Doença humana é detectada em macacos na Amazônia e acende alerta

Pesquisa internacional identifica vírus da hepatite B em primatas de áreas devastadas pelo desmatamento

Por Fhagner Soares, ContilNet 09/07/2026 às 05:21
Análises em áreas preservadas do rio Japurá indicam índice zero de contágio por hepatite B em primatas/ Foto: Reprodução

O avanço da fronteira urbana e o desmatamento persistente na Floresta Amazônica desencadearam um fenômeno epidemiológico que preocupa a comunidade científica internacional: a transmissão de patógenos humanos para animais silvestres. Um estudo publicado na revista científica EcoHealth identificou, de forma inédita, a presença do vírus da hepatite B humana (HBV) em populações de primatas neotropicais selvagens que habitam áreas sob forte impacto ambiental no bioma amazônico.

O processo, classificado tecnicamente como “zoonose reversa” ou antroponose, ocorre quando enfermidades típicas de populações humanas são transferidas para espécies animais devido à degradação de habitats e à consequente proximidade forçada entre homem e fauna. A pesquisa foi coordenada em parceria entre a Universidade de Salford, na Inglaterra, e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Para mapear a extensão do contágio, o grupo de cientistas coordenado pelo professor Jean Boubli, da instituição britânica, analisou amostras biológicas de sangue e de tecido hepático de 88 primatas, abrangendo 28 espécies distintas. O material laboratorial foi coletado em duas frentes geográficas contrastantes da Amazônia Legal.

A primeira amostragem concentrou-se em regiões de forte perturbação antrópica localizadas nos estados de Rondônia e Mato Grosso. Nesse território, marcado pela fragmentação florestal, o vírus da hepatite B foi detectado em 17 dos 49 macacos avaliados. Por outro lado, na segunda frente de testes — conduzida em uma zona remota e preservada no interior da floresta, ao longo do alto rio Japurá, no estado do Amazonas —, nenhuma das 39 amostras coletadas em 11 espécies diferentes apresentou vestígios do microrganismo.

Os modelos estatísticos gerados pela pesquisa demonstraram que a densidade populacional humana nas franjas da floresta funciona como um elemento preditor para a infecção dos animais. Os exames de sequenciamento genético confirmaram que as variantes virais encontradas nos primatas (genótipos VHB-A e VHB-D) são exatamente as mesmas que circulam de forma endêmica entre os moradores daquelas localidades da região Norte.

Embora o mecanismo exato de transmissão biológica ainda dependa de investigações complementares — uma vez que o HBV humano exige contato íntimo, troca de fluidos ou exposição sanguínea para infectar um novo hospedeiro —, os pesquisadores apontam que a proximidade física em áreas desmatadas facilitou o salto de espécie.

O principal temor dos sanitaristas reside no risco de o vírus sofrer mutações adaptativas no organismo dos primatas e, posteriormente, retornar para as comunidades humanas sob uma forma mais agressiva ou resistente às terapias médicas atuais. Diante do cenário de vulnerabilidade sanitária que circunda a Amazônia Ocidental, os autores do relatório cobram a implementação urgente de protocolos de vigilância epidemiológica e barreiras preventivas para monitorar a saúde da fauna e das populações locais.

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