23/09/2026

Ataques cibernéticos contra órgãos públicos dobram em quatro anos no Brasil

Dados do governo federal apontam salto de 4,9 mil para 10,3 mil notificações anuais

Por Fhagner Soares, ContilNet
Levantamento do CTIR Gov inclui dados de municípios, estados e esferas federais/ Foto: Reprodução

O volume de investidas criminosas contra a infraestrutura digital da administração pública no Brasil registrou crescimento de 111% em um intervalo de quatro anos. Relatórios consolidados pelo Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo (CTIR Gov) apontam que as notificações de invasões e golpes virtuais saltaram de 4.903 ocorrências, em 2021, para 10.387 episódios no encerramento do ano passado.

O diagnóstico de vulnerabilidade ganhou contornos práticos no último fim de semana, após uma invasão comprometer temporariamente o sistema de alertas da Defesa Civil. O ritmo de ataques permanece acelerado: de janeiro a maio de 2026, a Rede Federal de Gestão de Incidentes Cibernéticos já catalogou 6.774 registros formais de anormalidades em repartições municipais, estaduais e federais dos Três Poderes.

A radiografia das investidas sofridas pelas instituições públicas nos primeiros cinco meses de 2026 revela que a fragilidade humana continua sendo a principal porta de entrada para os hackers. Praticamente metade das ocorrências (49%) foi enquadrada como engenharia social — jargão técnico para fraudes em que servidores são induzidos por e-mails ou mensagens falsas a fornecer credenciais de acesso e senhas.

O balanço do CTIR Gov expõe os principais vetores das ocorrências deste ano:

  • Engenharia social (49%): Captura de senhas através de links maliciosos;

  • Conteúdo abusivo (47%): Casos que envolvem o vazamento de bancos de dados sigilosos;

  • Intrusões diretas (2%): Acessos forçados a redes internas, somando 146 episódios de indisponibilidade de sistemas ou desfiguração de portais.

Para o doutor em ciência da computação Diego Aranha, professor da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, o patamar de dez mil ataques anuais em sistemas públicos exige mudanças estruturais rápidas.

“É urgente que os entes públicos sejam mais proativos na colaboração com especialistas independentes para aprimorar a segurança dos sistemas e da infraestrutura computacional. Isso passa por uma mudança de paradigma focada na redução da dependência tecnológica no setor público, o que pode ser viabilizado por meio de transparência e código aberto”, avaliou o pesquisador.

O especialista aponta que estancar a curva de crescimento dos crimes virtuais depende da profissionalização do corpo técnico do Estado, sugerindo a exigência de certificações básicas em segurança da informação como critério em concursos ou nomeações de cargos. “A causa é a falta de treinamento e de uma cultura interna de segurança nas instituições”, disse Aranha.

Em posicionamento enviado ao portal Metrópoles, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e o CTIR Gov ponderaram que a escalada estatística de 2026 decorre também de uma melhora nos mecanismos de monitoramento. O órgão expandiu os acordos e passou a consumir um volume maior de feeds de segurança de parceiros externos. A entrada de novas prefeituras e tribunais de Justiça estaduais na rede de compartilhamento aumentou o rastreio, convertendo vulnerabilidades invisíveis em notificações oficiais automatizadas.

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