ContilNet Notícias
Cotidiano

Como o consumo de pornografia na adolescência impacta a saúde mental

Por Wellington Vidal, ContilNet 23/05/2026 às 14:13

Celular na escola - Foto: Drazen Zigic/ Shutterstock.com

A curiosidade pelo universo erótico acompanha a humanidade há séculos: de representações pré-históricas do corpo, passando por imagens sexuais em objetos de uso cotidiano nas civilizações antigas, até a emergência da pornografia como é produzida hoje, principalmente na forma de vídeos explícitos. O avanço tecnológico observado nos últimos 20 anos ampliou consideravelmente o acesso a esse tipo de conteúdo — assim como seus impactos na saúde.

Embora faltem estimativas robustas a níveis global e nacional, especialistas estimam que haja um aumento no consumo e que o contato com esse tipo de conteúdo acontece em idades cada vez mais jovens. O livro Handbook of Children and Screens (“Manual de Crianças e Telas”, em tradução livre, sem edição em português) destaca, a partir da literatura científica recente, que a maioria dos adolescentes já viu pornografia, e que mais da metade relata o primeiro contato antes dos 14 anos, intencionalmente ou não.

Um estudo realizado nos Estados Unidos com a participação de mais de 1,3 mil jovens de 13 a 17 anos apresentou dados ainda mais alarmantes: 15% disseram ter visto pornografia online pela primeira vez aos 10 anos ou menos. A idade média do primeiro contato, segundo a pesquisa, foi aos 12 anos. Além disso, 44% buscaram pelo conteúdo, enquanto 58% foram expostos acidentalmente.

No Brasil, um trabalho publicado em 2023 na Revista Brasileira de Sexualidade Humana aponta que o primeiro contato com pornografia ocorreu, em média, aos 13 anos entre os homens e por volta dos 15 anos entre as mulheres. Apesar de ter envolvido apenas 153 pessoas, ajuda a compor o cenário sobre essa realidade no país, assim como outros levantamentos. Em 2025, 8% dos usuários de internet de 9 a 17 anos relataram ter visto, com ou sem intenção, imagens ou vídeos de conteúdo sexual online nos 12 meses anteriores, segundo a TIC Kids Online Brasil, pesquisa do Cetic.br/NIC.br sobre o uso da internet por crianças e adolescentes. Foram entrevistadas 2.300 jovens dessa faixa etária, assim como seus pais ou responsáveis, em todo o país.

Entre médicos, já se sabe que a pornografia afeta o desenvolvimento emocional, sobretudo na fase da adolescência. “O uso frequente como estratégia de alívio de tensão pode reduzir a capacidade de lidar com frustrações e emoções negativas de forma adaptativa e saudável para o adolescente”, alerta o psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita. “Além disso, pode distorcer expectativas sobre corpo, desempenho, gerando ansiedade de performance na relação sexual e afastando o jovem de uma vivência sexual mais integrada e realista.”

De acordo com o especialista, quanto mais cedo e mais intensamente a pornografia entra na vida de um adolescente que ainda não viveu experiências reais ou manteve conversas educativas e vínculos afetivos, maior o risco de ela virar referência primária de sexualidade e, com isso, causar prejuízos.

A perspectiva psicológica e social do fenômeno acende outro alerta: a pornografia pode alterar a forma como adolescentes entendem consentimento, intimidade e reciprocidade. “O indivíduo pode perder a dimensão de limites do próprio corpo e do outro e, com isso, desenvolver episódios de mais impulsividade ou irritabilidade frente a qualquer tipo de frustração”, explica o psicólogo Maycon Torres, professor de psicologia clínica e saúde mental e vice-coordenador do programa de pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro.

Com informações da revista Galileu 

Sair da versão mobile