Governo Federal e Prefeitura trocam acusações de omissão após morte em ponte

Secretaria de Patrimônio da União afirma que estrutura ferroviária é irregular e nunca teve aval para esportes radicais

Por Fhagner Soares, ContilNet 15/06/2026 às 05:35
União e Prefeitura de Limeira divergem sobre culpa por falta de lacre em ponte após morte/ Foto: Reprodução

A morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante um salto de rope jump na Ponte do Esqueleto, abriu uma crise institucional e jurídica envolvendo a responsabilidade sobre a estrutura viária situada no interior de São Paulo. Em manifestação oficial divulgada nesta segunda-feira (15), o Governo Federal afirmou que jamais autorizou a exploração de atividades esportivas ou turísticas no local e revelou que vinha cobrando medidas para impedir o acesso à área antes mesmo do acidente fatal.

A declaração do Executivo federal ocorre poucas horas após a Prefeitura de Limeira anunciar que ingressará com uma ação judicial contra a União por suposta omissão na guarda e manutenção do perímetro. O embate político e administrativo ganhou contornos jurídicos simultaneamente à decisão do Poder Judiciário, que converteu em preventiva a prisão em flagrante dos três operadores técnicos apontados pela Polícia Civil como responsáveis diretos pela queda da jovem.

Em nota técnica, a Secretaria de Patrimônio da União (SPU), órgão subordinado ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), informou que a Ponte do Esqueleto integra o traçado de um ramal ferroviário planejado pela extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) que nunca chegou a ser efetivamente implantado. Conforme o relatório, a fundação está encravada em propriedades particulares e carece de qualquer tipo de licenciamento ou aval federal para sediar eventos públicos.

A SPU pontuou que o espaço só foi formalmente incorporado ao patrimônio imobiliário da União neste ano. Apesar disso, o órgão sustenta que desde 2024 expedias solicitações formais às administrações municipais da região para que cercassem o local. Segundo a secretaria, as tentativas de isolamento físico da estrutura foram travadas por debates na Câmara Municipal de Limeira e por pressões de empresários do setor de turismo de aventura.

“Entendemos que os poderes públicos de todos os níveis precisam, imediatamente, juntar esforços para evitar de forma definitiva o acesso à Ponte do Esqueleto e coibir atividades ilegais”, registrou a SPU em nota.

A tese da União é integralmente rebatida pelo prefeito de Limeira, Murilo Félix. O chefe do Executivo municipal argumenta que, por se tratar de um bem de propriedade federal, cabe exclusivamente aos órgãos da União o dever legal de exercer o poder de polícia, fiscalização, manutenção estrutural e controle de circulação de transeuntes no local.

Segundo o município, a gestão local vinha emitindo alertas e cobrando providências desde o início de 2025 por meio do envio de múltiplos ofícios institucionais que detalhavam a vulnerabilidade e os riscos associados à realização de saltos clandestinos de grande altura.

“É preciso apurar a responsabilidade pela falta de controle de acesso a uma área federal que, há anos, apresenta riscos conhecidos e segue sem as medidas de proteção necessárias”, declarou Félix, assegurando que o município prestará apoio logístico aos inquéritos da Polícia Civil.

Maria Eduarda Rodrigues de Freitas foi a óbito na manhã de sábado (14) ao saltar de uma plataforma de 40 metros de altura na modalidade “aviãozinho”, na qual o praticante é projetado horizontalmente de bruços. Investigações preliminares demonstraram que as duas cordas grossas de alpinismo que deveriam guiar o amortecimento da queda permaneceram presas na base de madeira, sem terem sido conectadas à cadeirinha e aos mosquetões vestidos pela jovem. Ela despencou em queda livre e morreu no local, sob gritos de desespero de testemunhas que filmavam a ação.

Os técnicos Luis Felipe Feliciano Egoroff (32), Vitor de Freitas Gonçalves (27) e Maicon Fernandes Cintra (42) seguem custodiados preventivamente e respondem por homicídio com dolo eventual, modalidade em que se assume o risco do resultado. Em depoimento, o trio alegou ter sofrido um “apagão” mental que os impediu de lembrar quem deveria realizar a vistoria dos cabos.

A versão foi categoricamente rechaçada pela delegada responsável pelo caso, Andréa Dantas Levy. “Em um esporte de risco desse, era para terem checado três vezes”, afirmou a policial. Horas antes do acidente, Maria Eduarda publicou uma foto em tom descontraído nas redes sociais ironizando a situação: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???”, escreveu a jovem antes da queda.

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