ApĂłs mais de duas dĂ©cadas de reivindicações, o processo de reconhecimento territorial do povo Nawa/Kapanawa deu um passo decisivo com a validação tĂ©cnica dos estudos que definem a área tradicional ocupada pela comunidade indĂgena no Vale do Juruá. A medida foi oficializada pela Fundação Nacional dos Povos IndĂgenas, que aprovou o RelatĂłrio Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID), documento fundamental para a continuidade da demarcação.
A área reconhecida está situada entre os municĂpios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves, no Acre, e abrange cerca de 65 mil hectares. Com a aprovação do relatĂłrio, o territĂłrio deixa de ser classificado apenas como uma reivindicação em análise e passa a ter delimitação oficialmente definida no âmbito administrativo, etapa que antecede outras fases legais do processo demarcatĂłrio.
A assinatura do despacho que valida o estudo foi conduzida pela presidenta da Funai, Joenia Wapichana, marcando mais um avanço nas polĂticas pĂşblicas voltadas Ă regularização fundiária de terras indĂgenas. A dirigente tem defendido a retomada dos procedimentos de demarcação como estratĂ©gia de proteção cultural, ambiental e social dos povos originários.
O documento tĂ©cnico descreve nĂŁo apenas os limites geográficos, mas tambĂ©m os elementos histĂłricos, antropolĂłgicos e ambientais que comprovam a ocupação tradicional do povo Nawa/Kapanawa. A comunidade local reĂşne mais de 300 indĂgenas distribuĂdos em dezenas de famĂlias, que mantĂŞm vĂnculos histĂłricos com a regiĂŁo e modos de vida associados Ă floresta.
Lideranças indĂgenas acompanharam a formalização do ato e consideram a medida um reconhecimento de uma luta transmitida entre gerações. Para a comunidade, a delimitação representa segurança jurĂdica inicial sobre o territĂłrio e reforça a preservação das práticas culturais e da organização social tradicional.
O nome “Nawa”, oriundo de lĂnguas do tronco Pano, está associado Ă ideia de “povo” ou “gente”, enquanto “Kapanawa” remete Ă ancestralidade do grupo. A memĂłria coletiva do povo relaciona sua origem a antepassados que resistiram a deslocamentos forçados e Ă perda de territĂłrio ao longo do sĂ©culo XX.
Representantes tĂ©cnicos do governo federal e organizações indĂgenas acompanharam o processo, entre elas a Coordenação das Organizações IndĂgenas da AmazĂ´nia Brasileira, que atua na articulação regional dos povos amazĂ´nicos.
Com a conclusĂŁo dessa etapa, o procedimento segue agora para as fases seguintes, que incluem análise de eventuais contestações, demarcação fĂsica e homologação.


