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Wania Pinheiro

Endividado: consome sem pensar e depois chora no boleto

Por Wania Pinheiro, ContilNet 04/05/2026 às 14:12

Foto: Canva

A cena se repete em diferentes cantos do país: não há carros disponíveis para alugar, hotéis operam com alta ocupação, aeroportos vivem cheios e restaurantes seguem movimentados. Em Rio Branco, duas das maiores locadoras do Brasil não tinham um único veículo disponível. Em Porto Seguro, o roteiro foi o mesmo. No Acre, em Porto Velho ou na fronteira de Brasiléia com Epitaciolândia, a sensação é clara: o consumo está vivo e forte.

Mas, ao mesmo tempo, os números mostram um país atolado em dívidas. Milhões de brasileiros inadimplentes, programas do governo oferecendo descontos de até 90% para renegociação e um discurso generalizado de aperto financeiro. Afinal, como essas duas realidades convivem?

A resposta não é simples, mas passa por alguns fatores centrais.

Primeiro, o acesso ao crédito. O Brasil consolidou, nos últimos anos, uma cultura de consumo altamente dependente de parcelamentos, cartões e financiamentos. Não é incomum que viagens, eletrônicos e até despesas do dia a dia sejam bancados com dinheiro que ainda não existe, ou que já está comprometido. O consumo, portanto, não reflete necessariamente renda disponível, mas sim capacidade de endividamento.

Segundo, há uma mudança comportamental importante: o brasileiro passou a priorizar experiências. Viajar, sair para comer, frequentar eventos, tudo isso ganhou peso na decisão de gasto, muitas vezes acima de compromissos considerados “essenciais”. É o consumo emocional, que responde mais ao desejo imediato do que ao planejamento financeiro.

Outro ponto é a falsa sensação de liquidez. Aplicativos de crédito rápido, limite alto no cartão e facilidades digitais criam a impressão de que há dinheiro sobrando. Na prática, trata, se apenas de antecipação de renda futura muitas vezes já comprometida.

E há ainda um elemento novo e preocupante: o crescimento dos jogos virtuais de aposta, como o popular “tigrinho”. Para uma parcela da população, o dinheiro não está sendo apenas gasto, está sendo perdido. E rapidamente. Isso agrava o endividamento e distorce ainda mais a percepção de realidade financeira.

O resultado é esse Brasil paradoxal: cheio nos aeroportos e nos cadastros de inadimplentes. Um país onde falta carro para alugar, mas sobra dívida no nome. Onde o lazer cresce junto com o descontrole financeiro.

Os programas de renegociação lançados pelo governo são, nesse contexto, uma tentativa de reorganizar esse caos. Mas atacam mais o efeito do que a causa. O problema central continua sendo a falta de educação financeira e uma cultura de consumo imediatista.

No fim das contas, o Brasil não é um enigma, é um país onde o consumo deixou de ser reflexo da renda e passou a ser movido por crédito, desejo e, muitas vezes, ilusão.

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