Uma onda de calor extremo que atinge a Europa provocou um excedente de cerca de mil mortes em apenas três dias na França, informou o Ministério da Saúde do país neste domingo (28). O balanço oficial aponta para um impacto severo sobre o sistema de saúde, e as autoridades locais alertam que os indicadores reais de mortalidade podem ser ainda maiores, uma vez que os dados coletados desde a última quarta-feira (24) possuem caráter preliminar.
De acordo com o comunicado da pasta governamental, o pico da crise climática provocou a quebra de múltiplos recordes mensais e históricos em solo francês. A terça-feira, 23 de junho, fixou-se como o dia mais quente já documentado no país na era contemporânea, ultrapassando os índices térmicos observados durante a histórica crise climática europeia do ano de 2003.
Na data em questão, os termômetros do serviço nacional de meteorologia da França (Météo-France) assinalaram a marca de 44,3°C no município de Pissos. O registro estabelece o teto máximo de temperatura verificado em território francês desde que as medições sistemáticas foram implementadas, em 1947.
Os relatórios epidemiológicos da pasta detalham que a média diária de mortalidade no país saltou substancialmente se comparada aos meses de abril e maio, cujo patamar flutuava entre 900 e mil óbitos por dia, considerando todas as causas. Sob o efeito do calor, a França notificou mais de 1,2 mil mortes em 24 de junho, subindo para patamares superiores a 1,4 mil casos diários tanto em 25 quanto em 26 de junho.
“Esse aumento tem sido mais acentuado nas regiões sob alerta vermelho nos últimos dias, em particular em Île-de-France, Nouvelle-Aquitaine, Bretanha, Centro-Vale do Loire, Normandia e País do Loire”, informou o Ministério da Saúde em nota oficial.
Embora o estresse térmico tenha afetado indivíduos de todas as faixas etárias, a população idosa concentrou a maior fatia da letalidade: cerca de 85% das vítimas tinham 65 anos ou mais.
O monitoramento governamental detectou que o incremento de mortes ocorreu de forma simultânea em leitos hospitalares, casas de repouso e em residências particulares. O dado mais alarmante, contudo, concentra-se no ambiente doméstico, onde o volume de mortes em casa disparou 40%.
“Essa constatação serve como um lembrete da necessidade de medidas de solidariedade para com pessoas que estão isoladas ou vivenciam profunda solidão, inclusive em áreas altamente urbanizadas”, ponderou o relatório ministerial.
O governo francês fez uma ressalva técnica de que os números divulgados são baseados estritamente na emissão de atestados de óbito eletrônicos, os quais cobrem por volta de 60% do total da mortalidade nacional. Os falecimentos ocorridos dentro de habitações particulares sem assistência médica imediata são considerados, temporariamente, um ponto cego estatístico, o que reforça a possibilidade de o balanço final ser revisto para cima.
Apesar de as temperaturas terem sofrido uma leve redução neste domingo após dias consecutivos com marcas acima de 40°C, os reflexos do calor alteraram a dinâmica social da capital. A Parada LGBTQ+ de Paris, tradicional evento público programado para ocorrer no sábado (27), precisou ser adiada pelos organizadores em razão dos riscos de desidratação e insolação da população em vias públicas.
