Empresa sancionada pelos EUA recebeu R$ 514 milhões de rede ligada ao PCC

Investigação liga empresa de Victor Shimada a logins compartilhados com firma de fachada

Por Fhagner Soares, ContilNet 02/07/2026 às 06:32
Investigação liga empresa de Victor Shimada a logins compartilhados com firma de fachada/ Foto: Reprodução

Uma das empresas incluídas na lista de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos nesta quarta-feira (1º), por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), movimentou R$ 514,5 milhões com uma firma acusada de integrar a rede de lavagem de dinheiro de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.

A empresa sob suspeita é a Victory Trading Intermediação de Negócios, controlada por Victor Henrique de Oliveira Shimada. O repasse milionário ocorreu no intervalo de um ano, entre setembro de 2023 e setembro de 2024, efetuado pela Wave Intermediações — apontada como um dos principais CNPJs da chamada rede Arpar.

A rede Arpar é composta por mais de 40 empresas interligadas com indícios de atuação como firmas de fachada. No relatório final da CPMI do INSS, elaborado pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), o grupo é descrito como uma “estrutura de lavagem de capitais que movimentou mais de R$ 39 bilhões e é responsável pelo branqueamento dos recursos desviados no esquema do INSS”. A Wave Intermediações, responsável pela transferência à Victory, não possui relação societária com a Wave Construções Inteligentes, outra firma punida por Washington.

Esta é a primeira vez que o governo norte-americano aplica sanções a indivíduos e empresas por elos com o PCC desde que a organização criminosa brasileira foi enquadrada pela Casa Branca na categoria de grupo terrorista. Além de Shimada e da Victory, as sanções americanas atingiram a empresa Pixwave Soluções de Pagamentos, a secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e a firma Avenidas Flutuantes Unipessoal, sediada em Portugal.

Embora a CPMI do INSS não tenha aprovado a quebra dos sigilos bancário e fiscal da Victory Trading antes do encerramento de seus trabalhos no fim do ano passado, a empresa foi mapeada em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs). Os documentos apontam que a Victory utilizava o mesmo dispositivo digital (como computador ou celular) para efetuar o login bancário de outra peça-chave da rede Arpar: a ACX ITC Serviços de Tecnologia.

A quebra de sigilo da ACX ITC revelou pagamentos à ministra do Superior Tribunal Militar (STM) Verônica Sterman e ao ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nefi Cordeiro. Oficialmente, a ACX possui capital social de R$ 101 milhões e pertence a Ericsson de Azevedo, de 52 anos. Contudo, os investigadores apontam que Ericsson é um provável “laranja”: ele recebeu dez parcelas do Auxílio Emergencial durante a pandemia de Covid-19 e mantém endereço registrado em um condomínio popular no bairro do Jaçanã, na zona norte de São Paulo.

Os tentáculos da Victory Trading e da Wave Intermediações alcançam outras investigações de grande repercussão nacional. Ambos os CNPJs são citados no inquérito do Ministério Público que apura o desvio de repasses do contrato de patrocínio da empresa de apostas VaideBet com o Sport Club Corinthians Paulista. Promotores de Justiça apontam Victor Shimada como o operador financeiro do esquema de desvios no clube de futebol.

As duas empresas também foram mencionadas nos depoimentos de delação premiada do corretor Vinicius Gritzbach, apontado como lavador de dinheiro do PCC, que foi assassinado a tiros no Aeroporto Internacional de Guarulhos em novembro de 2024.

Dados do RIF indicam que a Wave Intermediações movimentou R$ 2,68 bilhões entre setembro de 2023 e agosto de 2025. Os analistas financeiros do governo pontuaram que as transações não possuíam “justificativas nem fundamentos econômicos ou legais”, preenchendo os requisitos que configuram o crime de lavagem de dinheiro — processo utilizado por organizações criminosas para ocultar a origem ilícita de ativos e inseri-los com aparência legal na economia formal.

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