Pacientes com diabetes diagnosticados com Covid-19 enfrentam uma evolução clínica mais arrastada e um índice significativamente maior de complicações crônicas associadas à chamada Covid longa. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista científica Scientific Reports em abril deste ano.
O monitoramento de 870 indivíduos ao longo de sete meses após a alta hospitalar revelou que a população diabética, além de manifestar maior lentidão para reverter o quadro infeccioso original, apresentou predisposição acentuada para o desenvolvimento de patologias cardiovasculares severas, como o infarto agudo do miocárdio e a angina (dor no peito provocada pela diminuição do fluxo sanguíneo para o coração).
Os resultados indicam um impacto sistêmico que deteriora a autonomia física e a capacidade cognitiva dos sobreviventes com a comorbidade. De acordo com o levantamento, o coronavírus deflagra um estresse biológico severo no sistema circulatório dos diabéticos. A resposta inflamatória característica da doença é ampliada pela toxicidade direta do vírus, convertendo o tecido cardíaco em um dos principais alvos da Covid longa.
Essa fragilidade generalizada reflete-se diretamente na rotina dos pacientes. Os dados técnicos apontam prejuízos severos na capacidade de execução de exercícios físicos e na mobilidade geral. O índice de quedas acidentais após o período de internação atingiu 21% entre os pacientes com diabetes, uma taxa que cai quase pela metade (11,1%) quando analisado o grupo de controle sem a disfunção metabólica.
Para subsidiar a pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), os cientistas avaliaram 320 pacientes com diabetes mellitus e 550 indivíduos sem a enfermidade. A amostragem integra uma base de dados mais ampla, com 3.000 internados na primeira onda da pandemia no Brasil, entre março e setembro de 2020.
Submetidos a exames clínicos e laboratoriais detalhados sete meses após deixarem os hospitais, 94,3% dos integrantes do grupo sem diabetes apresentavam recuperação biológica considerada completa. Entre os diabéticos, o percentual de reabilitação integral foi menor, fixando-se em 89,8%.
“O estudo deixa muito claro que é necessário um sistema de saúde estruturado para essa população com diabetes que foi infectada pelo vírus da Covid-19, a fim de evitar que esses sobreviventes fiquem presos em um ciclo de reinternações”, afirma Maria Elizabeth Rossi da Silva, chefe da Unidade de Diabetes do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC-FMUSP).
A investigação também identificou um fenômeno reverso: 7,3% dos voluntários que originalmente não tinham diabetes desenvolveram a doença após o contato com o vírus. Os pesquisadores avaliam duas hipóteses complementares para o fenômeno: a atuação destrutiva direta do patógeno sobre as células do pâncreas ou o desencadeamento precoce da condição crônica em indivíduos que já carregavam uma predisposição genética subjacente.
