Quando cheguei a Rio Branco, no início dos anos 80, a cidade tinha uma vida noturna que parecia pulsar no ritmo da música. Havia alegria nas ruas, encontros nos bares, bailes que atravessavam a madrugada e uma geração inteira que encontrava na música uma forma de celebrar a vida.
Os boleros do saudoso Geraldo Leite emocionavam casais apaixonados. Aurélio Guedes e tantos outros artistas locais arrastavam multidões. Onde havia uma festa com eles, ou com os inesquecíveis Mugs, o público comparecia. Não importava a distância nem o horário. O que importava era estar lá.
O Festival Acreano da Música Popular (FAMP) era um celeiro de talentos. A Rádio Difusora Acreana fazia parte da rotina de quem amava música. Foi através dela que conhecemos artistas nacionais, internacionais e também grandes nomes da nossa terra, como Jorge Cardoso, Tião Natureza, Mão de Onça, Da Costa e tantos outros que ajudaram a construir a identidade cultural acreana.
Rio Branco tinha seus templos da diversão. O Girau, da Socorro e do Alonso, o Casarão, o Gaivota, os bailes do Nosso Clube, o Luar de Prata, o Sambão do 15. Cada lugar tinha sua personalidade, seu público e suas histórias. Ali nasciam amizades, romances e lembranças que atravessariam décadas.
Quem gostava de dançar agarradinho tinha inúmeras opções. Quem preferia algo mais moderno e irreverente encontrava abrigo no Café Concerto, a primeira grande boate moderna da capital. Era uma época em que a cidade parecia ter uma agenda permanente de diversão.
Os anos passaram. Muitos daqueles lugares fecharam as portas. Alguns artistas partiram. As novas gerações chegaram com outros hábitos e outras formas de entretenimento. Em vários momentos tivemos a sensação de que aquela Rio Branco boêmia, musical e vibrante havia ficado apenas na memória.
Mas será que não estamos assistindo ao nascimento de um novo ciclo?
Foi impossível não fazer essa reflexão ao assistir a festa de aniversário de sete anos da Casa do Rio. O evento reuniu centenas de pessoas, de diferentes gerações, em uma celebração marcada por boa música, alegria, encontros e reencontros.
O que mais chamou atenção não foi apenas a quantidade de pessoas. Foi a energia do lugar. A sensação de pertencimento. O sorriso de quem estava ali simplesmente para se divertir. Algo que lembra muito os melhores momentos da vida noturna que Rio Branco já viveu.
A Casa do Rio conseguiu algo raro: reunir públicos diferentes em um mesmo ambiente. No palco, há espaço para o pagode, para a MPB, para o samba e até para o sertanejo universitário, que pode não agradar a todos, mas atrai multidões Brasil afora. O importante é que a música continua sendo o elo que une as pessoas.
Por trás desse sucesso está a empresária Isabel Dantas, que desde o início acreditou em um projeto ousado. Ela investiu, persistiu, enfrentou desafios e nunca teve medo de inovar. Hoje vê seu empreendimento consolidado como um dos principais espaços de entretenimento da capital acreana.
A festa dos sete anos foi mais do que uma comemoração empresarial. Foi uma demonstração de que Rio Branco continua tendo público para a música ao vivo, para os encontros presenciais, para a celebração da amizade e da cultura.
Talvez os tempos sejam outros. As músicas mudaram. Os costumes também. Mas a essência permanece a mesma.
As pessoas continuam precisando de lugares para rir, dançar, cantar, conversar, paquerar e criar memórias.
Por isso, ao sair da festa da Casa do Rio, levei comigo uma impressão muito forte: talvez os velhos tempos não estejam voltando exatamente como eram. Mas o espírito daqueles belos dias parece estar reaparecendo. E isso, para quem ama Rio Branco, é uma notícia maravilhosa.


