06/09/2026

Especialistas defendem protagonismo indígena na restauração de terras

Amazônia tem 1,79 milhão de hectares com potencial de recuperação

Por Redação ContilNet
Dados do TerraClass de 2022 apontam que as terras indígenas da Amazônia concentram 952,3 mil hectares de áreas degradadas. — Foto: André Villas Bôas/ISA

No Dia da Amazônia, comemorado neste sábado (5), especialistas reforçam a importância de investir na restauração de áreas degradadas em territórios indígenas. Para eles, o processo deve ir além do simples plantio de árvores ou da recomposição da vegetação e considerar os conhecimentos, a cultura e as necessidades das comunidades que vivem nesses locais. As informações são de reportagem da Agência Brasil.

A recuperação pode contribuir para proteger nascentes, ampliar a segurança alimentar, recuperar espécies utilizadas pelas comunidades, preservar conhecimentos tradicionais e ainda gerar renda.

A discussão ganha relevância diante das metas assumidas pelo Brasil para recuperar áreas degradadas. Durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, o país apresentou o compromisso de restaurar mais de 163 mil quilômetros quadrados até 2030.

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Parte desse esforço deverá alcançar territórios indígenas.

Dados do TerraClass de 2022 apontam que as terras indígenas da Amazônia concentram 952,3 mil hectares de áreas degradadas, principalmente ocupadas por pastagens. Outros 24,4 mil hectares são destinados à agricultura e 18,9 mil hectares à mineração.

Além disso, foram identificados 840,5 mil hectares de vegetação secundária. Juntas, as áreas degradadas e de vegetação secundária representam um potencial de restauração de 1,79 milhão de hectares dentro de terras indígenas da Amazônia.

Apesar das pressões, esses territórios continuam entre as áreas mais conservadas do país. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas, divulgado em 2026, apenas 1,7% de toda a perda de vegetação nativa registrada no Brasil entre 2019 e 2025 ocorreu dentro de terras indígenas.

Protagonismo indígena

Para a indígena do povo Kaingang e especialista em restauração da The Nature Conservancy Brasil (TNC), Diana Nascimento, o sucesso de uma iniciativa não deve ser medido apenas pela quantidade de hectares recuperados. A participação das comunidades na definição das ações é fundamental.

“Quando os povos indígenas assumem o protagonismo da restauração, o território deixa de ser visto apenas como uma área onde precisamos recuperar vegetação e passa a ser entendido a partir de sua relação com as pessoas, a cultura, a alimentação, os conhecimentos tradicionais e os modos de vida”, afirma.

Segundo Diana, a participação indígena também muda a própria definição do que significa restaurar.

“Não se trata apenas de quantos hectares foram restaurados ou quantas árvores foram plantadas, mas de entender quais espécies são importantes para aquele povo, quais alimentos e conhecimentos precisam ser recuperados, quais áreas são prioritárias e o porquê, e ainda como essa restauração pode contribuir para fortalecer a gestão e a autonomia do território”, explica.

Onde restaurar

Definir quais áreas devem receber prioridade é um dos desafios diante da extensão dos territórios indígenas e da limitação de recursos. Uma área muito degradada, por exemplo, não será necessariamente aquela capaz de produzir os maiores benefícios para uma comunidade.

Para auxiliar nesse planejamento, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) desenvolveu um sistema integrado de informações voltado ao apoio de decisões sobre conservação e restauração em terras indígenas.

A ferramenta reúne dados sobre degradação, segurança hídrica, biodiversidade, mudanças climáticas, governança territorial, sustentabilidade, educação e saúde, entre outros fatores. O sistema foi desenvolvido em parceria com a TNC Brasil, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o programa britânico UK PACT.

O líder de Ciência de Dados da TNC Brasil, Guillermo Florez Montero, explica que a ferramenta permite combinar diferentes variáveis e atribuir pesos a cada uma, de acordo com os objetivos de determinado projeto.

Uma terra indígena com áreas de preservação permanente, cabeceiras de rios ou matas ciliares degradadas, por exemplo, pode ser considerada prioritária mesmo que não apresente o maior nível de degradação.

“Podemos considerar áreas localizadas em regiões com maior insegurança hídrica, a partir do índice de segurança hídrica, ou mais ameaçadas pelo fogo, outro critério presente no sistema. Dessa forma, conseguimos construir modelos customizados”, explica.

O sistema utiliza uma metodologia de análise multicritério, na qual o usuário seleciona as variáveis e estabelece a importância relativa de cada uma. O resultado é um índice comparativo que ajuda a apontar quais territórios merecem maior atenção de acordo com determinado objetivo.

Florez ressalta, porém, que o resultado matemático não substitui a decisão das comunidades.

“O modelo pode indicar uma terra indígena específica para a implementação de determinado projeto. Mas, se a liderança não quiser, não estiver interessada ou se a iniciativa não estiver entre as prioridades da gestão daquele território, isso deverá ser respeitado”, afirma.

A ferramenta pode ser utilizada, por exemplo, quando surgirem recursos destinados à recuperação de áreas degradadas ou projetos de restauração com finalidade produtiva.

“Se tenho um território com altíssima insegurança alimentar, por exemplo, posso priorizar a restauração socioprodutiva nessa área, desde que as demais condições necessárias também sejam atendidas”, diz.

Restaurar cultura e alimento

Os povos indígenas acumulam, ao longo de gerações, conhecimentos sobre sementes, espécies nativas, ciclos naturais, períodos de plantio e colheita, manejo dos solos, plantas medicinais e alimentos tradicionais.

Segundo Diana, as mulheres indígenas têm papel especialmente importante em muitos territórios, principalmente na produção de alimentos, conservação de sementes e transmissão desses conhecimentos.

“Valorizar esse conhecimento pode contribuir para recuperar espécies e alimentos tradicionais, fortalecer a segurança alimentar, aumentar a resiliência das comunidades, ao mesmo tempo que conservam grandes áreas de biodiversidade”, afirma.

Para a especialista, o conhecimento tradicional não deve ser colocado em oposição ao conhecimento técnico.

“Quando conhecimentos tradicionais e conhecimentos técnicos dialogam, podemos encontrar soluções mais adequadas às características de cada território”, diz.

“A restauração, portanto, pode ser também um processo de recuperação de conhecimentos, práticas culturais, sementes, alimentos e relações com o território”, complementa.

Restauração também exige prevenção

Mineração, fogo, expansão de pastagens e outras formas de alteração do uso da terra afetam os territórios indígenas de maneiras diferentes. Por isso, segundo os especialistas, as ações de restauração precisam estar associadas à prevenção de novos impactos e ao fortalecimento da gestão territorial.

Entre os critérios considerados pelo sistema desenvolvido pela Funai e parceiros estão a existência de instrumentos de gestão ambiental e territorial indígena, a disponibilidade de água, a vulnerabilidade às mudanças climáticas e as condições de saúde das comunidades.

A proposta está alinhada à Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e também dialoga com o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que prevê recuperar 12 milhões de hectares até 2030.

Para Diana, fortalecer as próprias comunidades também deve ser considerado parte da restauração.

“Um território com uma governança fortalecida e comunidades mais resilientes tem maior capacidade de conservar seus recursos naturais, enfrentar as pressões externas e responder aos impactos das mudanças climáticas”, avalia.

Conteúdo Original / Fonte: Agência Brasil

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