O fenômeno El Niño já está influenciando as condições climáticas ao redor do Brasil. É o que afirmou Alexandre Nascimento, meteorologista da Nottus, em entrevista ao AGORA CNN deste domingo (19). “A situação climática atual é resultado de um conjunto de fatores que atuam simultaneamente, criando condições propícias para eventos extremos”, explicou o meteorologista.
Segundo o especialista, os temporais recentes que atingiram o Rio Grande do Sul são característicos do fenômeno. “Os efeitos podem se estender a outros estados do Sul, além de São Paulo e Mato Grosso do Sul”, pontuou Nascimento.
Bloqueio atmosférico e calor intenso favorecem temporais
“Nós temos um sistema de alta pressão sobre grande parte do Brasil e esse sistema funciona como se fosse uma barreira, um bloqueio atmosférico que faz com que as frentes frias não consigam se deslocar”, explicou. Diante desse bloqueio, as regiões à frente da frente fria registram temperaturas muito acima do normal para a época do ano, com destaque para 35 graus em diversas cidades do Centro-Oeste e próximo de 30 graus nos estados do Sul — cerca de 10 graus acima da média — nos últimos dias.
“O choque do calor com o frio forma nuvens ainda mais carregadas, que são abastecidas pelo ar quente e úmido que vem da Amazônia”, afirmou Nascimento. “Essa combinação de instabilidade frontal com a instabilidade termodinâmica resulta em volumes de chuva muito significativos”, pontuou. Como exemplo, ele citou que na região de Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Rio Grande do Sul, choveu 115 milímetros em apenas 24 horas.
Chuva avança pelo país ao longo da semana
Alexandre Nascimento detalhou a trajetória esperada das instabilidades climáticas ao longo dos próximos dias. Segundo ele, a frente fria deve começar a se deslocar pelo Rio Grande do Sul ainda neste domingo, com previsão de chuva chegando à região de Porto Alegre no fim da tarde. Já na terça-feira (21), as instabilidades avançariam por Santa Catarina e Paraná, e na quarta-feira (22) chegariam a São Paulo e ao Mato Grosso do Sul. Além das chuvas intensas, o meteorologista alertou para a formação de tempestades de vento com rajadas que devem superam os 70 km por hora, podendo chegar a 100 km/h em algumas áreas.
O mesmo bloqueio atmosférico responsável pelas chuvas no Sul explica o calor e a baixa umidade registrados em outras regiões do país. “Em São Paulo e no Centro-Oeste, por exemplo, o bloqueio mantém o céu aberto, resultando em calor elevado e a umidade em queda durante as tardes”, afirmou o metereologista. Nascimento ainda informou que a umidade relativa do ar chegou próximo de 30% em São Paulo — nível que coloca a região em estado de atenção — e atingiu apenas 18% na região do Vale do Araguaia, na divisa entre Mato Grosso, Goiás e Tocantins. Em Brasília, o índice chegou a 22% na região do Gama. “Essa condição deve permanecer até pelo menos quarta-feira em grande parte do Brasil. A semana, que começou quente e seca, deve terminar fria e com chuva”, revelou.
El Niño eleva risco de eventos extremos no Sul do Brasil
Para Nascimento, as condições climáticas atuais já carregam as marcas do El Niño. O metereologista teme que o Rio Grande do Sul pode enfrentar um cenário dramático semelhante ao das enchentes históricas de 2024. O risco, no entanto, não se limita ao Rio Grande do Sul. “Os demais estados do Sul e até mesmo, eventualmente, São Paulo e Mato Grosso do Sul, correm risco. É necessário constante atenção para uma eventual emergência”, afirmou Nascimento.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por afonsobenites.
