Fernando Mendes esqueceu a canção, mas o Brasil jamais esquecerá

Seus sucessos dominavam as rádios, os programas de televisão e os encontros familiares

Por Wania Pinheiro, ContilNet 29/05/2026 às 19:18
Fernando Mendes esqueceu a canção, mas o Brasil jamais esquecerá/Foto: Reprodução

Cresci ouvindo Fernando Mendes. Cresci ouvindo uma geração de artistas que transformava sentimentos em poesia e melodias. Os anos 70 e 80 foram uma época em que as músicas pareciam ter alma, e Fernando Mendes era uma dessas almas raras que entravam em nossas casas pelo rádio e permaneciam para sempre em nossos corações.

Dias atrás, assisti a um vídeo que me deixou profundamente emocionada. Alguns amigos do cantor tocavam e cantavam “A Desconhecida”, um dos maiores sucessos de sua carreira. Ao lado deles estava o próprio Fernando Mendes. Mas havia algo diferente. Algo doloroso. O artista que escreveu e eternizou aquela canção não conseguiu cantá-la. O Alzheimer, doença cruel que rouba memórias e apaga pedaços da história de uma pessoa, não permitiu que ele se lembrasse daquela obra-prima que nasceu de sua própria inspiração.

Foi impossível assistir sem sentir um aperto no peito.

Nos comentários do vídeo, milhares de fãs expressavam a mesma tristeza. Mas, junto com ela, surgia uma bela corrente de amor. Muitos diziam que Fernando poderia até não se lembrar da música, mas eles jamais esqueceriam. Outros contavam que cresceram ouvindo suas canções ao lado dos pais, em tardes tranquilas, em viagens de família ou nos velhos rádios que embalavam a vida simples de tantas casas brasileiras.

E talvez esteja aí a maior vitória de um artista.

A memória humana pode falhar. O tempo pode mudar rostos, vozes e lembranças. Mas a arte verdadeira desafia tudo isso. Ela permanece viva. Ela atravessa gerações. Ela continua encontrando abrigo no coração das pessoas.

Fernando Mendes foi um fenômeno de sua época. Seus sucessos dominavam as rádios, os programas de televisão e os encontros familiares. Suas músicas falavam de amor, saudade, desencontros e esperanças de uma forma que parecia conversar diretamente com cada ouvinte.

Hoje, ao vê-lo em silêncio diante de uma canção que emocionou milhões de brasileiros, entendemos que o Alzheimer pode levar lembranças, mas não consegue apagar legados.

Fernando talvez não se recorde de cada verso que escreveu. Talvez não reconheça toda a dimensão da própria obra. Mas isso já não importa tanto. Porque sua música continua viva em milhões de memórias espalhadas pelo Brasil.

Enquanto houver alguém cantando “A Desconhecida”, lembrando uma tarde da infância, uma paixão da juventude ou um momento feliz ao lado dos pais, Fernando Mendes continuará presente.

E talvez seja essa a mais bonita forma de eternidade que um artista pode alcançar: viver para sempre na lembrança daqueles que foram tocados por sua arte.

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