portões para ensinar, acolher, proteger e formar homens e mulheres para o futuro.
Não podemos mais nos omitir da responsabilidade que cada um de nós tem dentro da sociedade, e devemos também, como sociedade e personagens principais deste conglomerado, entender a necessidade de conhecer, reconhecer, identificar e implementar em todos os ambientes humanos programas de riscos psicossociais que eduquem, previnam, gerenciem e fomentem uma cultura de paz, de eliminação de violência psicológica, moral e até sexual, não apenas dentro das empresas, mas também e principalmente nas instituições, sejam públicas ou privadas, sejam do ensino escolar ou universitário.
Os riscos psicossociais nos ambientes onde pessoas circulam ou permanecem por longos períodos de tempo diário representam um desafio crescente para a saúde e bem-estar daqueles que exercem o cuidado e a responsabilidade nesses locais. O silenciamento, a indiferença ou em alguns casos a desídia, e até mesmo a falta de conhecimento ou de técnicas para lidar com casos de violência dentro de ambientes educacionais, é grave. Não podemos fechar os olhos e ignorar casos de assédio moral, bullying, cyberbullying, e tantas outras modalidades de violência que ao longo do tempo vem se aprimorando como mecanismos de intimidação ou suposto poder por parte dos agressores.
As instituições são responsáveis sim. Tanto no âmbito civil, laboral e penal. A dor, infelizmente, ainda é a maior educadora, mas precisamos realmente aprender com ela. Que a história não se repita para não nos tornarmos uma farsa como sociedade e como humanidade, que saibamos proteger o bem mais precioso que ainda temos: a vida de quem amamos ou que assumimos o dever legal de proteger.

