A França registrou nesta terça-feira (23) o dia mais quente de sua história recente desde o início das medições oficiais do país, em 1947. De acordo com o serviço meteorológico nacional, Météo-France, os termômetros atingiram a marca extrema de 44,3°C no vilarejo de Pissos, no departamento de Landes. Cidades de grande porte também enfrentaram marcas inéditas para qualquer período do ano, como Bordeaux, que registrou 42,1°C.
O indicador térmico nacional — índice que calcula a média ponderada entre as temperaturas diurnas e noturnas coletadas em 30 estações meteorológicas de referência pelo território francês — alcançou 29,8°C. O índice superou em 0,4°C os recordes históricos anteriores do país, estabelecidos em 5 de agosto de 2003 e em 25 de julho de 2019.
Metade do território francês foi colocado sob alerta vermelho, o nível máximo de emergência civil. Em uma tentativa de escapar do calor sufocante, ao menos 40 pessoas morreram afogadas em praias, rios e lagos do país nos últimos dias, acendendo o sinal de alerta nas autoridades de resgate.
A atual onda de calor extremo afeta simultaneamente outras nações da Europa Ocidental, como Espanha, Itália e Reino Unido, que também registram máximas rotineiras acima dos 40°C. O gatilho meteorológico imediato para o fenômeno é um sistema de alta pressão conhecido como bloqueio ômega, termo derivado da semelhança que o fluxo dos ventos assume nos mapas de previsão, lembrando a letra grega $\Omega$.
Na prática, o bloqueio atua como uma barreira atmosférica rígida que paralisa a dinâmica tradicional do clima europeu. O processo se desenvolve em etapas consecutivas:
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Estagnação da corrente de jato: O corredor de ventos de alta altitude que empurra os sistemas de oeste para leste é interrompido.
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Efeito tampa: A massa de alta pressão se posiciona sobre a Europa Central e Ocidental, bloqueando a chegada de frentes frias e prendendo o ar quente no mesmo local por dias seguidos.
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Radiação contínua: A ausência quase total de nuvens limpa o céu, permitindo que a radiação solar incida diretamente sobre o solo, superaquecendo as cidades de forma ininterrupta e impedindo o resfriamento inclusive durante as noites.
Especialistas e climatologistas investigam se as mudanças climáticas de origem antrópica estão aumentando a frequência de surgimento dos bloqueios ômega. Embora ainda não exista um consenso científico definitivo sobre essa dinâmica de circulação de alta pressão específica, há um entendimento unânime de que o aquecimento global torna essas ondas de calor mais frequentes, severas e duradouras.
Dados do programa europeu Copernicus apontam que a Europa é o continente que se aquece mais rapidamente no mundo. Desde a década de 1980, as temperaturas na região sobem a um ritmo duas vezes superior à média global. O monitoramento confirmou que 2024 fechou como o ano mais quente já registrado na história global e europeia, exibindo também um salto nos dias de “estresse térmico” — quando as condições meteorológicas extrapolam a capacidade de resfriamento do corpo e geram riscos biológicos graves à vida humana.


