Seis empreendimentos imobiliários recentes situados na cidade de São Paulo passaram a centralizar uma teia jurídica que conecta os dois maiores escândalos financeiros e de corrupção da história recente do país. Os projetos funcionam estruturalmente como sociedades firmadas entre a Novonor denominação corporativa adotada pela antiga construtora Odebrecht após os desdobramentos da Operação Lava Jato e fundos de investimento diretamente vinculados ao banqueiro Daniel Vorcaro.
O portfólio imobiliário sob investigação encontra-se em diferentes estágios de execução operacional. Um dos condomínios de alto padrão teve suas obras concluídas há menos de um mês, disponibilizando 21 apartamentos residenciais de luxo. Outros três projetos estão na fase de comercialização de mercado, totalizando a oferta de 555 unidades de habitação e 70 espaços comerciais não residenciais. Duas incorporações adicionais constam no planejamento das companhias, tendo sido anunciadas publicamente, mas ainda sem a realização dos lançamentos comerciais formais.
Toda a carteira de imóveis foi atingida por decisões de bloqueio judicial determinadas pelos magistrados da 3ª Vara de Falências de São Paulo. As restrições patrimoniais recaem sobre o conjunto de bens e ativos do antigo controlador do Banco Master, que cumpre mandado de prisão preventiva.
Estrutura societária e triangulação de fundos
Os seis complexos imobiliários estão divididos sob a titularidade de cinco incorporadoras de propósitos específicos. Pelo braço empresarial oriundo da Odebrecht, a participação acionária é representada por meio da Orion Empreendimentos, empresa que absorveu os ativos residenciais e corporativos da extinta Odebrecht Realizações Imobiliárias.
Por outro lado, a perna societária ligada a Daniel Vorcaro opera mediante sociedades anônimas cujos únicos acionistas formais são dois fundos de investimentos fechados. De acordo com os relatórios técnicos apresentados pelo liquidante oficial do Banco Master, essas estruturas financeiras foram intencionalmente desenhadas e utilizadas como mecanismos de ocultação patrimonial para a aquisição e a titularização legal de imóveis destinados ao usufruto e ao benefício particular do banqueiro.
A constatação dos fluxos levou o juízo da 3ª Vara de Falências a impor a averbação de pendência judicial sobre a Magma Empreendimentos e os fundos Lunar e Quality Golden. A providência ostenta natureza cautelar e serve de fundamentação preparatória para a interposição de uma futura ação revocatória. O instrumento jurídico será manejado pelo liquidante judicial na tentativa de rastrear e repatriar os recursos e ativos financeiros desviados da instituição bancária falida. Até o momento, nenhum investidor terceirizado ingressou com contestações formais contra os bloqueios.
Relação com o futebol e histórico acionário
A composição interna das firmas revela o caminho percorrido pelo dinheiro. A Magma Empreendimentos, parceira direta da antiga Odebrecht em ao menos três dos condomínios já lançados na capital paulista, possui o controle acionário partilhado entre dois Fundos de Investimento em Participações (FIP): o Quality Golden e o Lunar.
O mapeamento da contabilidade indicou que o fundo Lunar manteve como investidor principal, ao menos até o mês de outubro de 2024, uma carteira coletiva denominada Astralo 95. Este mesmo fundo de investimentos era o responsável pela custódia e titularidade das cotas acionárias de propriedade de Daniel Vorcaro na Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Clube Atlético Mineiro, consolidando a correlação entre os fundos imobiliários paulistas e os investimentos esportivos do ex-banqueiro.

